terça-feira, maio 22, 2007

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La Pietà
Michelangelo Buonarroti
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quinta-feira, maio 17, 2007

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Foi aquele olhar que pintei para sempre
Sei-o
Puro, mágico, irrepetível
De dia e hora esquecidos
Moldura em torno dos rostos, nossos, a afastar o mundo
E éramos sós, na silenciosa beleza daquele amor.

Quadro que viajará comigo
Agora pendurado na parede da minha alma
Embalado na serenidade que envolve as certezas calmas
E onde repousei o meu sorriso.

Não sei do eterno retorno das coisas
Não levo uma parede nua
Não espero novidades
Quero sonhos.

A paz em pontas de dedo...tocam-me a medo?
Sou viva na inquietação

Passo
E permaneço.

Évora, Maio de 2007
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quarta-feira, maio 16, 2007

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blank
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terça-feira, maio 15, 2007

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Insónia.
Quando os outros estão ausentes. Escondidos.

Silêncio.
Nele correm as horas que enlevam o meu pensamento.

Incerteza.
É a escuridão da noite que me embala o sono.

Desejo.
Ao ser habitante da minha alma.

Inquieto.
Foge o meu coração.

Sonho.
Aqui, nunca estou.
Não estou por perto...



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segunda-feira, maio 14, 2007

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Speaker's Corner

Deus pode bem ter um nome e uma morada.
E pode dar-se o caso de podermos estar a ouvir a sua voz.
Sufjan Stevens é de Detroit.
Em "Illinois" ele compõe canções belas, para nós, comuns mortais.






http://www.pitchforkmedia.com/article/record_review/22059-illinois?artist_title=22059-illinois

http://asthmatickitty.com/musicians.php?artistID=5
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sexta-feira, maio 11, 2007

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Os Cantos de Maldoror dos Mão Morta



Estreia hoje em Braga, no Theatro Circo

"Adolfo Luxúria Canibal rodeou-se de cúmplices para pôr em palco a obra "Os Cantos de Maldoror", de Isidore Ducasse (sob o pseudónimo de Conde de Lautréamont). O espectáculo tem música, teatro, vídeo e declamação. E tem uma aura de negrume, crueza e desconcerto que faz eco do universo Mão Morta."

http://www.mao-morta.org/

Outras apresentações:
PORTALEGRE, Centro de Artes do Espectáculo, a 19 de Maio.


quinta-feira, maio 10, 2007

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quarta-feira, maio 09, 2007

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mentira. não sou.


Verdade.

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segunda-feira, maio 07, 2007

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et....Vive la France?



Pois é.
Monsieur Sarkozy eleito... agora, vamos aguardar e assistir ao tratamento que ele vai dar à 'escumalha'.
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sábado, maio 05, 2007

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Inteira

Sou inteira quando escrevo.

Quando escrevo sou inteira.
Sou mais eu do que sou
Quando sou apenas eu.

Quando escrevo sou outra
Que não eu, se apenas sou.

Sou inteira quando escrevo.


Évora, Maio 2007
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segunda-feira, abril 30, 2007

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Today I am



a small blue thing
like a marble, or an eye



With my knees against my mouth
I am perfectly round
I am watching you

I am cold against your skin
You are perfectly reflected
I am lost inside your pocket
I am lost against
Your fingers

I am falling down the stairs
I am skipping on the sidewalk
I am thrown against the sky
I am raining down in pieces
I am scattering like light
Scattering like light
Scattering like light

Today I am
A small blue thing
Made of china
Made of glass

I am cool and smooth and curious
I never blink
I am turning in your hand
Turning in your hand
Small blue thing
S. Vega
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quinta-feira, abril 26, 2007

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A Salvação tem o tempo de um sorriso onde vive a Eternidade

Saiu deixando os amigos a divertirem-se, precisava apanhar ar, retirar-se por algum tempo.
Chovia, o ar lá fora era fresco, o Céu corria.
Soube-lhe bem pendurar-se no parapeito, amparou as gotas da chuva na face e fechou os olhos.
Quando os abriu de novo pensou que não pertencia àquele momento, estava deslocada, longe, inquieta.
Ficou por ali um pouco, encostada no nada.
Voltou-se para regressar para dentro, para junto dos seus, não tinha vontade de o fazer, estava atordoada, o coração mais acelerado que o normal. Era normal.
- Espera!
E uma mão agarrou a sua com convicção, o gesto fê-la voltar-se, conhecia-o.
- Pareces perdida. Espera..
E sorriu-lhe, na aproximação.
- Perdida? Não... acho que não. Vim apenas apanhar ar.
E sorriu-lhe.
As palavras dele deixaram-na triste, baixou o olhar.
Mas depois, e num repente, a sinceridade urgia, quis dizer-lhe a verdade. Mal se haviam cruzado antes. Eram estranhos.
- Só. Viste-me só. Foi isso...
Ele fixou-a como se surpreendido e desviou o olhar, na direcção do chão seguiram os seus olhos. Não estava. Nada disse.
E sorriu-lhe de novo.
Ela sorriu-lhe de novo.
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segunda-feira, abril 23, 2007

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Obra-prima


“Da magnífica residência dos Sackville-West, o castelo de Knole, Virginia faz a moldura da sua biografia fantástica; de Vita, herdeira de uma das maiores famílias de Inglaterra, o modelo do seu herói. Homem e depois mulher, mas sobretudo homem e mulher, Orlando poderia ter saído com todas as suas armas do cérebro do Aristófanes do Banquete (…) Virginia Woolf não se sente apenas tentada pela originalidade antropológica de Orlando. O que a interessa no personagem é a inumerável variedade de combinações possíveis que permite a ausência das obrigações humanas habituais. (…) Tesoureiro ou embaixador, perseguidor de raparigas ou musa de espíritos apaixonados pela beleza, melancólico ou exaltado, trocando as calças pelas saias ou refugiando-se na sua tebaida de campo para escrever o seu poema, a sua natureza dupla presenteia-o não com duas nem com dez, mas com cem vidas diferentes.” Monique Nathan, em Virginia Woolf
Relógio D'Água Editores
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quarta-feira, abril 18, 2007

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Uma carta para ti

No início, foi um fraquinho por ti. A primeira entrevista, todas as outras que se seguiram. O documentário. Depois, o palpitar do meu coração perante a frase lançada qual flecha de cupido que não vê, mas.. pim! atingida inesperada e inequívocamente.
Li-te e não consegui ler-te. Não sei porquê. Ou não sei explicar-te o porquê, se não sei como argumentar a minha desistência perante a dificuldade em ler-te. Os teus livros, apenas. Acompanhei levemente a tua vida, mais ou menos a par do que ias fazendo. Fui ver-te duas vezes, ouvir-te falar. Comovem-me as tuas palavras ditas. A tua voz. Há uma suavidade inviolável, sublime, no tom da tua voz, de vez em quando...foi isso. Foi apenas isso, foi tudo nisso.
Também me desesperam algumas palavras tuas, pesadas e despropositadas, algumas palavras tuas. Mas admiro-te. Aprendi a escutar-te, sei ler-te nas entrelinhas. Leio-te na pessoa, não no escritor de romances. Poderei fazê-lo, assim, quase levianamente?
São enternecedoras quase todas as tuas crónicas. Li algumas das cartas que escreveste em África, na guerra, para a tua mulher. Cartas de amor, são ridículas, dizia o poeta. E quem as não tem? Quem nunca as escreveu? Gostei de ler-te no auge da paixão. Achei graça. Apeteceu-me passar os meus dedos pelos teus cabelos, e fazer-te uma careta brincalhona, se fossemos amigos.
Numa tarde faltei no emprego, para te ir ver pela primeira vez. Não por seres famoso, não por escreveres livros que te deram notoriedade mundial - se eu não consigo ler-te neles?, mas queria ver-te de perto. Escutar a tua voz. Cheguei atrasada, não havia lugares próximos da mesa onde estavas sentado, ainda espectador de nós. Sentei-me nas escadas. Ali fiquei até ao fim do tempo que nos deste, no incómodo da minha posição, a mão amparando-me o queixo e os dedos a esconderem os meus lábios que desenhavam um sorriso tímido. Foi quando me apaixonei.
Mais tarde, voltaste. E eu voltei a repetir a falta no emprego, desculpa mal amanhada, quis ver-te e ouvir-te de novo. Desta vez era uma coisa mais solene e vistosa, um congresso internacional dedicado à tua pessoa. Foi aí que senti a primeira picada, o primeiro senão. Mas a minha paixão já era amor e o amor persiste. Não é?
Foste arrogante e presumido. Verdadeiro.
[ainda que todas as rosas tenham espinhos, continuam a ser belas]
Foste amor e generosidade. Vislumbrei o romantismo escondido, que eu ainda não apreendera, estava nas tuas palavras, ali. A doçura inteligente na capacidade de expores a tua humanidade, sem pudor, ainda que pareça lá estar. O meu amor cresceu.
Em tempos, embaraçava-me a possibilidade de me dizer apaixonada por ti, sem cair no rídiculo. Não faz sentido esconder um amor platónico. Estranha, esta tendência de tudo compartimentarmos de forma estanque, como se o amor não contivesse em si, mil possibilidades...
Eu não era tua fã, não o sou hoje, encantei-me pela tua pessoa, pública, é certo, mas que relevância tem um detalhe em que a única coisa que interessa, a única válida, está na possibilidade de ter-te conhecido. Vi-te, escutei-te, li-te, sem os livros, apaixonei-me. Brinco com isto, revelo-o a alguns amigos, e sei que não me levam a sério, ainda bem.
Mas hoje quero escrever-te estas palavras, são para ti, não sei o valor delas, sequer se são ridículas, talvez o sejam, como todas as cartas de amor, mas desejava oferecer-tas, o meu inócuo segredo. Precisava mimar-te, depois de te ter lido, esta última vez.

Évora, 17 de Abril de 2007
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terça-feira, abril 17, 2007


Actual


Revi ontem La Haine, de Mathieu Kassovitz. Muito actual, este filme. Muito bom.
Um murro no estômago, daqueles que fazem falta de vez em quando e não sou muito masoquista. Mas o cinema tem este dom de fazer da realidade grande ficção, quando, quem dirige as tropas, sabe mostrar desta forma as entrelinhas do real.
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sexta-feira, abril 13, 2007

A porta
 
Saíste do prédio batendo com a porta, suavemente, como se assim evitasses que te escutassem, o teu bater e surgisse de repente alguém a implicar contigo. Olhaste em redor, desconfiada, o caminho livre, não havia perigo à vista, podias ir à tua vida. Seguiste pela rua baixando a cabeça, discretamente, mas às vezes é pior a emenda e num instante a ergueste de novo, veio-te a imagem dos caloiros, a tua imagem de quando caloira, a baixar a cabeça perante nada, ou coisa que o valha. Continuaste de cabeça agora erguida, sem orgulhos, sem nariz empinado, um discreto sorriso a disfarçar o medo, medo de quê?, e afinal nem era bem medo, era só um medo assim-assim, e viraste na esquina, nova rua acima, um homem estranhamente vermelho, não corado, vermelho, fixava o olhar nos dois telemóveis que segurava nas mãos, parecia não estar ali, sentado nas escadas de acesso aos prédios que o amparavam por trás, parecia longe de tudo o que o rodeava, até do ruído, um ar quase cómico, quase. Foste andando com a imagem dele colada à tua curiosidade, a curiosidade de quê?, e as paredes dos prédios que ladeavam o teu caminho eram feias, escrevinhadas com frases indecifráveis, sobrepostas, arabescos de cor desbotada, estas não foram paredes inscritas para serem lidas com atenção, iam sendo desenhadas apenas para efeitos decorativos, brincaste.
A leveza dos teus passos ia crescendo e em breve avistaste a rotunda onde te disseram que deverias chegar, a referência no caminho, o marco que te levaria a mudar de direcção, estavas a ir bem, não havia que enganar, ainda hesitaste alguns segundos, pareceu-te que já avistaras a tal espécie de vale que terias de descer à direita, e quase seguias por ali abaixo, mas não, precipitação tua, mais uma daquelas inconsequentes e recorrentes, normalmente acabavas a rir, e agora sim, estavas já na rotunda e prestes a chegar ao teu destino: o supermercado. O teu destino, deuses!
Uns quantos miúdos brincavam entre dois prédios, outros tantos rapazes mais à frente, e mais velhos, conversavam alto e animadamente, pensaste que iriam dizer-te alguma coisa quando olharam na tua direcção, mas passaste por eles sem os evitar e eles nada disseram, mas também ó miúda, tu não és loiraça nem alta, nada de decotes pronunciados ou finos saltos altos a produzir caminhares bamboleantes, nada disso, estavas distante da maioria das variáveis utilizadas na fórmula do cliché da mulher-com-quem-homens-se-metem-na-rua. E no entanto, sabes inútil e despropositado qualquer cliché, quando todas as mulheres são abordadas nas ruas, das mais diversas formas, por incontáveis motivos. Chegaste ao teu destino sã e salva, nada de assaltos, nada de se meterem com a tua frágil pessoa, neste momento, já lá vão os tempos em que vivias tu no subúrbio e andavas sozinha madrugada dentro, ainda que depois de beberes uns quantos moscatéis a mais, quando indevidamente contabilizadas as consequências desse acto eufórico com que se celebravam as sextas e os sábados à noite no Barreiro Velho da tua adolescência, no meio dos amigos, e apesar de tudo, e de estares a armar em suburbana valente, o que é certo é que só te perdeste deles e partiste - pela noite sombria daquela cidade feia habitada por gente bonita – uma única vez, que te lembres. Bom, e ali estavas tu, com receio de seres incomodada porque atravessavas um bairro ‘complicado’, um subúrbio cinzento da Grande Cidade, onde as casas são muito mais baratas que em outros sítios à beira mar plantados e os rapazes que passam droga na esquina têm navalhas nos bolsos e um brilho estranho no olhar e te assustam. Bom, ali estavas tu, que agora vives no campo e também agora tens medo de coisas, que coisas? que não te assustaram durante anos e anos, a entenderes que os preconceitos se perdem durante uma vida inteira, mas também se colam à pele sem aviso prévio de atracagem, e se vão instalando sub-repticiamente sem que deles dês conta senão quando se lembram de aparecer na forma de receios infundados, na maioria das vezes que aparecem.
Voltaste para a casa sem sobressalto, sem obstáculos a ultrapassar senão a curta distância que separou a porta que tinhas batido suavemente, e o ponto de destino a que te propuseras.
Abstraída no caminho, ficou-te a cor da pele do homem sentado nas escadas perto da paragem do autocarro, um misto de tristeza com ironia espreitou à janela da tua alma, fora pela expressão dele que baixaras o olhar, súbita e precipitadamente, como se estivesses a roubar aquele momento de privacidade entre ele e os telemóveis, a interferir no namoro entre ele e as ondas invisíveis que dali partiam, para qualquer lado do mundo, e isso te embaraçasse. Quando regressaste à casa, passaste de novo por ele, sentado no mesmo sítio, cara muito vermelha, fixava os dois telemóveis sem pestanejar.
Depois, quase no fim, surpreendida, sim, não te pareceu logo que o fosses, mas assim aconteceu quando se cruza no teu caminho um senhor cuja idade indefinida é aquela em que não se consegue perceber se a pessoa é idosa, ou se ainda não o é, estava muito bem vestido, o senhor, era bonito, ‘beleza colonial’ pensaste (riste da tua própria parvoíce), lembrou-te a África que não conheces, a África que reconheces e sabe bem. Imaginaste-o em tertúlias de amigos na Ilha, fins de tarde amenos no alpendre do café com chão de madeira, uma luz breve de sabor a mar entrava pelas janelas baixas, sorria. “Muito boa tarde” – ligeiro aceno de cabeça - dissera ao passar por ti, um cumprimento educado de tão sentido, “muito boa tarde” dissera ele e tu só te apercebeste que era mesmo para ti quando já ele tinha passado o teu alcance de visão, quando já tinhas perdido aquela fracção de segundo em que responder-lhe com a mesma educação e porte já não seria possível, e ainda assim, e também por isso, tentaste reparar a tua falta com um “boa tarde” soprado para trás timidamente. 

Ganhaste o dia. Sorrias. Deixaste a porta deslizar livremente, no teu regresso.


Évora, Abril de 2007

segunda-feira, abril 09, 2007

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Ciclo Paul Bowles - NEXT TO NOTHING Exposição de Fotografia de Daniel Blaufuks
«Um Abrigo na Terra» é o título deste ciclo que se prolonga até ao fim do mês com diversos eventos evocadores da obra deste autor mais conhecido como escritor de romances e contos, mas com vasta obra de composição para piano, voz e orquestra. A obra multifacetada de um autor que ocupa lugar de destaque na literatura norte-americana do século passado, e a colecção de fotografias tiradas por Daniel Blaufuks na casa de Paul Bowles em Tânger, levaram o Centro Cultural de Belém a fazer a evocação com este ciclo.Em 1947, Paul Bowles esteve na Europa para estudar composição com Aaron Copland, com o qual, no mesmo ano, visitou Tânger. Copland regressou a Paris mas o escritor norte-americano acabou por ficar naquela cidade do Norte de África até à sua morte, em 1999. "The Sheltering Sky/O Céu que nos protege", adaptado ao cinema por Bernardo Bertolucci em "Um chá no deserto", e "Let it come down/Deixai a chuva cair", são alguns romances da sua autoria. Em Marrocos foi visitado por muitos dos escritores conotados com o movimento da "beat generation", foi responsável por ter inscrito o país no itinerário obrigatório dos intelectuais vanguardistas norte-americanos e revelou algumas das formas mais interessantes da música local. Entre esses grupos contam-se os The Master Musicians of Jajouka, que actuarão no CCB a encerrar o ciclo, a 31 de Março. A abertura do ciclo assinala a inauguração da Sala de Leitura Jorge de Sena com uma exposição de primeiras edições das suas obras, o lançamento da autobiografia, e a inauguração da exposição de fotografias «Next to Nothing» de Daniel Blaufuks, tiradas em Tânger em 1990 num encontro do fotógrafo português com o escritor.(...).
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Em 1990 fui a Tânger para me encontrar com Paul Bowles. Os seus livros tinham-me fascinado, mas mais do que isso a sua vida. Compositor e escritor, viajante no seu tempo, alguém que procura. Em sua casa encontrei, acima de tudo, serenidade. Tardes preguiçosas à volta da lareira, apenas interrompidas por algumas visitas diárias, e calmos passeios ao mercado. Mesmo assim, estes não eram tempos pacíficos. Agora, dezasseis anos mais tarde, regressei a essa casa e a essas fotografias. Daniel Blaufuks

quarta-feira, abril 04, 2007

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e mais logo, a animar o início de mini-férias... Cansei de Ser Sexy para me dar pica!!
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Honor de Cavalleria

De: Albert Serra
Com: Lluís Carbó, Lluís Serrat, Jaume Badia
Andergraun Films ESP, 2006, Cores, 95 min.

Lisboa - Cinema King - 218480808
SALA 3 14h30 / 17h00 / 19h30 / 21h30; 6ª-Sab, 2ª: 24h15


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quinta-feira, março 29, 2007




Um mundo com tempo para nos dar tempo
Um mundo com humanidade para nos tornar humanos
Um mundo com justiça para nos dar esperança
Um mundo com honestidade para nos respeitar
Um mundo com muitos mundos para nos ensinar
Um mundo sem filhos da puta porque não consigo aceitar.

Um mundo virado do avesso que somos a precisar.

quinta-feira, março 22, 2007

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Por onde começo?
Como te conheço?

Foi nossa a proximidade presente
Na naturalidade das coisas que são.

Aprendo e sorvo mais um pedaço.
O meu puzzle ainda não é, e quando será?, a soma de todos os pedaços que me revelam.

Apaixonei-me por quase tudo, hoje, de novo.
O livro pequeno demais, na forma insólita que o distingue no meio dos outros, adornado em tinta vermelha.

Chegaste e a dança começou. Falaste. Leste. Sorriste.
Como estavas diferente daquela vez. Rígido e tímido, como se não.
Hoje as palavras soltas, com a leveza dos sorrisos que denunciaram o teu humor, rimo-nos contigo.
Os teus olhos mal cruzavam os nossos, daquela vez.
Hoje eras simpático, feliz. Enleva-me o vosso amor, o teu, que perdura e nos deleita pelo olhar que é doce, também.
Está na passagem do tempo pelo corpo que escreve.

Reconheceste-me. É simples reconhecer rostos. Eu quase não te reconhecia. Até vislumbrar-te no olhar, na pose, um fantasma, uma sombra da primeira vez...dissipou-se na honestidade, na leveza tímida das palavras sinceras que nos deste.
Deliciei-me no sabor da leitura dos teus poemas [alguns, escritos para nós] espalhado no éter. Ainda bem que estás à procura. Ainda bem que continuas.

E depois tive de te perguntar. E tiveste de me responder.

[apreendo como se fosse lançada nas águas calmas de um lago pela primeira vez, onde não nos afogamos, onde nos mantemos à tona, sem drama. apreendo isso tudo porque esteve sempre em mim.]

"O peso de cada palavra, quando são tão poucas as palavras que se econtram num verso que é curto, no poema finito e breve - o peso que cada uma tem, como é importante a sua eleição..."

Assustei-me. Acobardei-me. Tive medo.
Depois o teu olhar semi-louco que encontrei no fim do riso, a melancolia das coisas sentidas e que não nos abandona mais, disse-me que não era preciso ter medo.
Depois do livro folheado, depois de mais um poeta descoberto, depois de nos sentarmos contigo, depois de te escutarmos, depois de nos dizeres tudo, depois da simplicidade que embelezou os teus segredos, depois de leres para nós, depois dos interregnos, do ruído, depois da atenção, depois de congelarmos os gestos e os sons, depois dos rebuçados de magia, depois da ingenuidade paradoxal, depois de olhar para o rapaz da camisola vermelha sentado em frente à rapariga-mistério-bela-silenciosa, depois dos embaraços, depois da Margarida nos embalar na gravidade serena da sua voz inteligente, depois da espera até chegar mais perto de ti e falarmos os dois.
Depois escreveste no papel, sorriste, o aviso. Depois o silêncio na cordialidade simpática, o dever a par da curiosidade simples na conversa leve. Depois era tempo que se fazia tarde.

Por onde começo?
Pela "casa de palavras que, um dia, acabarás de ler. Que as palavras te sejam brandas".
Por onde te deixei ficar, a meio do fim.

Como te conheço?
Nas "páginas de homens e mulheres da terra,
de anjos e demónios do céu".
Nas palavras que os meus olhos decidiram que serão poemas, as tuas.

Como posso acabar?
Na sorte do papel esquecido, um poema para ser lido?
Guardei-o para me guardar.
Como posso senão acabar
Na ternura das coisas mais simples,
Que os meus olhos encontram rendidos.
E amar.

Évora, 21.03.2007
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segunda-feira, março 19, 2007

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Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andresen

(para LR)
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quinta-feira, março 15, 2007

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...and
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.........now
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................for
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......................something
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.....................................completely
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.....................................................different
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quarta-feira, março 14, 2007

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segunda-feira, março 12, 2007

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duas partes

E descobri-te, estavas por detrás de ti mesmo.
E floresceu a luz que transpôs a tua aparência.
Repulsa que afastei de vez.

Um eclipse, ao contrário.

Encontro inócuo, o primeiro.
Sem força de tracção até ao teu lugar, nada.

O reencontro, a surpresa, o brilho.
(na aparência está o engano do preconceito)

Ficámos os dois, conversámos os dois, vi o eclipse invertido, soube-me bem respirar este novo ar.
Estava na tua atenção generosa, quiseste mostrar-me alguma coisa, ali, qualquer coisa importante, aprendi.
Estranho como se aprende assim, em tão pouco tempo partilhado.
A tua voz era baixa, suave. O olhar o dos sábios sem ostentação. Raro.
Um encontro em duas partes, só a última me interessa.
Só esta conta.

E ao de leve sopraste-me as tuas palavras, o som embateu no que estava adormecido, inexpugnável.
E revelaste-me.
(inúteis, tanto, as suposições)

Vou guardar a segunda parte, saboreá-la um pouco mais.
Porque invulgares são os eclipses ao contrário no meu firmamento.
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sexta-feira, março 09, 2007

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(deste gostei. gostei bastante até. o filme é muito violento, as personagens são quase todas feias, porcas e más, sente-se o cheiro a sangue em algumas das cenas, uma das minhas actrizes favoritas entra nele, há um enredo de faca e alguidar entre irmãos, não há heróis, ou quase.. deste gostei. e a banda sonora, e as imagens daquela Austrália árida e bela ao mesmo tempo..um mimo.)
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quinta-feira, março 08, 2007

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terça-feira, março 06, 2007

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(Lampard Pop Art)
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segunda-feira, março 05, 2007


antecipação

as almas que abandono tristes
os beijos que não deixei roubar
as palavras que esqueci de dizer
os abraços que não consegui dar

os sonhos que nunca sonhei
as coisas que não quis partilhar
os encontros que não procurei
os amores que não soube amar

os dias que não vivi
as plantas que não cuidei
as horas que apenas fiquei
os sorrisos que não sorri

os amigos a quem desencantei
as paixões que não deixei crescer
os momentos de que me fartei
as viagens que não pude fazer

as canções que não quis escutar
os livros que ficaram por ler
os desejos que não deixei escapar
as mentiras que me ouvi dizer

os gestos que não suportei
a intenção que nunca deixou de o ser
o silêncio que não te dei
os olhares que não quis entender

E o desejo,
o desejo último

E o saber,
esse saber
(do fim)

Salvam-me as folhas dos plátanos,
descem na brisa que me procura.
E eu estarei onde me encontro
com a espuma das ondas,
Na cor do entardecer.

Évora, Março 2007
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sexta-feira, março 02, 2007

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Se a música nos salva da infelicidade, cantar em dueto com outras raças, com outras gentes, a nossa canção, pode salvar-nos das trevas.
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"The introduction into my life of another race, essentially different from mine, in Africa became to me a mysterious expansion of my world. My own voice and song in life there had a second set to it, and grew fuller and richer in the duet."
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in The Shadows on the Grass, Isak Dinesen (Karen Blixen), pp. 4-5, Penguin Books, 1984.

quinta-feira, março 01, 2007

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(e ficava sob as tuas folhas até que o vento me sussurrasse o sonho desse lugar...)
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terça-feira, fevereiro 27, 2007

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"Pertenço a uma linhagem de mulheres à janela, pertenço à terceira geração. A minha bisavó é um caso à parte: nunca estava sem fazer nada, cosia - junto de uma janela, é claro, para ter luz, mas sem quase erguer os olhos - (...) A minha avó sentava-se de tarde na sua poltrona preferida, onde podia estender as pernas, e olhava pela janela. Tinha sempre um tricô no colo, um livro no braço da poltrona, mas ficava ali durante muito tempo sem se mexer, sem pestanejar. Nos últimos anos, talvez esperasse com efeito pelo seu cavaleiro fiel, por aquele Princípe Pudico do Audiovisual que devia, daí a umas horas, entrar pela clarabóia como fazem sempre e por toda a parte os Romeus deste mundo. Mas também acredito que, à sua maneira, ela reflectia - na vida, no amor, em nós -, refazendo a história.

Depois vi a minha mãe esperar por André ou espiá-lo por detrás do reposteiro como princesa na sua torre, não ficava ali muito tempo, ele chegava (...) transpondo todos os obstáculos como o filho do rei abrindo caminho pelo meio dos silvados da floresta encantada, ela abandonava a janela para o acolher no alto das escadas, já não havia vidro, então, nem ecrã, mais nada. Ora, escreve Balzac para explicar o amor que o André inspirou à minha mãe, «na natureza como no mundo das fadas, a mulher deve sempre pertencer àquele que sabe chegar até ela e libertá-la da situação em que enlanguesce».

Quanto a mim...Eu, dava tudo por uma janelinha. Ah! dêem-me o canto de uma janela, ah!, deixem-me ficar de pé com o nariz de encontro ao vidro como uma criança à espera da mãe, dêem-me esse tempo! - Que estás tu a fazer? perguntava o meu pai quando dava comigo assim sem fazer nada (provavelmente a pensar no príncipe encantado, também ele, mas sem lhe ver encanto algum...). Que estás tu a fazer à janela? - nada, respondia eu afastando-me, nada.
O que estou a fazer? A fabricar sonhos, pai, a fabricar um sonho, sem parar. O que faço aqui? Amor, faço amor, não faço outra coisa!
«A natureza de uma mulher, escreve Edit Wharton, é semelhante a uma casa grande com muitas divisões [...], e no quarto mais recôndito, o santo dos santos, a alma está sozinha à espera de um ruído de passos que não chega nunca.»
O objecto da espera, podemos chamar-lhe o príncipe encantado, se quisermos, por piada, a fim de reduzir o sonho à lenda e remeter a mulher para a infância. Mas não é isso. Do que a alma está à espera nesse quarto, e o corpo colado à janela no canto mais recôndito, não é de um príncipe, mesmo encantado, não, é de passos, do ruído de passos - não de um homem que anda, mas do eco de um andar, não do homem a chegar, mas dos passos que não chegam, até ali, até ela, à escuta - não até mim, este não que tudo me opõe, não te amo, não posso, não sei, estes passos que não chegam nunca, nunca lá chegarei, estes passos que me abandonam, será isto razão para deixar de estar atenta? Procede-se da mesma forma com os poemas e os romances? Que se faz senão esperar o que nunca acontece - a forma pura, a inspiração divina, a palavra certa? uma coisa que se possa agarrar sem destruir o desejo que se tem dela? - Que estás a fazer? dizia o meu pai. Estás à espera de quê...ou de quem? - Não, pai, não estou à espera de ninguém, não pretendo nada, não estendo os braços a nada, debruço-me sobre o nada, espírito, corpo, nervos: nada de passivo na espera, é uma tensão, uma atenção - esperar, é procurar -, tendo para o terno e o atento, é uma coisa que não tem nome, diluo-me na paisagem, no vidro, na transparência, passo para trás do espelho, do reflexo, da vaga, está do outro lado o que eu quero, ainda mais longe, ainda...O que uma mulher quer, pela sua natureza, é isto: um além, um horizonte, um vazio ou um deus para além da linha onde se separam o céu e a água - em amor, as mulheres têm mais a ver com a religião judaica: o deus delas ainda não veio. Mas não são só as mulheres, vamos lá, também há homens (são da mesma natureza). (...)

Eis a razão porque não se devem afastar as meninas das janelas nos manuais escolares, mas pôr lá os meninos - porque o rosto à janela, é o sonho, é a arte e é o amor: nem a prisão, nem a ociosidade, não, pelo contrário, uma actividade rica de futuro - uma prática livre do impossível.
Contudo, é claro, o objecto real existe - objecto de amor, objecto de arte: há pessoas que amamos, tal como acabamos por escrever livros. Mas, dirão, que pode fazer o homem amado nesse quarto de mulher onde ela está sozinha, em busca de quê, de quem? Pois bem, pode estar com ela, sozinho com ela, a sós. Amar uma mulher, amar verdadeiramente uma mulher, talvez seja apenas acompanhá-la na sua espera - não acreditar que se é o objecto de todos os seus desejos, aquele cuja vinda pode satisfazê-la, 'não procures mais, sou eu', também não pensar, por oposição, que é estúpido esperar, que é vão, esse movimento em direcção a nada, um feminino irrisório, um sentimentalismo idiota, que não existe, esse deus escondido, esse príncipe. Não, ficar ali simplesmente, no respeito da espera e da vigilância, saber que se é para ela a árvore e não a floresta, a árvore em que ela pintou um ponto de referência tendo em vista um longo, longo caminho, o marco, a moita, um tronco - uma paragem, um arrimo, um repouso, um refúgio antes de prosseguir essa longuíssima espera, essa demanda sonhadora, esse descaminho; dançar com ela em volta desse ponto, a janela, a ponte para o horizonte, o outro, o além, abraçá-la sem a apertar, abraçá-la sem a asfixiar com ciúmes e censuras, junto dessa janela. O amor é então como o poema, um sopro em torno de nada, o beijo do vazio para o qual se estendem os lábios, essas letras que o dedo desenha no embaciado do vidro, esses sinais para escrever na janela o nome de quem não chega nunca."

in O Amor, romance, Camille Laurens, pp. 136-139, D. Quixote, 2004


http://www.evene.fr/celebre/biographie/camille-laurens-3664.php

http://fr.search.yahoo.com/search?ei=ISO-8859-1&fr=cb-eve&meta=vl%3D&p=Camille+Laurens

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

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and the Oscar goes to..



Martin Scorsese!
Merecido, todos o sabem, já de há muito...( O Touro Enraivecido, pá, esse é que tinha sido justo!)
A surpresa: melhor filme, The Departed. Mas se calhar 'bate' mesmo Babel, o filme que dividiu público e crítica..

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

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[passaram 20 anos. fazes-nos falta. ainda. sempre.]


Fui à beira do mar

Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia
Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia
Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo


Zeca Afonso

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

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Às vezes, o bater
do meu coração é tão veloz
Que penso que tenho
de viver mais
depressa
para não o perder.


21.02.2007
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Neon Bible

As 5 músicas que já pude ouvir do álbum novo dos Arcade Fire, são muito boas. Sai a 6 de Março. Há um site onde eles colocaram as letras http://www.neonbible.com/readme.html. A No Cars Go já me deixou rendida. São uma das minhas favoritas, são muito bons, são criativos, são muitos e dão grandes concertos. Até em igrejas. Têm de voltar, alguém tem de os trazer de novo. Há coisas que não podem passar-nos ao lado. Não podem.
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sexta-feira, fevereiro 16, 2007

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timbres

E eu escuto-as. Estou sozinha, sentada em frente a elas. E consigo ouvir as conversas, saltitam céleres, alegremente por entre o grupo. O meu silêncio só é possível quando o procuro em lugares especiais, ali, sou forçada a ouvir as suas conversas. E subitamente, as palavras fralda e filhos soam num timbre vivo, despertam-me a atenção. Pergunto-me da razão de não falar de fraldas e filhos pelos cafés, porque não estou ali sentada, com elas?
É uma estranha em frente a elas, sentada, distante delas, do seu universo feminino, não sabe se sente orgulho ou tristeza. Ou sequer se terá de sentir alguma destas duas...não sente orgulho ou tristeza. Não sente. Apenas uma leve ponta de satisfação, passageira. Como se a caneta, e o papel gasto, o chá e o livro encostado na chávena, bastassem. E o seu timbre silencioso soasse vivo, também.

15.02.2007

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

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Hurt

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of shit
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end

You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

[ a versão (de novo, ouvi há pouco) do Sr Cash - god rest his soul - é qualquer coisa....mas ao vivo, cantada pelo autor, foi qualquer coisa mágica ]
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terça-feira, fevereiro 13, 2007

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o meu amor é...





GRANDE.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

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NINE Inch NAILS
10.02.07 concerto n.º 1 em Portugal



Belo concerto! Vá, tenho de ser justa...um grande concerto!!
O som um pouco mais alto - e melhor - e algumas projecções (pensava que o fariam) e tinha sido perfeito!! Não houve encore, mas, acabar com Head like a hole foi fantástico! O público vibrou, foi um final em grande. A Hurt enfeitiçou-me, linda...
Estes senhores são bem bons ao vivo, sem paragens, e se tocam, caraças!!..
Detalhe: os candeeiros/lâmpadas por cima deles! Cenário minimal, senti ali o espírito Trent Reznor=NIN. Dói-me o pescoço de o abanar, cuspi a minha força:)
E soube a pouco, ao fim de tantos anos à espera..

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

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the joke




["...o primeiro de uma série de desenhos de grandes dimensões desenvolvida a partir das fotografias oficiais de cimeiras do G8. a imagem corresponde a um pormenor ampliado."]
Nuno Ramalho


quarta-feira, fevereiro 07, 2007

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Sónia

Tenho saudades tuas. Há anos que tenho saudades tuas. Mas de vez em quando elas são mais fortes, mais sentidas. Hoje voltei a pensar em ti. Lembro-me sempre do teu sorriso, do teu último sorriso, naquele dia fatídico e triste e cinzento e chuvoso (ainda menos gosto da chuva que nos cai em cima desde então), aquele dia em que te perdi para sempre, depois de um último abraço, depois da nossa última conversa de que só eu guardo memória. Tenho saudades da tua ternura, da tua doçura, do teu olhar meigo. Tenho saudades de seres a minha grande amiga nestas paragens, de me abraçares, dos carinhos e das festas no cabelo, às vezes só de olhares para mim...tenho saudades de estares perto e de me apoiares com as tuas palavras sinceras. Hoje voltei a sonhar. E lembrei-me da tua família, da tua mana linda. De como me senti quando nos reencontrámos, como se tivesse abalado toda a gente só com a minha presença. Talvez isso me tenha feito recuar, parar...porque me tinha proposto a uma coisa e nunca o fiz. Hoje acordei e pensei nisso. Nas coisas que não fazemos e deviamos fazer. No amor que não partilhamos... E como tu sabias fazê-lo bem amiga, como sabias amar e mostrar-nos o teu amor, nesse jeito dengoso e especial, que tanta gente não tem mas tu tinhas. E quem te conheceu e foi teu amigo, sabe bem do que estou a falar, não há aqui exageros ou mitificações, eras assim. Como poderia não ter saudades? Como posso não sentir-me mal quando penso naquilo que devia fazer e não tenho feito?

O primeiro dia, o primeiro momento em que nos vimos, quando chegaste atrasada, com o cabelo molhado, e te sentaste paralelamente a mim, mas longe, que a sala era enorme. Entraste, cabisbaixa e embaraçada e tentaste não dar nas vistas....mas olhei para ti e sorri, achei um piadão ao cabelo molhado e ao ar meio aflito...de tal modo que foi a única vez que te vi um sorriso amarelo, quando olhaste na minha direcção. O primeiro, de dois únicos desentendimentos, mal nos conheciamos ainda, foste a correr em lágrimas para o quarto, quando te repreendi por não teres comprado os bilhetes que te pedi. Nunca mais te esqueceste disso, e quando alguém nos conhecia, contavas a história a sorrir para mim, fingindo um ar meio chateado, referindo o quanto eu fora bruta, e acabavas com a parte em que eu lá acabara por ir ter contigo ao quarto e te tinha pedido desculpas, admitindo a minha exagerada reacção. No fim rias, olhavas para mim com ar cúmplice e surgia logo ali um gesto meigo na minha direcção.
Sabias perdoar na medida da tua generosidade e amor, e isso era - a par da 'magia que encantava' a nossa amizade, reflectindo um entendimento quase perfeito - o que te tornava especial aos meus olhos.
Como poderia não sentir saudades?

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

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mas que filme tão saboroso!..
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