sexta-feira, janeiro 19, 2007

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[hoje, deixo espaço para a crónica do meu querido amigo Tomaz, longe de nós há três anos, e que versa sobre esse imenso Rio, do Brasil, na sua forma inspiradora de sentir a realidade. Obrigado Tomaz, por aceitares o meu convite]
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O murmúrio do Setentrião.....ou a estranha latitude do imenso verde dilacerado

Rio de Janeiro, 18 de Janeiro de 2007.

Este é o prenúncio de cada manhã, nesta terra estranha, tão longínqua e em simultâneo, tão próxima de mim.
Sou mais um desses "passarinhos urbanos" que como cantou Chico, "chacoalham no trem da Central". Este comboio, que me leva à viagem infinita das faces e da poesia nelas. Umas vezes poesia triste e outras poesia alegre da existência. A lei de um quotidiano.
Venho de um dos muitos subúrbios de um gigantesco subúrbio, de uma gigante metrópole onde cada vez mais, a alma é um bem tão mais precioso que o corpo e a vida em si. O único bem que nos resta para que o samba da violência não nos retalhe, como a mais um, que virá amanhã nas parangonas do jornal matinal "encontrado pela bala perdida".
Aqui no doce encaixe das verdes montanhas que encontram o mar, nesta terra a quem um dia chamaram "Cidade Maravilhosa", me encontro. Rio de Janeiro.
Todas as manhãs, cruzo-me com essas personagens que são os figurantes do filme que protagonizo. Aquele velho doido que vende os pães e o café numa garrafa "termo" e que com um relógio/termómetro na mão, diz no seu pregão: "Salvé guerreiros da luta, vocês são o coração deste povo...Têm ainda pão....Um real...têm ainda café... São oito da manhã, 27 graus tá marcando". E aquela figura é a imagem desta terra, da bondade e da irmandade entre pares, da loucura sã de procurar a alegria na sobrevivência. Porque aqui todos somos irmãos de miséria e virtude. E todos temos mais o sentido do que é realmente a igualdade.
No comboio, encontro os rostos da Baixada (Baixada Fluminense - área periférica a norte do Rio de Janeiro, um conjunto de cidades e bairros, marcados pela profunda pobreza e violência), encontro aqueles batalhadores de 300 reais/mês (aproximadamente 100 euros), que trabalham sem descanso semanal de Domingo a Domingo, para alimentar a prole numerosa. Aqueles rostos levam um sorriso triste de uma eterna esperança. De uma convicção que Deus é o único amparo.
A morte aqui não é pranteada como aí,...a morte é apenas o fim do inferno em que tantos vivem. E a morte, buscando o fundo antropológico africano, é um renovar de esperança para os que ficam, mais mesmo que a saudade que acaba permanecendo.
Na saída do comboio, na velha Central do Brasil (estação principal de comboios do Rio), fervilha em bulício o movimento da mole humana.
Cada um no seu caminho, cada um no meio dos restantes. Os "camelôs" (vendedores ambulantes) vendem tudo o que se deseje. Vendem carga roubada, contra-feita, sem factura, esperando que os Guardas Municipais ou os seguranças dos comboios, não "façam o rapa" (expressão que significa carga apreendida).
À distância da esquina próxima, aquele carro-patrulha com aqueles vultos cinzentos (a Polícia Militar do Rio usa fardas cinzentas escuras), perscrutando qualquer movimento anormal. Vigiam-nos na sombra, com aquelas armas de assalto temidas. A visão do 7,62 ou do M-16 é incomodativa, mas já habitual (7,62 e M-16 são as armas de assalto usadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, de grande alcance e muito poder destrutivo). Os rostos dos polícias, sempre tensos. Aqui, morre-se por se estar vivo. Morre-se das balas dos polícias e das balas dos bandidos. As balas matam igualmente, sem distinção. As balas não matam sozinhas, são disparadas e tantas vezes com tão pouco critério.
A cada espaço intercalado, surgem montanhas, que perdem cada vez mais o verde que as cobria desde o início dos tempos. Hoje, cada vez mais crescem aquelas "colmeias" de tijolos e cimento forçado, a que chamaram um dia de "favelas". Ali, talvez seja onde resta a primária nobreza, o "sangue bom", a raiz e ritmo de um povo. Ali também, é onde a sociedade relegou os seus filhos mais desfavorecidos, para a pobreza, a marginalidade e a violência. São Carlos, Providência, Dendê, Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Rocinha, Vidigal, Juramento, Andarái, Macacos, Kerosene, Rebú, Salgueiro, Mangueira, Tatuí, Congonhas, Acarí, Manguinhos, Jacarézinho, Fubá, Chacrinha, Cidade de Deus....estes são alguns dos nomes da ignominia.
São os nomes onde a vergonha de cada um de nós marca, no passar dos dias, o destino de tantos inocentes.
As favelas, onde esses trabalhadores sobrevivem e lutam sem assistência dos mais elementares serviços básicos - sem saneamento, sem educação, sem justiça, sem pão, sem paz -, onde riem e cantam o seu samba choro do dia-a-dia.
Brutalizados por uma máquina policial, que entende que acantonar estas "pessoas de bem", e vivendo na encruzilhada da sua pobreza, reféns dos soldados do tráfico de droga (que acabam mortos e presos, com nunca mais de 20 anos) e que paradoxalmente acabam sendo os benfeitores da comunidade, pois eles são os únicos que suprem a necessidade de consultas médicas, de obras em casa e transportes das comunidades.
As favelas e seus filhos, no limbo do frágil equilíbrio entre bandos criminosos — um bando ao serviço de uma lei que nunca defendeu os seus cidadãos e outro bando que usa estes "filhos de um deus menor" como escudo, e onde poderosos e ricos acabam sendo os beneficiários de um esquema vil, onde mais pobreza e ignorância garantirão o eterno ciclo de uma sociedade que vive sob o signo da desigualdade "genética".
Os filhos nobres da "favela", estão vetados a ser invisíveis, até ao dia em que em qualquer assalto desesperado,"dura da polícia" (expressão que significa repressão policial arbitrária), ou bala perdida na troca de tiros da invasão à favela, os atire para as páginas dos jornais como corpos banhados em sangue jazendo no asfalto, ou irremediavelmente algemados, a caminho de Bangú (presídio estadual do Rio de Janeiro).
Nas nobres praias da cidade, passeiam-se os que estão na outra amplitude desta insanidade, a obscenidade da riqueza, que os mantém reféns do medo em seus condomínios de altíssimo luxo e carros importados blindados.
A solução segundo alguns, seria aplicar a pena de morte. Eu acho que a única pena de morte que devemos aplicar, é a morte de um sistema que cliva uma sociedade, onde os ricos justificam a sua riqueza desde os tempos coloniais portugueses, com um trabalho escravo desses que vivem nas favelas e em subúrbios podres da Baixada.
Aqui há também o samba, fervilhante, e a sensação de que a "vida é só um dia, mas o Carnaval são três...".
O Rio é a terra fértil de onde esses escravos bantos, trouxeram os batuques e repiques, e onde a harmonia dos nossos cavaquinhos gerou o samba. O samba que se universalizou, mas que se fez e faz de lágrimas e sacrifício, para que aquela alegria "que acaba Quarta-Feira" seja a catarse de tanto sofrimento que se acumula.
O meu subúrbio, Campinho - Madureira, com as suas escolas de samba, a Portela, o Império Serrano e a Tradição, é o berço do samba e da "malandragem" carioca.
É arrepiante sentir como se constrói aquele espectáculo, desde o início...e aqui o samba é coisa muito séria.
"Negra é a tristeza da despedida na avenida" cantava o imortal Cartola, espelhando que é triste o fim do Carnaval, quando a Avenida Sapucaí, onde fica o Sambódromo, se fecha e diz um "até breve" com um ano de interregno. E o ciclo repete-se e repetir-se-á.
O Rio é também, a cidade onde aquele esplendor colonial se reflecte de maneira soberba. A obra portuguesa nesta cidade, é maravilhosa. E as igrejas e monumentos emprestam a solenidade que só as grandes cidades podem ter.
Ali, onde descobrimos as razões de uma cidade maravilhosa, quando o sol nasce na baía da Guanabara juntinho ao Pão de Açucar, ou quando o Cristo Redentor, abraça toda a gigante cidade lá desde o alto do Corcovado. Sou particularmente apaixonado, por essa parte da cidade, o Cosme Velho, as Laranjeiras e o muito romântico Largo do Machado, memória espacial viva do lugar de predilecção do grande Machado de Assis.
O Rio é o futebol e aquele imortal Maraca (estádio Maracanã), onde os deuses do futebol marcaram tantos momentos para a posteridade.
Onde o "anjo das pernas tortas", o grande Mané Garrincha, driblou a própria vida, acabando andrajoso e alcoólico, como alguém que desafiou os deuses com o seu talento. Onde milhões de brasileiros, choraram em 1950, a amarga derrota para o Uruguai. Onde Zico, no seu jeito "galinho", encantou. Onde Pelé, fez um golo que tem uma placa que assinala o momento único desse mesmo golo.
O Rio é a terra, onde em qualquer rua, crianças jogam descalças e soltam papagaios de papel, que aqui se chamam "pipas".
O Rio é seguramente, o melhor e o pior lugar de viver, porque a nostalgia e o presente, são dois tempos diferentes e inconciliáveis e quando se perderem os últimos motivos para que o "canto carioca" se solte, aqui o inferno estará à mesma distância do paraíso. Este lindo paraíso......

Um abraço e saudades enormes do meu país, da minha gente, de todos os meus lusitanos amores.

João Tomaz Rodrigues

quinta-feira, janeiro 18, 2007

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O que é a vida?

O poeta grego que comparou o homem às folhas que não duram,
quando o inverno lhes roubou a esperança de viver de acordo com
os seus desejos, não saiu esta tarde para o campo, nem viu o
corpo que se interpôs entre o sol e os arbustos, ofuscando
o céu com a sua brancura de nuvem primaveril. Perguntou,
no entanto, de que serve a vida, e para que serve a alegria,
se não existe, para além delas, o horizonte dourado do amor;
e afastou da sua frente o crepúsculo, dizendo que preferia
a madrugada, logo que o galo canta, para despertar com
o próprio dia. Esse poeta, que o pó dos séculos sepultou,
e não chegou a encontrar qualquer resposta para as suas
dúvidas, aconselhou os que o liam a que se divertissem,
antes que a morte os surpreendesse. E lembro-me, por
vezes, deste pedido, ao pensar que a memória de alguém
se pode limitar a uma pequena frase, nem que seja a mais
banal das sentenças, que nos vem à cabeça numa ou noutra
circunstância. Então, o poeta grego continua vivo; e esta
tarde, por trás dos arbustos, ouvi a sua voz no vento que
por instantes soprou, trazendo com a sua frescura o sentimento
que sobrevive a todas as estações de uma vida humana.
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in As Coisas Mais Simples, Núno Júdice, D. Quixote, p. 67
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quarta-feira, janeiro 17, 2007

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WTF??! (II)

estão a gozar com quem?

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terça-feira, janeiro 16, 2007

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quinta-feira, janeiro 11, 2007

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o meu ensaio sobre a intransigência ou como um blog pode substituir o divã
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Há intransigências no ar. Nem sei muito bem identificar alguns dos motivos...ainda. Mas sinto-as como farpas, de vez em quando. E lanço-as, de vez quando, também eu. O que me perturba é a possibilidade de as mesmas terem uma origem simples e até básica, de explicação fácil: somos com os outros aquilo que somos connosco, não gostamos nem permitimos nos outros aquilo que em nós não está bem? Fico com a dúvida, que isto até a mim me soa a 'receita' de livro de bolso de psicologia para iniciantes, mas não tenho pretensões a aprofundar científicamente certas questões. Fico-me pela intuição, pela observação, pelo sentido crítico baseado nas minhas experiências e constatações, goste-se ou não, quer eu as assuma plenamente ou não - raramente o faço sem receios.
Com isto, corro o risco de soar a certas pessoas que eu mesma por vezes julgo: as que falam de tudo e de nada sem muitas das vezes saberem bem do que falam, e julgadas por aqueles que agem como se para se abrir a boca neste mundo fosse absolutamente necessário decorar uma cartilha de regras-a-cumprir-quando-se-quer-abrir-a-boca-para-se-falar-sobre-determinado-assunto. Ora aqui entra o paradoxo - está-me no sangue, o paradoxo - sobre o qual discorro: quantas vezes não fui julgada por determinada abordagem minha sobre certa matéria, em que me afiguro como uma tonta desmiolada e precipitada, supérfluamente munida de argumentos, e ainda para mais com ar de quem sabe bem o que está a dizer? Imagino que foram algumas...ainda que não por qualquer um. Outras tantas sucederam comigo no papel da julgadora-mor, da que lança a farpa e a piadola escarnecedora, da intolerante. Podia ao menos não o fazer. Pois se me perturba que mo façam, que me julguem facilmente quando digo uma tolice, um despropósito, uma 'verdade' suspeita sobre determinada matéria, quando tiro uma ilação que só podia surgir desta cabeça, quando me aventuro a discorrer sobre as paixões irracionais que me assolam a alma...Mas também eu o faço. Também eu julgo muitos por isto, e também eu não os conheço na sua essência, e não estou munida de todos os apetrechos para entrar dentro de cada uma das minhas 'vítimas' e poder descobrir-lhes um brilho, os desejos, a sabedoria, sim, tudo isto... porque não? Alguns poderão ser mais do que mostram desastradamente, transportar um enorme coração, uma vontade louca de saberem mais e melhor, um raciocínio que afinal pode ter origem insuspeita, está apenas desalinhado e confuso, uma alegria escondida, um amor latente, uma lucidez e uma angústia de quem é permeável ao Tudo e ao Nada, uma intuição que lhes pode dizer que a felicidade se conquista, em cada dia que passa. Porque não?
Coisa de evitar, o julgamento, que também isso se exercita pela vida fora: a tolerância. Mas que é difícil, é. Que é 'escorregadio', é. Estou em crer que absolutamente necessário, no entanto, para se encontrar uma certa paz.
E uma intransigência, com risco de se transformar em julgamento precipitado sobre outrém ou seu comportamento, pode ser uma coisita simples como uma palavra que se ouve e não se gosta, ou porque [achamos] não se adequa ao discurso, ou porque [achamos] não está ali bem colocada, ou [achamos] porque não fazia lá falta...o certo é que não nos agrada, pode gerar repúdio, primeiro, e até chegar ao escárnio, variando consoante a personalidade de cada um. Com este último vejo, inevitavelmente, surgir a arrogância. Mais um risco. Mais uma desnecessidade. E para quê, afinal? E porquê, afinal?
Uma coisa tenho como certa: não há inocentes na matéria, todos, em alguma altura fomos e somos intransigentes e intolerantes, mas não me permito pensar que não vem nenhum 'mal ao Mundo' se afinal de contas, e ainda que no exercício da sua 'humanidade' como ser imperfeito que é, o Homem não reflectir de vez em quando sobre as suas falhas e as suas limitações.
Simplificando: se tu me conhecesses melhor, se calhar em vez de ironia, oferecias-me flores:) E eu a ti dava-te um beijo e um chocolate:)
Chuac!


terça-feira, janeiro 09, 2007

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The good old 80's



não resisti...vi isto e, no contexto em que o vi então...escangalhei-me!! ainda me estou a rir...
rir faz bem
:)

sexta-feira, janeiro 05, 2007

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Energia Positiva e Revolução
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Pois é, de regresso ao trabalho, de regresso ao alentejo.
Uns dias de férias passadas entre Trás-Os-Montes e Lisboa, a comer - muito bem, muito bem, que em Trás-Os-Montes também se come muito bem, e não apenas em quantidade que isso para mim nem é comer 'bem' - e a dormir, a passear, a sornar (sou a pessoa mais preguiçosa que conheço), a ver as vistas, a visitar os nuestros hermanos, depois o regresso a casa da mamã, mais papinha boa, mais sorna, não li muito, só jornais e revistas, fiz comprinhas das boas (cd's e filmes) e menos dinheirinho na conta bancária...viva o consumo, dirão os banqueiros do mundo!Viva.
Entretanto, cá estou de novo a escrever no meu blog, e cheia de inspiração para começar o ano em grande, melhor do que comecei o ano anterior (que foi a trabalhar, muito sisuda e tola como todos os sisudos que stressam com o trabalho, ainda que feito por gosto...) é o que eu quero. Não é o que eu espero, é o que eu desejo. Há uma diferençazita..
Assim que cheguei: inscrição para fazer ginástica! Desta vez foi a sério, já chega de aulas 'experimentais'. E não é que até me cantaram os parabéns?!....Foi estimulante. Sem exercício, também a alma mirra.
Mais decisões? Médicos. Visitar alguns. Há uns aninhos que não o faço, ganhei saudades. À força.
Depois, ler mais. Foi a melhor prenda de Natal, inesperadamente vinda de quem não esperava e de uma forma simpática: A Criação do Mundo, do Miguel Torga, meu conterrâneo. Até fiquei emocionada, aquilo de me terem dado o livro já lido e usado, e daquela forma....foi a melhor prenda. Em troca vou-lhe enviar, ao meu presenteador (se não existe eu depois corrijo), uns cd's.......passámos um serão enfiados numa casa de pedra numa aldeia da qual já nem recordo o nome, no meio dos montes, o que é o mesmo que dizer no 'fim do mundo', esse mágico lugar, a ouvir músicas (Canções!!!) do Adriano Correia de Oliveira, do Zeca, do Sérgio Godinho, do José Mário Branco, uns cantares e músicas tradicionais de recolhas do Giacometti (presumi eu), e ainda me vieram as lágrimas aos olhos ao ler o folheto da caixinha da compilação de 6 cd's do Adriano, e de ler aquele texto magnífico do Manel Alegre, que tempos aqueles caramba!!!
O Verão Quente de 75 recordado pelo meu tio, quando o meu pai teve de me levar em 'férias forçadas', para longe da minha terra natal sob a ameaça de rapto!Hoje rio-me....Os comícios, o dom da palavra do 'Poeta' e pelos vistos cantava também (o que eu me ri, não imagino o meu pai a cantar!), as gentes iradas, os carros em fuga, as peripécias nas aldeias, a tristemente famosa morte do padre Max, as manifestações nas ruas e os defensores do antigo regime atiçados, bem, sempre fui uma atenta ouvinte de boas histórias, e ainda para mais destas, daqueles tempos, em que 'eles' acreditavam que podiam mudar o mundo, e ainda bem...porque mudaram.
Bem, e depois também quero mais paz e boas energias, procurá-las e emaná-las, para aqueles que amo, que gostam de mim, as pessoas mais importantes do meu microcosmos. Aos meus amigos (os de sempre e os novos), que estão sempre comigo ainda que longe, alguns, deixo um enorme abraço, um abraço cá de dentro e sentido, porque sem amigos também não somos grande coisa. Um inesquecívelmente doce e produtivo 2007 para todos!
Para o Mundo, e em particular para os que vivem sem dignidade porque não a podem ter, desejo a utopia de uma Revolução que comece a crescer dentro de cada um de nós, os vivos e pensantes seres deste planeta em perigo. Porque sem sonhar, também não me imagino viver.
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sexta-feira, dezembro 22, 2006

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Clássica, clássica, muita música clássica...há 3 dias que só oiço a Antena 2, e a paixão aumenta.
Não sei se do espírito natalício, se de outra coisa qualquer, mas que sabe bem, sabe. Não conheço autores - só de nome e pouco mais - e não sei distinguir as obras, sou uma inculta no que a esta matéria toca, mas....que gosto, gosto. Parece que até o trabalho me sai melhor! E ontem à noite, na Sé de Évora, valeu bem o frio e o desconforto dos bancos só para apreciar meia hora de Haendel e Corelli (porque li..), pela Sinfonietta de Lisboa, que a coisa não deu para mais - lembrarem-se de convidar a Glória de Matos para ler contos de Natal do César das Neves (argghhhh!....) a meio dos excertos musicais, fez-me vir embora mais cedo. E hoje, 'a 2' de novo sintonizada...às tantas vicio-me.
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quinta-feira, dezembro 21, 2006

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NIN
10. fev. 07 . lx . coliseu
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[que o senhor que me comprou o bilhete, mo guarde bem guardadinho!:) imperdível!!]
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sábado, dezembro 16, 2006

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Gregory Crewdson"Untitled (Beneath the Roses)"2005
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sexta-feira, dezembro 15, 2006

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Arendt (I)

"A vitória do animal laborans jamais teria sido completa se o processo de secularização, a moderna perda da fé como decorrência inevitável da dúvida cartesiana, não houvesse despojado a vida individual da sua imortalidade ou pelo menos da certeza da imortalidade. A vida individual voltou a ser mortal, tão mortal como o fora na antiguidade, e o mundo passou a ser menos estável, menos permanente e, portanto, menos confiável do que o fora na era cristã. Ao perder a certeza de um mundo futuro, o homem moderno foi arremessado para dentro de si mesmo, e não de encontro ao mundo que o rodeava; longe de crer que este mundo fosse potencialmente imortal, ele não estava sequer seguro de que fosse real. E, na medida em que devia pressupor que era real, no optimismo acrítico e aparentemente indiferente de uma ciência em contínuo progresso, afastava-se da terra para um ponto mais distante do que qualquer alienação mundana cristã jamais o havia levado. Qualquer que seja o sentido atribuído à palavra "secular" no uso corrente, não pode, historicamente, ser equacionado com mundanidade; pelo menos, o homem moderno não ganhou este mundo ao perder o outro, e tampouco, a rigor, ganhou a vida; foi atirado de novo para ela, lançado à interioridade fechada da introspecção, na qual as suas mais elevadas experiências eram os processos vazios do cálculo da mente, o jogo da mente consigo mesma. Os únicos conteúdos que sobraram foram os apetites e desejos, os impulsos insensatos do seu corpo que ele confundia com a paixão e que considerava "irrazoáveis" por não poder "arrazoar" com eles, ou seja, prevê-los e medi-los. Agora, a única coisa que podia ser potencialmente imortal, tão imortal como fora o corpo político na antiguidade, ou a vida individual na Idade Média, era a própria vida, isto é, o processo vital, possivelmente eterno, da espécie humana.
Vimos acima que, no surgimento da sociedade, foi a vida da espécie que, em última análise, se afirmou. Teoricamente, o ponto crucial, no qual se deu a mudança a partir da insistência na vida "egoísta" do indivíduo, nos primeiros estágios da era moderna, para a ênfase posterior sobre a vida "social" e sobre o "homem socializado" (Marx), ocorreu quando Marx transformou a noção mais grosseira da economia clássica - de que todos os homens, quando agem, o fazem por interesse próprio - em forças de interesse que informam, movimentam e dirigem as classes da sociedade, e através de conflitos dirigem a sociedade como um todo. A humanidade socializada é o estado social no qual impera somente um interesse, e o sujeito desse interesse são as classes ou a espécie humana, mas não o homem nem os homens. O importante é que, agora, até mesmo o último vestígio de acção que havia no que os homens faziam, a motivação implícita no interesse próprio, havia desaparecido. O que restava era uma "força natural", a força do próprio processo vital, ao qual todos os homens e todas as actividades humanas estavam igualmente sujeitos (...) e cujo único objectivo, se é que tinha algum objectivo, era a sobrevivência da espécie animal humana. Nenhuma das capacidades superiores do homem era agora necessária para relacionar a vida individual com a vida da espécie; a vida individual tornara-se parte do processo vital, e a única coisa necessária era "laborar", isto é, garantir a continuidade da vida de cada um e da sua família. Tudo o que não fosse necessário, não exigido pelo metabolismo da vida com a natureza, era supérfluo ou só podia ser justificado em termos de alguma peculiaridade da vida humana em oposição à vida animal - de modo que se podia dizer que Milton escrevera o seu Paraíso Perdido pelos mesmos motivos e em decorrência de impulsos semelhantes aos que levam o bicho-da-seda a produzir seda."
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Hannah Arendt, A Condição Humana, pp. 389-91

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dúvidas & questões existenciais


ninguém tem de provar nada a outrém. ou será que tem?
talvez a si mesmo
e ainda assim...

com tanta susceptibilidade latente, eminente, emergente e recorrente, ai jesus que lá vou eu!:)
perfeitos, só os Deuses, que do alto do seu Olímpo, sorriem....disso tenho fé inabalável.
E não lhes desenho aqui o sorriso...a imaginação fará o seu trabalho.
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quinta-feira, dezembro 07, 2006

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Sem cor

Cruzei-me com um, de manhã, quando vinha trabalhar. Ontem, cruzei-me com três. A cidade não é grande, raramente são vistos, ou porque são poucos, ou porque se escondem, ou porque não calha..
Vinha a cantarolar uma música qualquer que me entrou no ouvido desde ontem, ainda não a larguei. Nem sei porquê. Ele passou por mim, na berma, olhou para dentro do carro e parei de cantar. Nó.
Olhou-me e senti loucura no olhar. Se calhar nem vive na rua, se calhar tem um tecto, mas não deixa de ser um deles....vi-o claramente, no vaguear. Esqueci-me da música, era daquelas para esquecer, o semblante ficou-me carregado. A condizer com o cinza do dia.
A condizer com a aura dele, quase sem cor.
De manhã, o meu dia ficou sem cor. Rima com dor. Com desamor. A condizer com algumas vidas.


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quarta-feira, dezembro 06, 2006

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lisboetas

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Mais vale tarde que nunca...e tarde visionei este documentário de Sérgio Tréfaut (ontem à noite, mais precisamente no Cineclube de Évora, e presente esteve também o realizador), mas muito a tempo de perceber a superioridade da obra, a inteligência do autor, a capacidade de nos mostrar de uma forma profunda e ao mesmo tempo leve, bela, pedaços da vida de imigrantes de origens diversas, habitantes da 'nossa' Lisboa. Tocou-me o olhar, ou os olhares que Tréfaut 'apanha', é conciso e subtil ao fazê-lo e aquelas pessoas são ali expostas pelo seu lado mais humano, porque um olhar diz muito, ou tudo o que as palavras nem sempre dizem. O olhar do ex-piloto de aviões, embargado pela sombra do álcool, pela solidão, o olhar de quem sabe que a vida pode ser mais do que isto mas que é isto que ele tem e não pretende o regresso à terra-mãe, do rapaz que passa a ferro, são olhares que dizem tudo de gente que vem à procura de uma vida melhor e encontra um país que, afinal de contas, e como este último resume, também não é rico.
Há documentários que são filmes belíssimos, e as vidas verdadeiras e as histórias que não são ficcionadas, cabem no argumento deste filme, de Lisboetas que são do Mundo, uma Lisboa estrangeira filmada com inteligência, e um toque poético, perfeito acto de comunicação, pois.

Lisboetas, de Sérgio Tréfaut

POR, 2004, Cores, 105 min.

http://www.atalantafilmes.pt/2006/lisboetas/index.htm

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quarta-feira, novembro 29, 2006

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Cafetaria

Olhares cruzam-se na pressa do movimento mecânico, condutor do corpo que desliza em direcção à rua
Lá fora ar fresco, não frio, a face em reconhecimento desenha um sorriso leve, dupla motivação
Outro comum cruzar de olhares, não.
Sim, duas almas estranhas vislumbram-se, naquele momento veloz
Olharam-se

Um olhar
Tão célere quanto o movimento que os levou a cada um para o lado oposto do outro, no mesmo espaço, no mesmo tempo, e os afastou impiedosamente
Um vislumbre, apenas

Não importa a causa
Mas o movimento
prolongado para além do esperado, do convencional
O virar da cabeça dele, acto-reflexo, acompanha o rosto dela
Alma em evasão, escapando-se corajosa, ingénua ao
pensamento ditador - as regras
Audácia num virar de cabeça
desajeitado, infantil, saboroso
[talvez não desejasse parar ali, naquele momento irrepetível, mas perpetuar num ímpeto o olhar, a surpresa..]
Imagem doce
Repetida em flash backs de intenção
Imagem retida
Efémera, na alma.

Novembro, 2006
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terça-feira, novembro 28, 2006

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HAPINNESS

So early it's still almost dark out.
I'm near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.

When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.

They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren't saying anything, these boys.

I think if they could, they would take
each other's arm.
It's early in the morning,
and they are doing this thing together.

They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.

Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn't enter into this.

Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.


Raymond Carver
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quarta-feira, novembro 22, 2006

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:/
Robert Altman
(menos um dos bons..)
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terça-feira, novembro 21, 2006


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des(encontros)


Há encontros casuais e inesperados, repentinos que nos deixam semi-desamparados, a baloiçar entre o que devemos de ser naquele momento e o que nos apetecia mais ser se fossemos sempre aquilo que somos. Ou entre o que devemos de fazer e o que honestamente gostariamos de fazer.
Sob a aparência do "tudo corre bem, está tudo óptimo", este encontro não foi causa de maior transtorno, deixou sim, um sabor de nervoso miudinho a subir-me pelo esófago, ao início, um ligeiro estertor no corpo que foi esmorecendo - ainda fui verificar-me depois, num espelho, à procura das habituais manchas vermelhas mas nada, e pensei, não correu assim tão mal, porque haveria?, não percas tempo com o que não tem importância, para quê essa inquietaçãozinha, se afinal de contas, e contas feitas, a vida continua, o tempo passa (O Tempo Não Pára cantava o meu 'amigo ' Cazuza), zangam-se as comadres, juntam-se os amantes, as andorinhas voltarão aos cinco ninhos daquele beiral, do teu beiral e o sol irá queimar de novo as paredes da tua casa no Verão, a amizade continua a dizer-se como dantes, os dias nunca acontecem iguais mas é quase como se acontecessem, sabes que de quando em vez, alguma coisa surge que te trará alegria, os teus olhos vão continuar a pousar-se nas árvores frondosas e belas que encontras, eles vão continuar a subir, sempre, para o céu curandeiro de todas as enfermas banalidades. Esse céu que é tantas vezes só teu...
"Está tão bonita....sabe, eu gosto muito de si, continuo a gostar.." e aquele olhar é uma mescla de embaraço com emoção, de sinceridade com educação. Aquilo que somos e aquilo que temos de ser. Não correu mal. Porque haveria?
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quarta-feira, novembro 15, 2006

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gregory crewdson



> Untitled, da série Twilight, 1998-2002 <
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Alice
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Nunca, que me recorde, vi a expressão da Tristeza tão soberbamente expressa na face de um actor português..num filme português. E já tanto foi dito sobre o filme que me limito a parcas palavras...com uma fotografia intensa e bela (Lisboa azul de desespero e ruído), ficam-me as imagens sublimes da obsessão e da angústia, que é para mim o que este filme consegue de melhor: trazer-me, no silêncio, nos silêncios, aquela inimaginável solidão. O arrepio melancólico na música de Bernardo Sassetti, a osmose perfeita.
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terça-feira, novembro 14, 2006

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Children of Men






Depois de ver Children of Men, de Alfonso Cuarón, lembrei-me do filme E Tu Madre También do mesmo realizador, e da distância que marca as duas obras. Esta última eu acho-a belíssima.
Children of Men, ao narrar uma distopia com um sabor a 'é só isto?' que surge no final, depois de cenas de um nihilismo atrofiante em relação a um futuro provável (será?), com revolucionários sem grande moral e uma humanidade perdida na (in)continuidade da espécie, fá-lo com base em alguns clichés dispensáveis é certo, mas trás ali qualquer coisa de perturbadoramente atractivo ao olhar: como se alguém tocasse numa ferida putrefacta, de uma forma que podia ser mais inteligente, é certo, mostrando-nos que ainda se pode curá-la. Ou não? A cena do carro é brutal e muito bem filmada, e Clive Owen, para variar, não desilude nada. 3/5 é a minha nota.
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segunda-feira, novembro 13, 2006

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Dans Paris



Duris.
Irrésistible.

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quinta-feira, novembro 09, 2006

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O essencial, o necessário, o essencial..

Ontem coloquei a questão a mim mesma: "Vou fazer greve?". E coloquei-a porque não tinha uma decisão tomada, não estava claro na minha mente - como ainda não o está, parece-me.. - se era ou não uma ideia para levar avante. A hesitação está pendurada, é bom que o diga, essencialmente pelo fio do vil metal: um dia de greve é o equivalente a muitos euros em falta no orçamento já de si parco por estes dias. E é um fio forte, este, como se feito de aço.
Depois, bom, depois assolam-me outras ideias, menos práticas, são sobretudo princípios a que eu posso chamar ironicamente de Valores da Razão Não-Prática, e que fazem parte de mim. Não sei se nasceram comigo, se estão por cá à priori, mas sei que em determinada altura da minha vida eles foram crescendo e tornaram-se mais ou menos fortes, saudáveis, pareciam-me.
Um deles é o da Justiça - lutar por aquilo em que acredito, talvez mais até do que isto (acredito que 'as coisas devem ser justas', sempre) é importante para mim (e recorrente) a ideia de lutar por aquilo em que vale a pena acreditar.
O outro é o da Liberdade. A liberdade na escolha, a liberdade enquanto possibilidade de escolher, de optar por uma entre várias possibilidades, acima de tudo esta.
E a Dignidade. Mais um valor especial, talvez o mais importante para mim, pois que um homem pode perder tudo na vida, mas a sua dignidade....bom....a sua dignidade não.
Gostava de acreditar que ainda estão saudáveis, estes valores, dentro de mim. Que isto não anda tudo muito doente cá por dentro...
Como dizia, gostava de acreditar que são saudáveis, dentro de mim, onde cresceram ao longo dos anos espicaçados por um ambiente familiar e social propício, estes valores que admiro, de que preciso, que ainda quero na minha vida. E é nesta fase que surge a dúvida, quando tenho de escolher entre o 'valor' Dinheiro (esmagadoramente irredutível) e estes valores essenciais e tão mais necessários quanto o pão que se leva à boca todos os dias.Porque seria por eles que eu iria demonstrar que o primeiro é um valor de menor importância - ainda que esta demonstração, a forma de o fazer, possa estar moribunda e viciada, ainda é a melhor que conheço e que me oferece esta sociedade onde labuto - quando pressinto que estes estão ameaçados. Porque há muitas formas de um homem se sentir ameaçado e preso, e injustiçado e a perder indelevelmente a sua dignidade.
Amanhã é outro dia, até lá, vou exercer o meu direito de reflexão, vou hesitar entre o essencial e o necessário, e entre o necessário mas não essencial. E que me perdoe a minha consciência se não tiver a coragem para o fazer.
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quarta-feira, novembro 08, 2006

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A Estação

Deslocou-se sem pressas, vagarosamente pois. O rodopio em seu redor deixando um rasto de confusão. Mas não estava perdido. Por fim parou. Sentou-se.
Teve medo. Tanto. Deixou-se ficar por ali, só.
Teve tanto tempo. Minutos transformados em eternidade. Tempo de parar, de paragens. Ou, o tempo das ilações concretas.
Gente cirandando. Cheiros, ruído, doçura de um olhar. Desgaste.
Pensou por si, para si. Só, sentado no desconforto da rudeza dos materiais. A ilusão maior que a certeza.
Não teve companhia para compartilhar o espaço que ocupava. Recordou..Fechou-se para o mundo. De olhos semi-cerrados, recordou.
[jamais, naquele lugar se iria sentar..parar.]
O burburinho, o chiar de travões metálicos. Transformações imediatas pela sensação.
Tudo lhe veio. Suavemente. Invasão. Mente cansada e invadida.
Depois, sonolentamente, entreabriu os olhos: angustiante placidez.
E desconcerto.
Mas no seu rosto depressa se desenhou um sorriso suave, quase invisível.
Nunca fora um homem de certezas.
Morreu sozinho sentado na dureza que lhe oferecia o mundo, no meio do som da multidão atarefada, entranhando-se-lhe no corpo.

Morreu no som da multidão.
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terça-feira, novembro 07, 2006

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os Joy Divison

"À parte a exploração, a hipérbole e a insidiosa invenção duma 'lenda', os Joy Division merecem a atenção que a sua originalidade exige. Não eram a salvação do Rock, como se apregoava, nem tão-pouco a salvação de nada. E, no entanto, o segundo e último álbum, postumamente editado - Closer - é um trabalho vigorosamente diferente daquilo que costumamos chamar Rock. Para já, é um álbum desavergonhadamente triste.(....) Os Joy Division são impecavelmente trágicos - desde os textos resignados e suavemente desiludidos, até à'morrinha' da sua música. Quase que poderíamos dizer - doem...
Closer é limpidamente belo - tem a transparência silenciosa da solidão, sem nunca se transformar em auto-compaixão ou sentimentalismo. É o momento em que nos damos fé duma tristeza insolúvel, e da futilidade de a combater. Não há revolta - apenas um lento despertar, corajosamente assumido e aceitado. O encanto principal dos Joy Division não é o virtuosismo, ou sequer a criatividade da música - é, sobretudo, uma inesquecível sinceridade, despida de efeitos especiais, que se transmite, dir-se-ia por osmose sensível, a quem a ela se expõe."

in Escrítica Pop, Miguel Esteves Cardoso, Assírio & Alvim
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segunda-feira, novembro 06, 2006

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Câmara Clara
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Duas mulheres bonitas, inteligentes, cultas. 'Frente a frente ' que é lado a lado - como elas estão, ao lado uma da outra, ainda que de frente uma para a outra. E isso reflecte-se na cumplicidade dos olhares; muito vivos, atentos, ávidos, simpáticos os seus olhares.
Uma, é escritora e jornalista. A outra é jornalista. Falam enternecedoramente sobre literatura, romances, leitura, leitores, escrita, escritores, criatividade, vida, morte, loucura, literatura. São momentos de pura e emocionante comunicabilidade. Como se uma onda de energia feita disto, saltasse para dentro de quem assiste, vinda do ecrã. Um raio de energia inteligente, feminina. E depois sorrio, quando recordo a frase brincalhona de um amigo que diz não existirem muitas mulheres mais inteligentes do que homens:) Uma brincadeira, é certo, conduz-me mais uma vez ao interessante no universo feminino, nos universos femininos assim expostos....o masculino - esse fascinante universo - já descobri sê-lo, há muito!:)
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Câmara Clara, na 2:, sextas-feiras às 22:30h
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sexta-feira, novembro 03, 2006

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playing...under a sheltering sky
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foto: unickymous
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terça-feira, outubro 31, 2006


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baloiçar

Impossibilidade que dilacera.
Visceralgia que se instala.
Sem entrar, espreita, a Razão.

E a face esconde-se, no escuro da almofada.
Sonhos que não o são.

Momento em crescendo no cair da noite.
Som que baloiça o adormecer inquieto.
Desprendido.
Doce-amargo, sabor da Ilusão.


Outubro, 2006

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Samnhain
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o fim do Verão..
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segunda-feira, outubro 30, 2006

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blue monday
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banda sonora > arizona amp and alternator > 2.where the wind turns the skin to leather
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quinta-feira, outubro 26, 2006

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no baú da memória.. para o meu amigo Rui

Metade

E que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que eu amo seja para sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
a outra metade também.

Oswaldo Montenegro

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quarta-feira, outubro 25, 2006

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Mareta em Abril I

Ela, lê de costas para o mar.
Como se assim o ruído a não perturbasse.

Ele, sobe e desce pelas rochas. Tem uma picareta.
Está a brincar.

Ela, usa um chapéu e usa óculos.
Ele, move-se, devagar treme.

Ela está concentrada e apanha sol.
Ele distrai-se picando a pedra.

Ela, ali sentada, na areia. Protege-o.
Ele ama-a.

[ Que idade terão ao certo?
O tempo já lhes mostrou umas quantas coisas por aí]

Ele, volta para junto dela, deixando pedras.
Ela ama-o.


Mareta em Abril II

Fazem companhia um ao outro.
Quando o que mais desejam é estar distantes.

Na aproximação não há palavras.
Ali encontram-se no silêncio das suas distracções.

Ele, vai e vem. Ela, não desvia o olhar do livro.
Ele quase resvala pelas rochas. Ela não desvia o olhar do livro.

Quando regressa com as pedras, ele pensa como seria bom ela nem sequer lhes tocar!

Ali, fazem companhia um ao outro.
Não se encontram muitas vezes.


09.04.2005
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quinta-feira, outubro 19, 2006

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A Casa dos Livros
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Ontem pela tardinha passei na livraria de uma amiga. A intenção era a de procurar um livro que ela me tinha recomendado há uns tempos atrás, um livro que ela já lera e de que gostara muito. Fiquei curiosa até ontem me decidir a ir lá, e...acabei por ficar mais tempo do que contara. A conversa fluiu, sentei-me num pequeno banco estratégicamente colocado perto de uma máquina de café, de onde os clientes podem tirar cafés fortes por muito pouco dinheiro, e ir ficando por ali a bisbilhotar os livros.
Acabei por comprar outro livro que não o aconselhado por ela, este estava em promoção!O outro ainda vai ter de aguardar mais uns dias. Enquanto falava com ela, sobre coisas da nossa vida, entrou uma cara conhecida...mais dois dedos de conversa. Simpatia a rodos não falta neste espaço...o que faltam são clientes. O que faltam são pessoas que preferem esperar pelo fim de semana, ou pelo fim do mês, consoante o caso, e visitar o gigantesco polvo do consumo cultural, essa tentação que se chama Fnac.
Quando saí de lá, passados 20 minutos, saí com um sorriso nos lábios..e enquanto caminhava pensei: "uma livraria pequena, mas já com muitos livritos, uma dona simpática e acolhedora, um espaço agradável para se folhearem livros, para se conversar um pouco, mesmo que não se queira ou possa levar algum livro para casa". Como tantos outros pequenos negócios, (sobre)vive dos clientes - dos fiéis e dos esporádicos, dos acidentais e dos menos distraídos.
Eu também vou à Fnac, aquilo é um apelo forte sim senhora!, mas...as livrarias pequenas e acolhedoras como a da minha amiga mereciam outra atenção, mereciam que mais de nós lá comprassem livros para que espaços destes, onde se procuram livros mas também se encontram outras coisas boas - quem não gosta de um dedo de conversa agradável? -, pudessem perdurar, pudessem solidificar-se nas nossas cidades, sem que os seus donos estejam sempre na corda bamba ou com o coração nas mãos! Quem corre por gosto no fascinante e desesperante 'negócio dos livros', merecia clientes mais generosos e mais atentos, mais amigos. Já decidi: a partir de ontem, ali comprarei mais livros, que a Fnac não precisa tanto de mim como eu de um espaço destes..
A quem interessar: Casa dos Livros, Évora. Eu não sei o nome da rua, mas em Évora há cada vez menos livrarias, deve ser fácil de encontrar...
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quarta-feira, outubro 18, 2006

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WTF??!!
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Orçamento beneficia IRS de contribuintes casados e prejudica solteiros
16.10.2006 - 21h34 Lusa

Ora bem, ora bem....eis que se apresenta perante todos os portugueses uma verdadeira política de justiça financeira!!
Assim, os casados deixam de ficar prejudicados no projecto do OE para 2007, em matéria de IRS, mas os solteiros são PREJUDICADOS em relação ao articulado actual!!!
Justiça e equidade Sr Ministro?!...Tss, tsss....

PS - Alguém quer casar com a Carochinha??!


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segunda-feira, outubro 16, 2006

São como as cerejas

quando as conversas são como aquelas cerejas docinhas, e rijas e mais alaranjadas num ponto que no restante fruto...são as cerejas que recordo. quando as conversas são agradáveis e se estendem como se não houvesse mais um dia apenas o momento do agora e como gostava que eternamente pudessem durar as conversas-cereja. quando as conversas são interessantes e honestas e os interlocutores sinceros sabe bem...
<>
...e o sabor agridoce na espera. que todo o fruto só é bom na sua época.

sexta-feira, outubro 13, 2006

La Petite Jerusalem

os tabus e os dogmas religiosos; a filosofia e a vida ou a filosofia de vida; o pudor, o amor, o toque, a paixão....gostei. cena retida: os banhos, o ritual prévio. bonito.

quinta-feira, outubro 12, 2006

pézinhos de lã

..com pézinhos de lã.....ah, como custa tentar andar com pézinhos de lã. É como sinto que ando na maioria dos dias da minha existência, a TENTAR andar com pézinhos de lã. Quiçá um dia destes os pézinhos se transformem em asas? That would be nice..e quero lá saber se pézinhos de lã é expressão que APARENTEMENTE não me assenta mesmo nada...
Há jogos que não fazem sentido. Ou vão deixando de o fazer. É como escrever em letras pequeninas quando se pode escrever com maiores.

ui....
:)

terça-feira, outubro 10, 2006

"Amar, ser verdadeiro, deve custar - deve ser árduo - deve esvaziar-nos do ego."
MTC

segunda-feira, outubro 09, 2006

quando a terra treme

Fez ontem um ano. O terramoto no Paquistão,
que matou 73.338 pessoas.
Cerca de 18 mil eram crianças.
Deixou sem abrigo 3,3 milhões de pessoas.

sexta-feira, outubro 06, 2006

de Luc Tuymans



Leopoldville, 2000



Bend Over, 2001


Diagnostische Blick IV, 1992

Himmler, 1997/98

Penumbra > Luc Tuymans

Vi uma exposição de Luc Tuymans, há algum tempo, se não me engano em 2004. Fiquei de tal modo impressionada e entusiamada, que me pus a magicar uma forma de fazer um trabalho sobre o artista e a sua obra, numa relação com a Sociologia. A ideia - vaga - era a de criar uma ponte entre uma das temáticas de Tuymans, o totalitarismo e o holocausto, enquanto expressão artística, e os escritos de Hannah Arendt, filósofa e pensadora política, nomeadamente na abordagem que ela faz sobre aquilo a que chamou a 'Raíz do Mal'.
Pareceu-me, na altura, que o rato queria parir uma montanha:)
Hoje, arrependo-me de ter deixado adormecer o entusiasmo..
E esta exposição em Serralves, a 2.ª em Portugal desde 1998, deixou-me água na boca.
LUC TUYMANS DUSK / PENUMBRA 15 JUL - 15 OUT 2006

terça-feira, outubro 03, 2006

Inesquecível


Uma boa surpresa esta memória de rádio http://www.radarlisboa.fm/, na poderosa voz de Jeff Buckley (saltaram os adjectivos 'suave' e 'doce'.. é voz que contém mais que isso, e o seu oposto também)
Saudades do Live at Sin-é, escutado a primeira vez há muitos anos. Tenho de o recuperar..

segunda-feira, outubro 02, 2006

JP Simões '1970'

"Honestamente: custa ser exacto – mais fácil é o cinismo e revolutear na ironia do “charco” de ar grave, superior e inquisidor ou então aviar uma inocência supostamente politicamente incorrecta, duas atitudes típicas dos seres pensantes nacionais. Essa é a primeira grande surpresa de “1970”: em vez de ironia, em vez de humor desbragado, em vez de derrotismo – há exactidão, a crueldade de cada palavra medida e comedida e por isso tão mais eficaz, exactidão que por vezes nos leva à comoção, outras é de uma pungência avassaladora. Em “1970”, a extraordinária canção, essa sensatez ácida chega a ser sádica na sua honestidade: “A minha geração já se calou, já se perdeu, já amuou, já se cansou, desapareceu ou então casou ou então mudou ou então morreu, já se acabou”. Entra aí a cuíca e o shaker e Simões continua: “A minha geração de hedonistas e de ateus, (...) de anarquistas deprimidos, de artistas e autistas, estatelou-se docemente contra o céu”. A seguir chega a ser violento: “A minha geração ironizou o coração (…) brincou às mil revoluções, amando gestos e protestos e canções pelo seu estilo controverso”. E é aqui que surgem os metais de casino, os violinos delicados e a pele, a ater-se ainda às palavras, arrepia. Não é o único momento de arrepio, neste disco que de Chico herda o silabar doce e aquela forma em mel de introduzir coros – como o que surge em “Só mais uma samba”: atentem na generosidade do refrão, aquela maneira dengosa de subir, os “ooos” do coro embebidos numa melancolia solar de quem ama o que odeia mas sabe que tem uma trompete empoleirada no ombro e enquanto assim for está bem. E se quiserdes mais comoção ide então beber à doçura das flautas do quase chorinho de “Capitão Simão” acompanhadas do que parece ser um Fender Rhodes. Daí saltem para a melancolicalegria de “Lili e o americano”, coisa de jazz de esquina suja, piano demasiado bebido (e com caruncho na cauda) – faz um belo par com o tema seguinte, movido ao mesmo sentimento turvo de dia que acaba logo quando estava a começar a ser bom.Em “Inquietação” Simões não volta a canção do avesso. O tom, no entanto, é outro. Não diríamos solene, antes cuidado. Talvez não haja a sombra de desespero irado que prenunciávamos em ZMB, antes resignação. A voz parece falhar-lhe e imagina-se que seja com os restos de força das veias a arrastarem o sangue que aquelas palavras vêm à tona. Não é um disco tão despojado quanto Simões defende, mas façamos-lhe a sentida homenagem (e estamos a conter-nos nas palavras): tem tanto (e tento) de Chico como de Edu Lobo ou até Marcos Valle, em particular das obras da década de setenta. E cada arranjo (por aqui há coros, cordas, metais, melódicas, órgãos, pianos, cuícas), de um cuidado imenso, encaixa na umbilicalmente tanto nas canções como nos motivos temáticos que era suposto colorir. No fundo é um disco de instantâneo classicismo que usa a estrutura (re)criada por Chico para, por entre charmes vários e sofisticados arranjos executar a mais antiga das actividades humanas: narrar o humano. Aos 36 anos, Simões é o único homem a solo, depois da geração trovadora de setenta, a botar música que merece ser ouvida em palavras que merecem ser lidas. No mundo das Floribellas, terá valido a pena? Obviamente não: vai tudo ficar na mesma, sempre esteve tudo na mesma. Ainda assim, João Paulo, olha, obrigado por tentares.
JP Simões 1970 NorteSul 8/10"
Excerto de post, Forum Sons, 1.10.2006 (entrevista de João Bonifácio a JP Simões, Y, 29.09.2006)

terça-feira, setembro 26, 2006

My heart is with you...


com os amigos. sempre.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Santiago

Do que me lembro mais?
Do sabor do bolo pôdre, de castanho esponjoso. Da torta de laranja, sempre imperfeita e deliciosa. Do bolo das flores, imponente e majestoso, de uma massa invulgar a derreter-se-me na boca. Dos filmes da Esther Wiiliams, sentada ao teu lado no sofá, à tarde, sem mais ninguém na casa, ou se calhar, com os outros a dormir lá em cima. Dos teus espirros assustadores. Do chá de cidreira, sempre às cinco. Das histórias muito curtas de África. De me abrires a porta sempre que fugia assustada para dentro de casa, quando a Duquesa se soltava. De ver-te de costas, a moer a carne na banca de mármore, a preparar os teus inesquecíveis rissóis.Do cheiro na cozinha, nas escadas, da cera, do antigo, do tique-taque eterno do relógio. Dos comprimidos para o coração e do queixume conformado. Do sorriso nos teus olhos cinzentos, bonitos. Dos rôlos na cabeça, ao sábado de manhã. Das regueifas que trazias sempre. De abrires a porta da frente quando tocávamos à campainha lá ao fundo e ficares à nossa espera, até ao abraço. De perguntares sempre se tinhamos fome quando chegavamos. De mandares fazer o meu vestido azul. De me dares dinheiro quando me vinha embora. De me ralhares por causa das costas do Pedro, sem seres bruta. De seres vaidosa, como todas nós. De seres coquette à moda antiga e de te brilharem os olhos quando falavas de coisas femininas demais ainda para mim. De dizeres que o pai gostava muito de nós. De chorares quase sempre, só um bocadinho de nada. De seres amiga, apesar de tudo, e tanto, apesar do que não é importante. Um beijo para ti vó.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Australian Summer


Estou a ler o teu 'livro', o teu guião para me aproximar à definição daquilo que escreveste.
Imagino, deitada no sofá, e enquanto folheio a tua primeira obra, como seria transformá-la em filme...porque a tua história é um filme. Pleno de poesia.
E a minha melancolia, leva-me no pensamento da imensa criação, bela!, escondida entre as passagens do tempo que habitamos..

quinta-feira, setembro 14, 2006

ilações espontâneas de combustão fácil..


Uns, de intuição célere, muito inteligentes, apreendem outros com ligeireza - ainda que não os escutem, com verdade.
Aliciados, os primeiros, pelo fascínio dos seus pensamentos, é a sua voz que ouvem, no diálogo.
Incómodo, no semi-autismo.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Flannery O'Connor

«Li as histórias todas, uma por uma, noite dentro, sempre a sentir-me quase na margem do rio por onde se navega para outra dimensão qualquer. Viajei por dentro de todos os nervos de todas as perplexidades humanas, e a rede de dendrites ia sempre parar ao axónio fundamental, em que, de uma vez por todas, alguém tem que fazer o gesto definitivo que muda tudo, derruba tudo, atira tudo por terra ou volta a pôr tudo no lugar mas já todos sabemos qe nunca mais nada voltará a ser como era dantes. Era incrível. Era hipnótico. Era impossível de interromper antes de chegar ao fim e depois eu apagava a luz e ficava a dar voltas na cama (...). A minha Flannery morreu em 1964. Descubram-na agora, e cada um que julgue por si mesmo.» Clara Pinto Correia
Um bom homem é difícil de encontrar / Flannery O'connor . - Lisboa : Cavalo de Ferro, 2006. - 240 p.

sexta-feira, setembro 08, 2006



Liars

25/09 – Porto Rio, Porto

26/09 – Club Lua, Lisboa

quinta-feira, setembro 07, 2006

quarta-feira, setembro 06, 2006

Lettres à un jeune poète (extrait)

Une seule chose est nécessaire: la solitude. La grande solitude intérieure. Aller en soi-même, et ne rencontrer, des heures durant, personne - c'est à cela qu'il faut parvenir. Etre seul comme l'enfant est seul quand les grandes personnes vont et viennent, mêlées à des choses qui semblent grandes à l'enfant et importantes du seul fait que les grandes personnes s'en affairent et que l'enfant ne comprend rien à ce qu'elle font. S'il n'est pas de communion entre les hommes et vous, essayez d'être prêt des choses: elles ne vous abandonneront pas. Il y a encore des nuits, il y a encore des vents qui agitent les arbres et courent sur les pays. Dans le monde des choses et celui des bêtes, tout est plein d'évènements auxquels vous pouvez prendre part. Les enfants sont toujours comme l'enfant que vous fûtes: tristes et heureux; et si vous pensez à votre enfance, vous revivez parmi eux, parmi les enfants secrets. Les grandes personnes ne sont rien, leur dignité ne répond à rien.

Rainer Maria Rilke

sexta-feira, setembro 01, 2006

Paradise Now

Curiosa em relação a este