terça-feira, junho 02, 2015



Da inteligência que o faz ser estúpido

A mulher sabe que a beleza acaba. Pensa nisso todas as manhãs, quando se vê ao espelho da casa de banho e repara que está com os cabelos desgrenhados e com uma ou outra ruga. Às vezes até uma branca. Penteia-se durante alguns minutos e o pensamento dela centra-se no tempo que passa.
O homem também acorda, coça os tomates e, quando a vê pentear-se, o pensamento centra-se sempre na presente beleza dela. É boa. O futuro não interessa.
Neste aspecto, o homem sempre teve a inteligência de ser mais estúpido do que a mulher. O Amor é quase só isso, aquele momento em que a mulher se penteia semi-nua em frente ao espelho, com um ar tão sério que só pode estar a pensar no almoço.
Esta estupidez inteligente é, aliás, a sorte do homem, que não tem que ser bonito para que a mulher se apaixone por ele. A mulher sabe que o Amor tem que ser muito maior do que esse pequeno pormenor da beleza ou da feiura. Já com ela, a exigência é maior por a exigência ser menor. O homem só a quer bonita, então ela penteia os seus cabelos desgrenhados todas as manhãs, lutando contra o tempo. Ele não.
É por isso que o homem é melhor amante e a mulher é melhor a Amar. Não é grave, as coisas equilibram-se no exacto momento em que a mulher se afasta por uns momentos e ele fica com vontade de abraçar o vento. É com a ausência dela que ele a percebe e que ela lhe ensina que o Amor se prolonga para além do que se vê.
Um homem também pode perder a inteligência que o faz ser estúpido.
 
 

segunda-feira, maio 04, 2015

"Soneto da perdida esperança"

Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto...

passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? Na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.


--- Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, março 24, 2015

nunca mais quero escrever numa língua voraz,
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,...
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo —
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-las numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio


in "Servidões"

Herberto Hélder
1930-2015

quarta-feira, março 11, 2015

a fartura

o encurralamento

encantoasse eu num momento.

segunda-feira, junho 23, 2014

amo o mar

sou a rosa ramalho da minha poesia 
desencontrada nos escaparates
para venda pública

não estudei
e pouco sei
desta persona borderline

acorda-me cedo o dia 
sempre quase
invadida fugazmente pelo mesmo

não rimo, não estimo
e embaraço-me sozinha
de pé

amo o mar, que sei lava-me 
os cabelos da poluição anual
no momento estivo da comunhão

(...)

segunda-feira, junho 02, 2014

bloqueio ao sonho

ainda acho que não é de minha culpa
a culpa de ter um bloqueio ao sonho

enfiei-me à socapa entre a secretária e a cadeira
herdadas do Estado Novo
para trabalhar, dia sim dia sim
até me cansar de vez
para o novo Estado.

ainda acho que não é mea culpa a frase com que devo
inscrever-me porque aqui fui ficando
entalada entre duas coisas inertes
a escrevinhar ofícios inconsequentes
na saturação dos dias infinitos.

não me vem a imaginação e o sonho bloqueado.
a repetição faz parte do meu vocabulário repetitivo e só
coitado. coitado. coitado.

ainda acho que não é minha culpa
a culpa de não procurar fora do sonho
a vida que afinal, teima em ser imaginada...
olha!, afinal vive
e até tens a fotogafia do momento:

tu e ele, em casa, os livros espalhados, fariam dinheiro
não sabes bem como, que interessa
se calhar sim, interessava veres com mais luz
e se vislumbrasses um sonho? que fazes tu?

ainda acho que não é minha esta culpa
não quero passar mal quero só passar,
afinal
sem esforço, sem pesados trabalhos
por aqui.

ainda acho que não é minha a culpa.
ainda
acho que é.


terça-feira, maio 27, 2014




VOCAÇÃO ANIMAL
Herberto Helder 
Dom Quixote (Maio, 1971)



...


quarta-feira, maio 21, 2014

és já o ramo onde pouso
os meus pés
e por onde me chego à ponta
saltitante depois de inquieta para
certificar-me que não me escorregam
os dedos que se fincam nos teus nós, suavemente
p'ra não cair.

e sou eu o pardalito manso que anseia
chilrear-te ao ouvido esquerdo:
sinto que hás-de voar comigo.





segunda-feira, maio 19, 2014


dera-me quem
palavras
daquelas assim

sentidas
marcadas a ferro de caneta
encostada no peito cheio
de desejo, em óhs dessa paixão antiga.

dera-me quem, me
dera
palavras assim

porque as nozes dá-as, Ele
a quem, etc.

sorrio.
sonho.
olvido.

sexta-feira, maio 16, 2014


"escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio de vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite
ou talvez tocar-te
e morrer"
Al Berto
 

domingo, abril 27, 2014


soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura (1942-2014)

quinta-feira, abril 24, 2014



...



quinta-feira, abril 17, 2014

de que me serve ser bonita?
se de luxúria incandescente
não alimento a alma com a fruta dourada e cheia.

de que me serve ser bonita?
serve os teus olhos, intensos,  insandecidos
sorvendo na minha tez.

de que me serve ser bonita?
se vomitei a pergunta na penumbra e em ti poderá nunca nascer a palavra
outra.


de que me serve ser bonita?
se não sei o silêncio em mim mas sei não pedir flores
(disseram-me que não se pedem flores).

de que me serve ser bonita?
se os meus olhos mudaram tristes
e justos sei os teus se não querem ver.

de que me serve ser bonita?
se nos precipito e não páro o Tempo com um chicote de voltear
porque não sou deusa.

de que me serve ser bonita?
se me derretes de sons e lambes o sabor da cereja que escorre
mas não sei o que (te) fica e não sei se quero saber.

de que me serve ser bonita se não sei nada? 
se me perdi na análise refogada do real 
ou do sonho a escorregar nas persianas das minhas pestanas.

de que me serve ser bonita?
se a palavra não nascer?
e tu não sabes responder-me. e eu não posso perguntar
de que me serve ser bonita?

(no meio tudo o que me ofereces  é belo não sou injusta).

terça-feira, abril 15, 2014

Num campo
eu sou a ausência
de campo.
Acontece
sempre o mesmo.
Onde quer que esteja
sou aquilo que falta.

Ao caminhar
separo o ar
e de todas as vezes
o ar precipita-se
para preencher os espaços
onde o meu corpo esteve.

Todos temos motivos
para nos deslocarmos.
Eu desloco-me
para manter as coisas inteiras.

Mark Strand
uma definição

o amor é uma luz
que atravessa de noite o nevoeiro

o amor é uma carica
pisada a caminho
da casa de banho

o amor é a chave perdida da tua porta
quando estás bêbedo

o amor é o que acontece
um ano em dez

o amor é um gato esmagado

o amor é o velho ardina
parado na esquina que
largou a profissão

o amor é o que tu achas que a outra
pessoa destruiu

o amor é o que desapareceu no
tempo dos couraçados

o amor é o telefone a tocar,
a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa

o amor é traição
o amor é o fogo que consome
os sem-abrigo numa viela

o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio

o amor é chuva a cair no telhado
de um velho hotel
de Los Angeles

o amor é o teu pai num caixão
(que te odiava)

o amor é um cavalo com uma pata
partida
a tentar levantar-se
perante uma assistência
de 45.000 pessoas

o amor é o nosso modo de cozer
como a lagosta

o amor é tudo aquilo que dissemos
que ele não era

o amor é a pulga que não consegues
encontrar

e o amor é um mosquito

o amor são 50 granadeiros

o amor é uma arrastadeira
vazia

o amor é um motim em San Quentin
o amor é um hospício
o amor é um burro parado numa
rua de moscas

o amor é um banco vago ao balcão

o amor é um filme do Hindenburg
a encarquilhar-se em pedaços
um instante que continua a gritar

o amor é o Dostoiévski a dar
à roleta

o amor é o que rasteja
pelo chão

o amor é a tua mulher a dançar
agarrada a um desconhecido

o amor é uma velha
a roubar um pedaço de
pão

e o amor é uma palavra usada
demasiadas vezes e
demasiado
cedo.

Charles Bukowski
(tradução de Vasco Gato)

segunda-feira, abril 14, 2014

Quando somos novos - quando eu era novo - queremos que as nossas emoções sejam como as que conhecemos de ler nos livros. Queremos que nos virem a vida do avesso, que criem e definam uma nova realidade. Mais tarde, penso eu, queremos que façam uma coisa mais suave, uma coisa mais prática: queremos que amparem a nossa vida como ela é e como passou a ser. Queremos que nos digam que as coisas estão bem. E há nisso algum mal?


Julian Barnes, O Sentido do Fim

quinta-feira, abril 03, 2014

estou a pensar aparecer à tua porta
não invadir a tua privacidade
apenas a tua boca.

vir-me
embora.

quarta-feira, abril 02, 2014