segunda-feira, outubro 26, 2015
segunda-feira, agosto 17, 2015
terça-feira, julho 14, 2015
quarta-feira, julho 01, 2015
terça-feira, junho 02, 2015
Da inteligência que o faz ser estúpido
A mulher sabe que a beleza acaba. Pensa nisso todas as manhãs, quando se vê ao espelho da casa de banho e repara que está com os cabelos desgrenhados e com uma ou outra ruga. Às vezes até uma branca. Penteia-se durante alguns minutos e o pensamento dela centra-se no tempo que passa.
O homem também acorda, coça os tomates e, quando a vê pentear-se, o pensamento centra-se sempre na presente beleza dela. É boa. O futuro não interessa.
Neste aspecto, o homem sempre teve a inteligência de ser mais estúpido do que a mulher. O Amor é quase só isso, aquele momento em que a mulher se penteia semi-nua em frente ao espelho, com um ar tão sério que só pode estar a pensar no almoço.
Esta estupidez inteligente é, aliás, a sorte do homem, que não tem que ser bonito para que a mulher se apaixone por ele. A mulher sabe que o Amor tem que ser muito maior do que esse pequeno pormenor da beleza ou da feiura. Já com ela, a exigência é maior por a exigência ser menor. O homem só a quer bonita, então ela penteia os seus cabelos desgrenhados todas as manhãs, lutando contra o tempo. Ele não.
É por isso que o homem é melhor amante e a mulher é melhor a Amar. Não é grave, as coisas equilibram-se no exacto momento em que a mulher se afasta por uns momentos e ele fica com vontade de abraçar o vento. É com a ausência dela que ele a percebe e que ela lhe ensina que o Amor se prolonga para além do que se vê.
Um homem também pode perder a inteligência que o faz ser estúpido.
retirado do blogue http://naocompreendoasmulheres.blogspot.pt/
segunda-feira, maio 04, 2015
"Soneto da perdida esperança"
Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto...
passaria sobre meu corpo.
Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto...
passaria sobre meu corpo.
Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.
Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? Na noite escassa
com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.
--- Carlos Drummond de Andrade
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.
Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? Na noite escassa
com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.
--- Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, março 24, 2015
nunca mais quero escrever numa língua voraz,
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,...
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo —
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-las numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio
in "Servidões"
Herberto Hélder
1930-2015
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,...
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo —
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-las numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio
in "Servidões"
Herberto Hélder
1930-2015
quarta-feira, março 11, 2015
segunda-feira, junho 23, 2014
amo o mar
sou a rosa ramalho da minha poesia
desencontrada nos escaparates
para venda pública
não estudei
e pouco sei
desta persona borderline
acorda-me cedo o dia
sempre quase
sempre quase
invadida fugazmente pelo mesmo
não rimo, não estimo
e embaraço-me sozinha
de pé
amo o mar, que sei lava-me
os cabelos da poluição anual
no momento estivo da comunhão
(...)
segunda-feira, junho 02, 2014
bloqueio ao sonho
ainda acho que não é de minha culpa
a culpa de ter um bloqueio ao sonho
enfiei-me à socapa entre a secretária e a cadeira
herdadas do Estado Novo
para trabalhar, dia sim dia sim
até me cansar de vez
para o novo Estado.
ainda acho que não é mea culpa a frase com que devo
inscrever-me porque aqui fui ficando
entalada entre duas coisas inertes
a escrevinhar ofícios inconsequentes
na saturação dos dias infinitos.
não me vem a imaginação e o sonho bloqueado.
a repetição faz parte do meu vocabulário repetitivo e só
coitado. coitado. coitado.
ainda acho que não é minha culpa
a culpa de não procurar fora do sonho
a vida que afinal, teima em ser imaginada...
olha!, afinal vive
e até tens a fotogafia do momento:
tu e ele, em casa, os livros espalhados, fariam dinheiro
não sabes bem como, que interessa
se calhar sim, interessava veres com mais luz
e se vislumbrasses um sonho? que fazes tu?
ainda acho que não é minha esta culpa
não quero passar mal quero só passar,
afinal
sem esforço, sem pesados trabalhos
por aqui.
ainda acho que não é minha a culpa.
ainda
acho que é.
ainda acho que não é de minha culpa
a culpa de ter um bloqueio ao sonho
enfiei-me à socapa entre a secretária e a cadeira
herdadas do Estado Novo
para trabalhar, dia sim dia sim
até me cansar de vez
para o novo Estado.
ainda acho que não é mea culpa a frase com que devo
inscrever-me porque aqui fui ficando
entalada entre duas coisas inertes
a escrevinhar ofícios inconsequentes
na saturação dos dias infinitos.
não me vem a imaginação e o sonho bloqueado.
a repetição faz parte do meu vocabulário repetitivo e só
coitado. coitado. coitado.
ainda acho que não é minha culpa
a culpa de não procurar fora do sonho
a vida que afinal, teima em ser imaginada...
olha!, afinal vive
e até tens a fotogafia do momento:
tu e ele, em casa, os livros espalhados, fariam dinheiro
não sabes bem como, que interessa
se calhar sim, interessava veres com mais luz
e se vislumbrasses um sonho? que fazes tu?
ainda acho que não é minha esta culpa
não quero passar mal quero só passar,
afinal
sem esforço, sem pesados trabalhos
por aqui.
ainda acho que não é minha a culpa.
ainda
acho que é.
quarta-feira, maio 21, 2014
segunda-feira, maio 19, 2014
sexta-feira, maio 16, 2014
"escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio de vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite
ou talvez tocar-te
e morrer"
Al Berto
domingo, abril 27, 2014
soneto do amor e da morte
quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Vasco Graça Moura (1942-2014)
quinta-feira, abril 24, 2014
domingo, abril 20, 2014
quinta-feira, abril 17, 2014
de que me serve ser bonita?
se de luxúria incandescente
não alimento a alma com a fruta dourada e cheia.
de que me serve ser
bonita?
serve os teus olhos, intensos, insandecidos
sorvendo na minha tez.
de que me serve ser bonita?
se vomitei a pergunta na penumbra e em ti poderá nunca nascer a palavra
outra.
outra.
de que me serve ser bonita?
se não sei o silêncio em mim mas sei não pedir flores
(disseram-me que não se pedem flores).
de que me serve ser bonita?
se os meus olhos mudaram tristes
e justos sei os teus se não querem ver.
de que me serve ser bonita?
se nos precipito e não páro o Tempo com um chicote de voltear
porque não sou deusa.
de que me serve ser bonita?
se me derretes de sons e lambes o sabor da cereja que escorre
mas não sei o que (te) fica e não sei se quero saber.
de que me serve ser bonita se não sei nada?
se me perdi na análise refogada do real
ou do sonho a escorregar nas persianas das minhas pestanas.
de que me serve ser bonita?
se a palavra não nascer?
e tu não sabes responder-me. e eu não posso perguntar
de que me serve ser bonita?
(no meio tudo o que me
ofereces é belo não sou injusta).
terça-feira, abril 15, 2014
Num campo
eu sou a ausência
de campo.
Acontece
sempre o mesmo.
Onde quer que esteja
sou aquilo que falta.
Ao caminhar
separo o ar
e de todas as vezes
o ar precipita-se
para preencher os espaços
onde o meu corpo esteve.
Todos temos motivos
para nos deslocarmos.
Eu desloco-me
para manter as coisas inteiras.
Mark Strand
eu sou a ausência
de campo.
Acontece
sempre o mesmo.
Onde quer que esteja
sou aquilo que falta.
Ao caminhar
separo o ar
e de todas as vezes
o ar precipita-se
para preencher os espaços
onde o meu corpo esteve.
Todos temos motivos
para nos deslocarmos.
Eu desloco-me
para manter as coisas inteiras.
Mark Strand
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