quinta-feira, dezembro 05, 2013

uma discoteca de pensamentos
cujo som atravessa a parede dos vizinhos da frente
na rua paralela da razão
de ser
entre todos e iguais
brilha no escuro pela bola de espelhos mais
quem dança as letras originais
e bebe por copos
de sentimentos a bombar
até sair até verter um pé
na rua que aguarda uma manhã
e nos devolve a luz crua do mesmo olhar.
 

"you know I dreamed about you
 for twenty nine years
 before I saw you"

o refrão desta canção, confirma aquilo que eu penso sobre alguns homens: que são muito mais românticos que muitas mulheres. [isto para não cair na tentação de padronizar o que não é quantificável]

the national

segunda-feira, outubro 21, 2013

ensaio II

Era uma tarde de fim de Verão, era o início do Outono. O céu entrava na casa num raro tom alaranjado, irrepetível em qualquer outro momento dos dias, uma cor que se entranhava docemente no estômago, e depois subia, fervilhava. Olhando para cima, sentia-se planar com os pés presos na terra, como se pairasse numa secreta dimensão das coisas que são. Saiu ao encontro dele com passo apressado, como aliás, apressado o era em quase todas as coisas que a faziam mover-se. Era assim que caminhava, raramente se lhe viam passos lentos e sentidos, apenas uma espécie de esvoaçar, curtinho e saltitante, uns pés determinados, nervosos, loucos. Sabia que as crianças estavam à sua espera ;ele dissera-lhes que iriam ter uma visita, alguém que queria conversar com eles um bocadinho. Estava expectante com a reação, não era fácil criar empatia e deixá-los atentos, por-se-ia à prova, de novo. A porta estava aberta, subiu as escadas até ao piso onde ele se encontrava a desenhar com as crianças. Ou onde as crianças o distraíam com os seus desenhos enquanto as observava e sorria. Podia até ser um sorriso levemente desdenhoso. Pressentia-lhe um sorriso na face morena, moura, ainda que ele se encontrasse de costas para ela. Aproximou-se silenciosa, e quando quase a sentir o cheiro do seu pescoço, tão perto do pescoço dele, beijou-o. Entrevia que não ficava retraído com estas aproximações dela, acanhadas e provocadoras, subtis e ao mesmo tempo claras de intenção, de desejo, se o sorriso dele era imperturbável. – Olá, disse-lhe ele, um beijo discreto na face. Levou-a para perto da sua mesa de trabalho, caótica, cómica, feliz. – Anda, quero apresentar-te aos miúdos, estão curiosos e já perguntaram quem eras, disse piscando-lhe o olho, enquanto ela esboçava um sorriso fraco. Os miúdos não deram logo pela entrada dela, mas estavam agora atentos aos dois. – Meninos, esta é a Violeta, de quem vos falei. Olhos fixos nela.  - Vamos então fazer uma pausa nos desenhos, a Violeta vai explicar porque veio falar com vocês e é para irem respondendo, depois voltamos aos desenhos. Ela avançou tentando fazer contacto com o olhar, lera algures sobre a importância de transmitir um ar seguro às crianças; talvez uma frase feita a salvasse. Tentou falar pausadamente e foi respondendo às primeiras perguntas de alguns, os mais ariscos, depressa entendeu que a coisa estava a decorrer com demasiada formalidade, aquilo assim não iria resultar muito bem. Acabou sentada no chão, onde algumas das crianças se encontravam, falou com eles sobre os desenhos espalhados pela enorme sala, enquanto ele, dissimulado, a contemplava por de trás do estirador velho, remexendo em papéis e desenhos por ali espalhados. Ele não era metódico na organização dos materiais, gostava de ter as coisas limpas, apenas. Ela foi fazendo as perguntas e as respostas dos miúdos eram apontadas num caderno. Abreviava as palavras para acompanhar o ritmo das crianças, observava os seus movimentos, lia os gestos e ia cogitando, pouco estava ainda claro, era a experiência in loco, um pré-teste de capacidade. Da sua capacidade. A dado momento, pelo seu olhar periférico nota que ele está no fundo da sala, sentado, a observá-la na interação com os miúdos e a desenhar simuladamente. Sente-se estranha, não quer que ele se aperceba que já o viu, tenta fingir que não se sente observada, desvia o rosto na direção oposta, continua a sorrir  e a tentar mostrar naturalidade. É sempre assim quando se sente observada por um homem que a interessa, por quem sente desejo, a quem quer agradar. Porque é disso que se trata, seduzi-lo. Nessa noite, depois de ele a deixar em casa, instalou-se no sofá para ler os apontamentos, a preguiça impediu-a de se sentar na secretária que tinha no escritório, e aí adormeceu ao fim de poucas horas, com as luzes acesas, vestida, de cabeça pendurada sobre o peito, em posição desconfortável mas não tanto ao ponto de a impedir de adormecer com profundidade, ou pelo menos assim lhe parecia quando abria os olhos repentinamente depois de um qualquer som mais alto vindo da televisão a acordar. Este cenário repetia-se por incontáveis noites, sobretudo as de Inverno, também porque gostava de se deixar ficar no sofá, como se o despir-se e enfiar-se na cama indicasse que o dia seguinte estava mais próximo e ela, que gostava das noites, de as aproveitar ao máximo, mesmo sabendo que assim repartia o seu sono em duas partes distintas, a profunda e desconfortável no sofá torto, a última na cama, agitada, seguia sempre a tentação da preguiça. A preguiça era e sempre terá sido, o seu pecado. Ela está sentada num espaço desconhecido onde ele se encontra também, aproxima-se dela lentamente, sério, fixando os olhos nela, no seu corpo, coloca-lhe a mão no peito, espalmada firme contra o tórax, ou mais abaixo, ela não sabe, ou não quer saber se é contra os seios, baixa o olhar e nota que a sua camisa tem um desenho ininteligível estampado ali, onde ele pousa a mão, talvez seja por isso, ele tira a mão quando ela se levanta timidamente dirigindo-se para junto de algumas crianças que brincam no chão, entretidas com os seus jogos, como se eles ali não estivessem por perto, e começa a falar com elas por meio de larachas, a tentar agradar-lhes, a tentar prender as suas atenções, quando se vira na direção dele e o vê a desenhá-la, a desenhá-los?, não sabe, apenas percebe que tem de continuar a brincar com os miúdos como se ele ali não estivesse, concentrado no desenho, olhando na sua direção mas como se ela fosse apenas uma paisagem que ele pinta concentradamente. E acorda. São quase 2:30h da manhã, levanta-se a custo do sofá quente e dirige-se à cozinha onde bebe um copo de água, saboreia-o como se fosse chá, e quando passa pela casa de banho olha-se no espelho, mexe no cabelo, tenta perceber se ainda é bonita, está estremunhada, confusa com o sonho e ruma ao quarto despindo-se com uma ligeireza súbita para aquela hora da madrugada. Enfia-se entre os lençóis, almejando retomar o mesmo sonho, reproduzir a sensação de um quase desconhecido que a desenha, e que ele a ache cativante quando tudo o resto emergir, para além da superfície da folha do papel amarelado.

quarta-feira, agosto 07, 2013

 
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.
 
Natália Correia
 
 
 

domingo, novembro 11, 2012

nas horas das cigarras
as dores viram-se
nas costas
latentes, inertes
ao despertar de um velho dia

o som dos sons que a horas deita
dormem santas na alegoria
das janelas
dess'alma espreita
qual a cor que lhes poria?

ouço pássaros a debitar
os decibéis de um sol que luz
lhes deita
ouço
um piano perto no sofá
que traz
a tua boca doce e só
de um trago cai e alumia.

11.11.2012

segunda-feira, novembro 05, 2012

Esperançoso poema.



Em cada fruto a morte amadurece

deixando inteira, por legado,

uma semente virgem que estremece

logo que o vento a tenha desnudado.


in As Mãos e os Frutos (XXXV)
Eugénio de Andrade

domingo, novembro 04, 2012

somewhere i have never traveled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands

e.e.cummings

quarta-feira, agosto 22, 2012

Miranda July: The Future on Nowness.com.

quinta-feira, junho 14, 2012

...para não ser olvido

NUVEM

Não haverá uma só coisa que não seja
uma nuvem. São-no as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisará. É-o a Odisseia,
que muda como o mar. Há algo de distinto
de cada vez que a abrimos. O reflexo
da tua cara já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa converte-se noutra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que por ti foi perdido.

- Jorge Luis Borges
in Os Conjurados

quarta-feira, abril 11, 2012

pecável, deixo-te este:

PESSOAL INTRANSFERÍVEL

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimónias, «herdeiro» da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

- Torquato Neto
in Antologia da Novíssima Poesia Brasileira, Livros Horizonte

domingo, março 04, 2012

Duelo - I


evocação cruel nos neurónios nasce
incontrolada, das entranhas
o toque de um pulso ilusoriamente firme
imagem esbatida de um beijo longo e lento

apaga o irreal para irromper um ritmo maior
e do ensaio desponte uma cadência certa e forte

encanta o coração de quem se aproxime
genuíno, impetuoso e toque
o acorde sedutor desse momento sempar
e não esqueça, os dias prosaicos os teus
ou as esquinas onde se cruzam as hipóteses

terça-feira, fevereiro 28, 2012

em jeito de desculpa lá, mas a inspiração anda escondida, cá vai: está escrito. mas não está pronto.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012





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trouxe através da medusa....e gosto tanto


"A poesia é feita e desfeita da volúvel matéria das palavras, dos seus murmúrios, dos seus sentidos, dos seus tantas vezes misteriosos propósitos. E das raízes das palavras no mundo onde desgarradamente se prende a solidão no mundo, do formidável poder das palavras não apenas de nomear mas de fazer o mundo.
Hoje sou menos ambicioso, já não escrevo poesia para mudar o mundo mas tão-só para evitar que o mundo me mude a mim. No entanto, como pode alguém proteger-se do mundo ( nem de uma constipação, quanto mais do mundo! ) atrás de uns livros de versos?"
Manuel António Pina

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

DUELO - questão

Pecável: Podemos adiar o prazo de início? Ontem não estava inspirada:)


quinta-feira, janeiro 26, 2012

XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…

in O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

quinta-feira, dezembro 29, 2011

 
“It's possible, in a poem or a short story, to write about commonplace things and objects using commonplace but precise language, and to endow those things-- a chair, a window curtain, a fork, a stone, a woman's earring-- with immense, even startling power. It is possible to write a line of seemingly innocuous dialogue and have it send a chill along the reader's spine-- the source of artistic delight, as Nabokov would have it. That's the kind of writing that most interests me.”
― Raymond Carver
 

segunda-feira, dezembro 26, 2011


era Natal, era Natal, lá, lá, lá, lá, lá....


segunda-feira, dezembro 12, 2011

terça-feira, novembro 15, 2011

ficou o sabor de outra boca desconhecida
na almofada velha o cheiro do teu cabelo escuro 
solto
no ar o silêncio incolor da tua face adormecida
nua
a minha voz 
na tua nuca e saíste
como entraste só
à curta noite longos dias de desapego
no colchão a marca apagada à pressa como te apago da memória
se me empurra a razão a ser assim sem voz
e fingir que tudo é normal em mim assim como se assim voltasse tudo atrás
de mim, 
no turbilhão da noite quieta e branca cal
da parede branca e lenta entre eles e eu
sempre

(se o amor me espreita do lado para onde o meu olhar não se fixa, diz-me, agarra-me e leva-me à força para junto de ti, arrasta-me deste não-lugar de mim, pega-me na mão é contigo que eu devo ir)