quinta-feira, junho 14, 2012

...para não ser olvido

NUVEM

Não haverá uma só coisa que não seja
uma nuvem. São-no as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisará. É-o a Odisseia,
que muda como o mar. Há algo de distinto
de cada vez que a abrimos. O reflexo
da tua cara já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa converte-se noutra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que por ti foi perdido.

- Jorge Luis Borges
in Os Conjurados

quarta-feira, abril 11, 2012

pecável, deixo-te este:

PESSOAL INTRANSFERÍVEL

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimónias, «herdeiro» da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

- Torquato Neto
in Antologia da Novíssima Poesia Brasileira, Livros Horizonte

domingo, março 04, 2012

Duelo - I


evocação cruel nos neurónios nasce
incontrolada, das entranhas
o toque de um pulso ilusoriamente firme
imagem esbatida de um beijo longo e lento

apaga o irreal para irromper um ritmo maior
e do ensaio desponte uma cadência certa e forte

encanta o coração de quem se aproxime
genuíno, impetuoso e toque
o acorde sedutor desse momento sempar
e não esqueça, os dias prosaicos os teus
ou as esquinas onde se cruzam as hipóteses

terça-feira, fevereiro 28, 2012

em jeito de desculpa lá, mas a inspiração anda escondida, cá vai: está escrito. mas não está pronto.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012





.
 
trouxe através da medusa....e gosto tanto


"A poesia é feita e desfeita da volúvel matéria das palavras, dos seus murmúrios, dos seus sentidos, dos seus tantas vezes misteriosos propósitos. E das raízes das palavras no mundo onde desgarradamente se prende a solidão no mundo, do formidável poder das palavras não apenas de nomear mas de fazer o mundo.
Hoje sou menos ambicioso, já não escrevo poesia para mudar o mundo mas tão-só para evitar que o mundo me mude a mim. No entanto, como pode alguém proteger-se do mundo ( nem de uma constipação, quanto mais do mundo! ) atrás de uns livros de versos?"
Manuel António Pina

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

DUELO - questão

Pecável: Podemos adiar o prazo de início? Ontem não estava inspirada:)


quinta-feira, janeiro 26, 2012

XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…

in O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

quinta-feira, dezembro 29, 2011

 
“It's possible, in a poem or a short story, to write about commonplace things and objects using commonplace but precise language, and to endow those things-- a chair, a window curtain, a fork, a stone, a woman's earring-- with immense, even startling power. It is possible to write a line of seemingly innocuous dialogue and have it send a chill along the reader's spine-- the source of artistic delight, as Nabokov would have it. That's the kind of writing that most interests me.”
― Raymond Carver
 

segunda-feira, dezembro 26, 2011


era Natal, era Natal, lá, lá, lá, lá, lá....


segunda-feira, dezembro 12, 2011

terça-feira, novembro 15, 2011

ficou o sabor de outra boca desconhecida
na almofada velha o cheiro do teu cabelo escuro 
solto
no ar o silêncio incolor da tua face adormecida
nua
a minha voz 
na tua nuca e saíste
como entraste só
à curta noite longos dias de desapego
no colchão a marca apagada à pressa como te apago da memória
se me empurra a razão a ser assim sem voz
e fingir que tudo é normal em mim assim como se assim voltasse tudo atrás
de mim, 
no turbilhão da noite quieta e branca cal
da parede branca e lenta entre eles e eu
sempre

(se o amor me espreita do lado para onde o meu olhar não se fixa, diz-me, agarra-me e leva-me à força para junto de ti, arrasta-me deste não-lugar de mim, pega-me na mão é contigo que eu devo ir)


segunda-feira, outubro 31, 2011






here I go again...




terça-feira, outubro 25, 2011

aventura no Dades...


domingo, outubro 02, 2011

work, work, work.
as férias grandes quase, quase, quase. 
e mucho calor.

quarta-feira, setembro 07, 2011

sábado, setembro 03, 2011

...e por acreditar que há coincidências

...elas acontecem. há dias, talvez 2 ou 3, uma amiga pediu-me conselho sobre determinada pessoa, enquanto profissional, ou seja, queria a minha opinião. eu, que não tenho razões de queixa dos serviços prestados porque a eles recorri  no passado, respondi que seria melhor contactar outra pessoa, e enviei-lhe o contacto. por razões que se prendem com a minha intuição, achei melhor a minha amiga procurar os serviços de outrém. no dia seguinte, recebi uma sms, da pessoa que não aconselhei. há 3 anos que não me contactava, fê-lo por lapso, como vim a perceber imediatamente. e todos sabemos que a nossas vidas estão cheias destas pequenas coisas. uns gostam de pensar que tudo tem uma razão de ser, crêem no destino, e achariam que o sucedido não seria coincidência. outros, que existe o acaso e a aleatoriedade natural dos acontecimentos e ocorrências mundanas. e se calhar, poderá existir um terceiro grupo de pessoas, que, como eu, uns dias pensam que podem vir a acreditar nas duas anteriores. e nunca têm muitas certezas. 
pese embora estas pessoas tendam para o racional e prefiram as ilações oriundas de uma certa lógica e do uso da racionalidade, da inteligência e da capacidade de pensar o Mundo, da observação empírica dos fenómenos e de tudo aquilo que existe, e que lhes conferem uma constante impossibilidade de acreditar, sem hesitações, nos mistérios que se encontram  entre o Céu e a Terra e que não vêm escritos nas Estrelas. este cliché, era uma das minhas tiradas favoritas até há uns tempos atrás....era. porque comecei a perceber que me poderia ser mais útil fazer melhor uso da minha inteligência para tentar evitar os constantes clichés e verdades dos outros e do mundo. assim, continuo à procura. da minha verdade no mundo, pois.
e confesso: não sinto necessidade, soando contraditória, de repudiar os clichés e os pensamentos de alguns sobre o mundo, escarnecer ou ridicularizar como tantos que se arrepiam à mínima aproximação de provérbios, frases batidas, clichés, citações e afins, ainda que entenda essa alergia. a mim, por enquanto, só os gatos e o pó me fazem espirrar.

ah!... gosto muito, mesmo, de coincidências. :P


sexta-feira, setembro 02, 2011

saramagoepeixoto.jpg

quinta-feira, setembro 01, 2011

Na luz indecisa que deixa adivinhar
a manhã, a névoa que impregna o ar
desfaz-se quando os dedos de fogo do sol
a limpam, restituindo ao dia
a sua transparência. Mas a mulher que
ocupa o centro da paisagem não
se apercebe da mudança. O seu corpo
pertence à terra, e entrega-se
ao ritmo subterrâneo das raízes, ouvindo
o canto que regula a passagem
das estações. Um desejo de sombra apodera-se
da sua alma; e conta o tempo que falta
para a noite, para se entregar ao silêncio
do mundo, no lento eclipse
dos sentimentos.

Nuno Júdice