quarta-feira, novembro 29, 2017

Os barulhos que ouves são meus
investindo com toda esta carcaça
nos fundos, pelos séculos, uma dor
ao acordar de qualquer sonho
e olhando em volta, estimo os danos

a eternidade que vos entusiasma tanto
trocava-a por uma cerveja fresca
numa tarde que ardesse com cem sóis,
eu que nem gosto de cerveja,
que fico a ver-nos de volta
das sobras de uma ode
como essa bala-mosca de roda
das nossas cabeças não sei
se dentro se fora

as mãos torcidas, pontas dos dedos
queimadas, de tanto puxar a linha,
e se me perguntas o que acho,
há muito que devíamos
ter livrado os versos da tortura da beleza
fria, forçada
prefiro as passadas de loucos,
essas migalhas que denunciam o caminho
daqui até ao outro mundo

enterra a língua e volta anos depois
para saber o que escapou ao apetite dos vermes,
aos poucos assim aprenderemos
a deixar versos como ossos,
e mesmo jardins desses onde se dissolvam
os velhos encostados a torsos mutilados
onde a cidade timidamente se
entorne e se te apetecer faz florir
ali no largo as cerejeiras do Japão

o guarda da floresta sabe o que lias
longe dos outros, depois da escola,
nem que tenhamos de voltar lá:
Verne, Stevenson, Dumas

sei bem o que é esperar a noite
o quarto, um capítulo rasgado do inferno,
por obsceno, raivoso
(se visses as minhas notas
antes de limar as unhas ao poema)
e ali um velho ouvindo do horror
confissões capazes de romper-vos uma veia

enciumado, imaginando que chegarás tarde
lendo até à embriaguez e de manhã,
ao acordar, cuspimos os dentes de outros
poetas para a pia

a mim, já nenhum som me importa
oiço outras coisas, na cabeça
uma orquestra fica de serviço
aos meus exageros como à suave
insanidade de chinelos
no andar de cima

aperto na boca o gatilho
aguardando a noite em que te canses
e me deixes uma bala no tambor
isso e um bilhete indecoroso
antes de te vestires de luto

olho para o lado a flor
bebendo o escuro, pousando
a cabeça na tua saia, ao canto,
como um trapo com que enxaguei
o vinho derramado no chão
fico ali, amolecendo às claras,
enquanto não te vens deitar
e apago a luz de uma estrela decrépita
que, junto à cama, nos serve de candeeiro

Diogo Vaz Pinto
in http://omelhoramigo.blogspot.pt/

sexta-feira, maio 19, 2017

praguejar

foda-se, que já me irrita esta merda de andar a sonhar com quem deixou de me atender telefonemas ou responder a sms, sem  mais nem porquê, sem uma palavrita, uma expressão mais pesada de desagrado, uma frase deixada a um amigo comum que fosse, qualquer coisa. irrita porque não controlo o que sonho e depois acordo a pensar naquilo e ainda mais fodida fico. sem rodeios: fodida.

depois passa. como tudo.


quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Foi capaz de me deixar emocionada, o documentário Vida Activa: o Espírito de Hannah Arendt, de Ada Ushpiz.
Em primeiro lugar, porque foi com base num artigo escrito por esta pensadora que apresentei a minha tese final de licenciatura: um “paper” com 30 páginas, sobre a Desobediência Civil, que foi um tiro no escuro. Um tiro no escuro mas com a supervisão do meu Mestre, Silvério Rocha e Cunha, por quem costumo dizer que valeu a pena estudar sociologia na Universidade de Évora.
Em segundo lugar, porque a biografia da pensadora política brilhante que foi Arendt, transposta em imagens, em formato de documentário, é um objeto absolutamente irresistível. A vida dela enquanto “objeto” de assombro, reflexão, admiração e surpresa; o documentário, porque me permitiu observar e conhecer mais um pouco a autora.
Hannah Arendt é daquelas pessoas que surgem na face do planeta como um bicho raro. Porque a inteligência servida em doses elevadas é algo que não encontramos a cada esquina. Porque os percalços e percursos de Arendt são extraordinários: os tempos que viveu foram extraordinários, a fuga ao Holocausto (com H maiúsculo, pese embora também não considere impossível vivermos de novo Holocaustos e não será pernicioso pensarmos que o que se passou entre 39 e 45 do século passado foi o culminar do Mal?) marcou inevitavelmente o seu percurso como pessoa, como mulher e como pensadora (Arendt não gostava de ser designada como filósofa). O percurso académico, a relação com Jaspers, as relações com os maridos e Heidegger, a passagem por Paris, o exílio final nos EUA, a terra onde encontrou tamanha diversidade, que a acolheu. O julgamento de Eichmann e a ostracização de Arendt pela comunidade judaica, também dos EUA, com a célebre polémica gerada em volta da noção de “banalidade do mal” enunciada a partir do julgamento do nazi Adolf Eichmann, em Jerusalém, a que Arendt fez questão de assistir.
Arendt era judia, filha de não praticantes, numa certa fase da sua vida trabalhou em prol da comunidade judaica, mas encontrará incongruências no processo que conduziu ao estabelecimento do Estado de Israel – afinal de contas, os palestinianos estavam lá, na Palestina… "levanta-se a questão moral e política da coexistência do Estado de Israel com os seus vizinhos árabes" (in Soun and Vision, João Lopes).
Foram mais de 2 horas de filme, numa síntese que a Midas Filmes apresenta desta forma: "A filósofa alemã Hannah Arendt causou polémica na década de 1960 ao desenvolver o conceito subversivo da "banalidade do mal" referindo-se ao julgamento de Adolf Eichmann, sobre o qual escreveu para a revista The New Yorker. A sua vida privada não foi menos controversa graças ao seu caso amoroso com o célebre filósofo alemão e apoiante nazi Martin Heidegger. Este documentário provocador e arrojado, com base numa vasta quantidade de materiais de arquivo, oferece um retrato intimista da vida de Arendt, viajando pelos lugares onde viveu, trabalhou, amou, e foi traída, enquanto escrevia sobre as feridas abertas dos tempos modernos".
Sobre o conceito mais polémico entre centenas que desenvolveu, a Banalidade do Mal, muito se escreveu, disse e pensou, muito se há-de continuar a escrever, dizer e pensar, creio.
Arendt, com aquele ar de mulher que não tem tempo a perder com o supérfluo, segura de si, irónica, com um humor que eu lhe desconhecia, sinal do caráter de quem sabe o seu lugar no mundo, uma perfeita consciência de si, dos outros e do ridículo que por vezes a vida é (riu desbragadamente -e o adjetivo escolhi-o eu- com frases de Eichmann, o burocrata incapaz de imaginação, mas um exemplo de funcionário público obediente e eficazmente inteligente, diz ela: inteligente mas estúpido. O "clown"!
 Arendt, dizia eu, foi sem dúvida um ser extraordinário, brilhante, controverso, errante, humano. O que me leva a refletir na falta de heróis na minha vida, de pessoas que sejam capazes de me deixar assoberbada e orgulhosa, feliz e perturbada, encantada e esperançosa. Haja os livros e o pensamento, que tenho anos para me entreter.
NOTA – O documentário em apreço, estará até hoje no cinema Ideal em Lx, mas pode ser consultado na internet, num site qualquer perto de si.

quarta-feira, março 02, 2016

Eduardo Lourenço, entravado de início pelo ónus da idade, converte em viço a sua voz, para concluir a leitura emocionado:
“A lua subiu ao céu quente, a sua água escorre-me agora pelo corpo. Lavo nela as minhas mãos e é como se me purificasse num tempo anterior à vida, num luminoso halo de coisas por nascerem. Súbito, neste silêncio mineral, a porta da sala range e o vulto de minha mulher, o seu corpo franzino, esfuma-se na sombra. Senta-se ao meu lado, estende os pés ao luar ...
sem dizer nada: ao fim de muitos anos aprendemos a verdade, na aparição da graça, num limiar de presença, antes que sobre a Terra fosse pronunciada a primeira palavra. Tomo as suas mãos nas minhas e no deslumbramento da noite abre-se, angustiada, a flor da comunhão…”.
No fim, comovido, eu comovida, a sala toda devia ter ficado emocionada, se não ficou, e para Lídia Jorge: “Ele sabia escrever sobre as mulheres, Lídia” e ela encosta o seu rosto no ombro dele, enquanto ele a conforta com uma carícia paternal.
Este momento retive-o da leitura do prefácio de Aparição, por Eduardo Lourenço, em jeitos de encerramento do Congresso Internacional Comemorativo do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, organizado pela Universidade de Évora.
Se a intervenção de Lídia Jorge focou, entre outros, o sentimento de Vergílio Ferreira perante a condição feminina, predicado da sua geração, como ela frisou, e do seu tempo, e que sobre as mulheres nem sempre teceu laudatórios comentários, sobretudo perante a apropriação feminina do Romance e quiçá preocupado com a capitulação do mesmo, não deixou também de finalizar que devia ao escritor o seu rigor e aprendizagem, e que ele fora a primeira pessoa a quem ela dera a ler o seu primeiro Romance e sobre o qual ele escreveu e publicou comentário num jornal.

(a ler Aparição, finalmente, e inquieta para partir para o próximo. depois, Lídia Jorge.)
 

terça-feira, novembro 17, 2015


Alguns de todos

Os que não

Seguem a marcha compassada

Da esfera pública publicada

Poucos vão

 

Mas estão

Mas são

Mente atiçada

 

Velada

Mente

Alguns

Que não

 

Mas são, se são

Oh

Ou não? Poucos
Senão...
 

quarta-feira, novembro 04, 2015

Depois de mais um combate
Mal refeito do ringue, carrego a toalha
como uma montanha onde a neve é de
chumbo venoso. Carrego-a como um
manto e levanto voo leve rumo à teia

da sempre aranha, mesmíssima princesa.
Tenho nódoas negras áridas da baba
breve e carrancuda da comensal. Acaba
a manhã com uma finta à fome e fio

a seda como um orvalho olheirudo
e aproveito os tempos mortos para
os assear e amontoar e subir ao cimo

daquele abraço. Depois, iludo a água
que me visita o pó sanguíneo e firmo
os pés inolentes na pauta do declínio.
 
in http://ospecaveis.blogspot.pt/

sexta-feira, outubro 16, 2015

escrever ou não escrever?

"Hoje em dia muita gente quer escrever um livro – e eu acrescento: acha que pode. Não discutindo as competências de cada um, a verdade é que o facto de todo o bicho-careta, entre apresentadores de TV e actrizes de telenovela, publicar livros faz com que se pense que escrever não implica talento e o que é preciso é ter uma história para contar (quando o como se conta a história é que, normalmente, faz a diferença). Sei que já falei muitas vezes aqui do tema, mas descobri umas novas dicas importantes. William Boyd, escritor, formula algumas perguntas essenciais aos aspirantes a escritores, que servem, no fundo, para que concluam se, efectivamente, estão habilitados a escrever um livro. E a primeira é justamente «Sabem escrever?», ou seja, se dominam a gramática, não cometem erros, são capazes de se exprimir por escrito de forma a serem entendidos e, claro, conhecem mesmo bem a sua língua; sem isso, meu amigo, de maneira nenhuma se tornarão autores de jeito. «Sabem planificar?» é outra das perguntas, uma vez que a organização da intriga ao longo das páginas de um livro é absolutamente fundamental; não é preciso o plano integral antes de começarem a escrever, mas, à medida que escrevem, têm de saber onde entra o quê sem se espalharem ao comprido. «Têm imaginação?» Ah, pois, há quem julgue que não precisa disto, mas é impossível tornar um episódio credível se o seu autor não o conseguir imaginar, diz o conselheiro. «São suficientemente resistentes?» Sim, Boyd acha que não só escrever um romance implica perseverança, aceitar os momentos menos criativos sem desistir, se calhar cortar páginas e páginas que deram muito trabalho na altura de rever, esperar o tempo que for preciso até o livro estar pronto, mas também que é necessária resistência às críticas depois de o livro sair e ao longo da carreira, porque há na profissão de escritor muitos altos e baixos. Enfim, algumas questões que ajudarão os indecisos a tomar uma decisão em consciência. "
 
 
(ok, com esta me resigno...)

segunda-feira, agosto 17, 2015


terça-feira, julho 14, 2015


quarta-feira, julho 01, 2015

terça-feira, junho 02, 2015



Da inteligência que o faz ser estúpido

A mulher sabe que a beleza acaba. Pensa nisso todas as manhãs, quando se vê ao espelho da casa de banho e repara que está com os cabelos desgrenhados e com uma ou outra ruga. Às vezes até uma branca. Penteia-se durante alguns minutos e o pensamento dela centra-se no tempo que passa.
O homem também acorda, coça os tomates e, quando a vê pentear-se, o pensamento centra-se sempre na presente beleza dela. É boa. O futuro não interessa.
Neste aspecto, o homem sempre teve a inteligência de ser mais estúpido do que a mulher. O Amor é quase só isso, aquele momento em que a mulher se penteia semi-nua em frente ao espelho, com um ar tão sério que só pode estar a pensar no almoço.
Esta estupidez inteligente é, aliás, a sorte do homem, que não tem que ser bonito para que a mulher se apaixone por ele. A mulher sabe que o Amor tem que ser muito maior do que esse pequeno pormenor da beleza ou da feiura. Já com ela, a exigência é maior por a exigência ser menor. O homem só a quer bonita, então ela penteia os seus cabelos desgrenhados todas as manhãs, lutando contra o tempo. Ele não.
É por isso que o homem é melhor amante e a mulher é melhor a Amar. Não é grave, as coisas equilibram-se no exacto momento em que a mulher se afasta por uns momentos e ele fica com vontade de abraçar o vento. É com a ausência dela que ele a percebe e que ela lhe ensina que o Amor se prolonga para além do que se vê.
Um homem também pode perder a inteligência que o faz ser estúpido.
 
 

segunda-feira, maio 04, 2015

"Soneto da perdida esperança"

Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto...

passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? Na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.


--- Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, março 24, 2015

nunca mais quero escrever numa língua voraz,
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,...
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo —
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-las numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio


in "Servidões"

Herberto Hélder
1930-2015

quarta-feira, março 11, 2015

a fartura

o encurralamento

encantoasse eu num momento.

segunda-feira, junho 23, 2014

amo o mar

sou a rosa ramalho da minha poesia 
desencontrada nos escaparates
para venda pública

não estudei
e pouco sei
desta persona borderline

acorda-me cedo o dia 
sempre quase
invadida fugazmente pelo mesmo

não rimo, não estimo
e embaraço-me sozinha
de pé

amo o mar, que sei lava-me 
os cabelos da poluição anual
no momento estivo da comunhão

(...)

segunda-feira, junho 02, 2014

bloqueio ao sonho

ainda acho que não é de minha culpa
a culpa de ter um bloqueio ao sonho

enfiei-me à socapa entre a secretária e a cadeira
herdadas do Estado Novo
para trabalhar, dia sim dia sim
até me cansar de vez
para o novo Estado.

ainda acho que não é mea culpa a frase com que devo
inscrever-me porque aqui fui ficando
entalada entre duas coisas inertes
a escrevinhar ofícios inconsequentes
na saturação dos dias infinitos.

não me vem a imaginação e o sonho bloqueado.
a repetição faz parte do meu vocabulário repetitivo e só
coitado. coitado. coitado.

ainda acho que não é minha culpa
a culpa de não procurar fora do sonho
a vida que afinal, teima em ser imaginada...
olha!, afinal vive
e até tens a fotogafia do momento:

tu e ele, em casa, os livros espalhados, fariam dinheiro
não sabes bem como, que interessa
se calhar sim, interessava veres com mais luz
e se vislumbrasses um sonho? que fazes tu?

ainda acho que não é minha esta culpa
não quero passar mal quero só passar,
afinal
sem esforço, sem pesados trabalhos
por aqui.

ainda acho que não é minha a culpa.
ainda
acho que é.


terça-feira, maio 27, 2014




VOCAÇÃO ANIMAL
Herberto Helder 
Dom Quixote (Maio, 1971)



...


quarta-feira, maio 21, 2014

és já o ramo onde pouso
os meus pés
e por onde me chego à ponta
saltitante depois de inquieta para
certificar-me que não me escorregam
os dedos que se fincam nos teus nós, suavemente
p'ra não cair.

e sou eu o pardalito manso que anseia
chilrear-te ao ouvido esquerdo:
sinto que hás-de voar comigo.





segunda-feira, maio 19, 2014


dera-me quem
palavras
daquelas assim

sentidas
marcadas a ferro de caneta
encostada no peito cheio
de desejo, em óhs dessa paixão antiga.

dera-me quem, me
dera
palavras assim

porque as nozes dá-as, Ele
a quem, etc.

sorrio.
sonho.
olvido.

sexta-feira, maio 16, 2014


"escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio de vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite
ou talvez tocar-te
e morrer"
Al Berto
 

domingo, abril 27, 2014


soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura (1942-2014)

quinta-feira, abril 24, 2014



...



quinta-feira, abril 17, 2014

de que me serve ser bonita?
se de luxúria incandescente
não alimento a alma com a fruta dourada e cheia.

de que me serve ser bonita?
serve os teus olhos, intensos,  insandecidos
sorvendo na minha tez.

de que me serve ser bonita?
se vomitei a pergunta na penumbra e em ti poderá nunca nascer a palavra
outra.


de que me serve ser bonita?
se não sei o silêncio em mim mas sei não pedir flores
(disseram-me que não se pedem flores).

de que me serve ser bonita?
se os meus olhos mudaram tristes
e justos sei os teus se não querem ver.

de que me serve ser bonita?
se nos precipito e não páro o Tempo com um chicote de voltear
porque não sou deusa.

de que me serve ser bonita?
se me derretes de sons e lambes o sabor da cereja que escorre
mas não sei o que (te) fica e não sei se quero saber.

de que me serve ser bonita se não sei nada? 
se me perdi na análise refogada do real 
ou do sonho a escorregar nas persianas das minhas pestanas.

de que me serve ser bonita?
se a palavra não nascer?
e tu não sabes responder-me. e eu não posso perguntar
de que me serve ser bonita?

(no meio tudo o que me ofereces  é belo não sou injusta).

terça-feira, abril 15, 2014

Num campo
eu sou a ausência
de campo.
Acontece
sempre o mesmo.
Onde quer que esteja
sou aquilo que falta.

Ao caminhar
separo o ar
e de todas as vezes
o ar precipita-se
para preencher os espaços
onde o meu corpo esteve.

Todos temos motivos
para nos deslocarmos.
Eu desloco-me
para manter as coisas inteiras.

Mark Strand
uma definição

o amor é uma luz
que atravessa de noite o nevoeiro

o amor é uma carica
pisada a caminho
da casa de banho

o amor é a chave perdida da tua porta
quando estás bêbedo

o amor é o que acontece
um ano em dez

o amor é um gato esmagado

o amor é o velho ardina
parado na esquina que
largou a profissão

o amor é o que tu achas que a outra
pessoa destruiu

o amor é o que desapareceu no
tempo dos couraçados

o amor é o telefone a tocar,
a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa

o amor é traição
o amor é o fogo que consome
os sem-abrigo numa viela

o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio

o amor é chuva a cair no telhado
de um velho hotel
de Los Angeles

o amor é o teu pai num caixão
(que te odiava)

o amor é um cavalo com uma pata
partida
a tentar levantar-se
perante uma assistência
de 45.000 pessoas

o amor é o nosso modo de cozer
como a lagosta

o amor é tudo aquilo que dissemos
que ele não era

o amor é a pulga que não consegues
encontrar

e o amor é um mosquito

o amor são 50 granadeiros

o amor é uma arrastadeira
vazia

o amor é um motim em San Quentin
o amor é um hospício
o amor é um burro parado numa
rua de moscas

o amor é um banco vago ao balcão

o amor é um filme do Hindenburg
a encarquilhar-se em pedaços
um instante que continua a gritar

o amor é o Dostoiévski a dar
à roleta

o amor é o que rasteja
pelo chão

o amor é a tua mulher a dançar
agarrada a um desconhecido

o amor é uma velha
a roubar um pedaço de
pão

e o amor é uma palavra usada
demasiadas vezes e
demasiado
cedo.

Charles Bukowski
(tradução de Vasco Gato)

segunda-feira, abril 14, 2014

Quando somos novos - quando eu era novo - queremos que as nossas emoções sejam como as que conhecemos de ler nos livros. Queremos que nos virem a vida do avesso, que criem e definam uma nova realidade. Mais tarde, penso eu, queremos que façam uma coisa mais suave, uma coisa mais prática: queremos que amparem a nossa vida como ela é e como passou a ser. Queremos que nos digam que as coisas estão bem. E há nisso algum mal?


Julian Barnes, O Sentido do Fim

quinta-feira, abril 03, 2014

estou a pensar aparecer à tua porta
não invadir a tua privacidade
apenas a tua boca.

e vir-me embora.

quarta-feira, abril 02, 2014



terça-feira, abril 01, 2014

aquela música, como era?
we want the world and we want it now?
sim, ficou aquele pedaço solto colado na parede do meu fundo
cinzento
que se esquece de apagar o lume e do aniversário
da mãe
aquela voz
permanente e longe

escondida afinal, para me vir
assistir sempre em cena neste palco repisado
(raios que luzem ao longe e estrondam ao perto)
está a frase pendurada no cabide do armário poeirento e ávido
que me lembra com o toque de alarme, que queria o mundo agora e tu
silêncio.


segunda-feira, março 31, 2014


quarta-feira, março 26, 2014

quinta-feira, março 20, 2014



while I am the light seeking South
you, the shadow vaguely wondering about the North
so…? I don’t understand why
when your skin smashes mine
it’s Capricorn blending Cancer
and the Tropics dancing together.

terça-feira, março 18, 2014


Eu quero um vazio que já existe
Nas entrelinhas de nos pensar
Quero apenas a voz
A tua no meu ouvido tu
E as tuas mãos incisivas na minha anca
Aquela febre do amanhecer não dormido.

Eu quero que preenchas o meu rosto de suor e saliva
Todos os fluidos do corpo que são sós
Entre nós
Os teus dentes na minha pele e o teu exalar
Quero-te sôfrego na minha nudez plácida.

Serias pleno e poeta e azul
Como a cereja do nome
Paradoxal
Como o que não sei se temos se somos
Uma fome
Um enleio de luxúria imensa e animal.

E ainda,  ainda
A tua poesia. Eu quero.

quinta-feira, março 13, 2014


So...?

segunda-feira, março 03, 2014

oferece-me a brisa do mar no sopro dos teus lábios

e a paz que não me podes dar.

ofereço-te um ramo de beijos de luz do amanhecer

no insondável devir das coisas que são, nós

não sós

brincamos, olhando para o lado

um jogo de ateio ligeiro e frutado.

sábado, março 01, 2014

fim de semana de Carnaval. convites para brincar com os amigos, a recusa.
o sofá tem sido o meu ninho. aninhar a alma.
suddenly...bored.
talvez me entre o Carnaval em casa, mascarar-me para mim, brincar no espelho. and there's always a bottle of rum, or something...


insónias..mas com filmes, belos. e este, é-o.


quarta-feira, fevereiro 26, 2014

a man's movie. but I like it..



terça-feira, fevereiro 18, 2014

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria Primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

thursday


não fiques triste.
não descuidei teu toque quente.
estou apenas numa unidade de cuidados continuados
de média duração.
sem data prevista de saída,
esboçou o médico, auscultando-me, hesitante
o coração.

domingo, fevereiro 16, 2014



sábado, fevereiro 15, 2014



sexta-feira, fevereiro 14, 2014

mourning the loss
the morning brought

no one's land
now to cross

a heart needs time
to heal
'though for long he's by
his own

still

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

o dia seguinte

silêncios
incontornáveis
no seguinte dia revirou
a frágil paz
e vazio
agora ficou
o meu quarto, a sala, o tapete

para ter a madrugada cristã
o dia pagou
seu preço
e o tempo é de clausura
para que a despedida se faça sentida, daquele que não ficou
que a Primavera suceda a tempestade.

e um dia, a madrugada
carnal tentação
pecado, ou não
quiçá.

domingo, fevereiro 09, 2014

quinta-feira, fevereiro 06, 2014


madruguei,
erma
na branca insónia 
da noite que a nós brindou
brincando-nos afã

em taças burbulhantes serviu de chuva fria
um ocaso aparecido de Divina aparição

na pedra, na cal, no coração. o meio.

quero não dormir de novo,
quero o crepitar.
permanece, não brando. se ateio 
não sei
não sei, se atear.


terça-feira, fevereiro 04, 2014

[wuthering heights (under) a sheltering sky]


felt

serpentines 

daylily in my mouth
roses, blouses 
swirling sin

and those, your starfishes
fingertipped my bones

felt

(foresee ourselves alone?)

metal petals
sweet raining stones

press your finger on my lips, my skin
my lips will search
yours

must ask the gods to turn those lights out

silence
rain
white carnation
they painted us the night in moaning mills
and we shall never be forgiven
unless we foresee ourselves
in bravery

we will?

segunda-feira, fevereiro 03, 2014


quinta-feira, dezembro 05, 2013

uma discoteca de pensamentos
cujo som atravessa a parede dos vizinhos da frente
na rua paralela da razão
de ser
entre todos e iguais
brilha no escuro pela bola de espelhos mais
quem dança as letras originais
e bebe por copos
de sentimentos a bombar
até sair até verter um pé
na rua que aguarda uma manhã
e nos devolve a luz crua do mesmo olhar.
 

"you know I dreamed about you
 for twenty nine years
 before I saw you"

o refrão desta canção, confirma aquilo que eu penso sobre alguns homens: que são muito mais românticos que muitas mulheres. [isto para não cair na tentação de padronizar o que não é quantificável]

the national

segunda-feira, outubro 21, 2013

ensaio II



Era uma tarde de fim de Verão, ou de início de Outono, com o céu a entrar num raro tom alanrajado, irrepetível em qualquer outro momento dos dias, uma cor que a deixava com um fervilhar suave do estômago ao cérebro, e olhando para cima, sentia-se a planar com os pés na terra, como se pairasse numa secreta dimensão das coisas que são.

Ia ao encontro dele com passo apressado, como aliás, apressado o era em quase todas as coisas que a faziam mover-se. Era assim que caminhava, raramente se lhe viam passos lentos e sentidos, apenas uma espécie de esvoaçar, de pés pequenos e saltitantes, determinados. Sabia que as crianças estavam à sua espera ele dissera-lhes que iriam ter uma visita, alguém que queria conversar com eles um bocadinho. Estava expectante com a reação, sabia que não era fácil criar empatia e deixá-los atentos, por-se-ia à prova, mais uma vez.

A porta estava aberta e subiu as escadas até ao piso onde ele se encontrava a desenhar com as crianças, ou, onde as crianças se distraíam com os seus desenhos enquanto as observava e sorria, pressentia-lhe um sorriso na face morena, moura, ainda que ele se encontrasse de costas para ela. Aproximou-se silenciosa, e quando quase a sentir o cheiro do pescoço, tão perto do pescoço dele, beijou-o. Pressentia que não ficava retraído com estas aproximações dela, acanhadas mas provocadoras, subtis e ao mesmo tempo plenas de intenção, de desejo, se o sorriso dele era imperturbável.

– Olá, disse-lhe ele, um beijo discreto na face. Levou-a para perto da sua mesa de trabalho, caótica, cómica, feliz.
– Anda, quero apresentar-te aos miúdos, estão curiosos e já perguntaram quem eras, disse piscando-lhe o olho, enquanto ela esboçava um sorriso fraco. Os miúdos não deram logo pela entrada dela, mas estavam agora atentos aos dois.
– Meninos, esta é a Violeta, de quem vos falei. Olhos fixos nela. 
- Vamos então fazer uma pausa nos desenhos, a Violeta vai explicar porque veio falar com vocês e é para irem respondendo, depois voltamos aos desenhos.

Avançou tentando fazer contacto com o olhar, lera algures sobre isso e da importância de transmitir um ar seguro às crianças, tentou falar pausadamente e foi respondendo às primeiras perguntas de alguns, os mais ariscos, depressa entendeu que a coisa estava a decorrer com demasiada formalidade, aquilo assim não iria resultar muito bem. Acabou sentada no chão, onde algumas das crianças se encontravam, conversaram sobre os desenhos espalhados pela enorme sala, enquanto ele, dissimulado, a contemplava por de trás do estirador velho, remexendo em papéis e desenhos por ali espalhados. Ele não era metódico na organização dos materiais, gostava de ter as coisas limpas, apenas.

Ela foi fazendo as perguntas e as respostas dos miúdos eram apontadas num caderno. Abreviava as palavras para acompanhar o ritmo das crianças, observava os seus movimentos, lia os gestos e ia cogitando, pouco estava ainda claro, era a experiência in loco, um pré-teste de capacidade. Da sua capacidade. A dado momento, o seu olhar periférico nota que ele está no fundo da sala, sentado, a observá-la com os miúdos e a desenhar simuladamente. Sente-se estranha, não quer que ele se aperceba que já o viu, tenta fingir que não se sente observada, desvia o rosto na direção oposta, continua a sorrir  e a tentar mostrar naturalidade. É sempre assim quando se sente observada por um homem que a interessa, por quem sente desejo, a quem quer agradar. Porque é disso que se trata, seduzi-lo, encantar aquele por quem se interessou.


Nessa noite, depois de ele a deixar em casa, instalou-se no sofá para ler os apontamentos, a preguiça impediu-a de se sentar na secretária que tinha no escritório, e aí adormeceu ao fim de poucas horas, com as luzes acesas, vestida, de cabeça pendurada sobre o peito, em posição desconfortável mas não ao ponto de a impedir de adormecer com profundidade, ou pelo menos assim lhe parecia quando abria os olhos repentinamente depois de um qualquer som alto vindo da televisão a acordar. Este cenário repetia-se por incontáveis noites, sobretudo as de Inverno, também porque gostava de se deixar ficar no sofá, como se o despir-se e enfiar-se na cama indicasse que o dia seguinte estava mais próximo e ela, que gostava das noites, de as aproveitar ao máximo, mesmo sabendo que assim repartia o seu sono em duas partes distintas, a profunda e desconfortável no sofá torto, a última na cama, agitada, seguia sempre a tentação da preguiça.


Ela está sentada num espaço desconhecido onde ele se encontra também, aproxima-se dela lentamente, sério, fixando os olhos nela, no seu corpo, coloca-lhe a mão no peito, espalmada firme contra o tórax, ou mais abaixo, ela não sabe, ou não quer saber se é contra os seios, baixa o olhar e nota que a sua camisa tem um desenho ininteligível estampado ali, onde ele pousa a mão, talvez seja por isso, ele tira a mão quando ela se levanta timidamente dirigindo-se para junto de algumas crianças que brincam no chão, entretidas com os seus jogos, como se eles ali não estivessem por perto, e começa a falar com elas por meio de larachas, a tentar agradar-lhes, a tentar prender as suas atenções, quando se vira na direção dele e o vê a desenhá-la, a desenhá-los?, não sabe, apenas percebe que tem de continuar a brincar com os miúdos como se ele ali não estivesse, concentrado no desenho, olhando na sua direção mas como se ela fosse apenas uma paisagem que ele pinta concentradamente. E acorda.

São quase 2:30h da manhã, levanta-se a custo do sofá quente e dirige-se à cozinha onde bebe um copo de água, saboreia-o como se fosse chá, e quando passa pela casa de banho olha-se no espelho, mexe no cabelo, tenta perceber se ainda é bonita, está estremunhada, confusa com o sonho e ruma ao quarto despindo-se com uma ligeireza súbita para aquela hora da madrugada. Enfia-se entre os lençóis, almejando retomar o mesmo sonho, reproduzir a sensação de um quase desconhecido que a desenha, e que ele a ache cativante quando tudo o resto emergir, além da superfície da folha do papel amarelado.


quarta-feira, agosto 07, 2013

 
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.
 
Natália Correia
 
 
 

domingo, novembro 11, 2012

nas horas das cigarras
as dores viram-se
nas costas
latentes, inertes
ao despertar de um velho dia

o som dos sons que a horas deita
dormem santas na alegoria
das janelas
dess'alma espreita
qual a cor que lhes poria?

ouço pássaros a debitar
os decibéis de um sol que luz
lhes deita
ouço
um piano perto no sofá
que traz
a tua boca doce e só
de um trago cai e alumia.

11.11.2012

segunda-feira, novembro 05, 2012

Esperançoso poema.



Em cada fruto a morte amadurece

deixando inteira, por legado,

uma semente virgem que estremece

logo que o vento a tenha desnudado.


in As Mãos e os Frutos (XXXV)
Eugénio de Andrade

domingo, novembro 04, 2012

somewhere i have never traveled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands

e.e.cummings

quarta-feira, agosto 22, 2012

Miranda July: The Future on Nowness.com.

quinta-feira, junho 14, 2012

...para não ser olvido

NUVEM

Não haverá uma só coisa que não seja
uma nuvem. São-no as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisará. É-o a Odisseia,
que muda como o mar. Há algo de distinto
de cada vez que a abrimos. O reflexo
da tua cara já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa converte-se noutra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que por ti foi perdido.

- Jorge Luis Borges
in Os Conjurados

quarta-feira, abril 11, 2012

pecável, deixo-te este:

PESSOAL INTRANSFERÍVEL

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimónias, «herdeiro» da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

- Torquato Neto
in Antologia da Novíssima Poesia Brasileira, Livros Horizonte

domingo, março 04, 2012

Duelo - I


evocação cruel nos neurónios nasce
incontrolada, das entranhas
o toque de um pulso ilusoriamente firme
imagem esbatida de um beijo longo e lento

apaga o irreal para irromper um ritmo maior
e do ensaio desponte uma cadência certa e forte

encanta o coração de quem se aproxime
genuíno, impetuoso e toque
o acorde sedutor desse momento sempar
e não esqueça, os dias prosaicos os teus
ou as esquinas onde se cruzam as hipóteses

terça-feira, fevereiro 28, 2012

em jeito de desculpa lá, mas a inspiração anda escondida, cá vai: está escrito. mas não está pronto.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012





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trouxe através da medusa....e gosto tanto


"A poesia é feita e desfeita da volúvel matéria das palavras, dos seus murmúrios, dos seus sentidos, dos seus tantas vezes misteriosos propósitos. E das raízes das palavras no mundo onde desgarradamente se prende a solidão no mundo, do formidável poder das palavras não apenas de nomear mas de fazer o mundo.
Hoje sou menos ambicioso, já não escrevo poesia para mudar o mundo mas tão-só para evitar que o mundo me mude a mim. No entanto, como pode alguém proteger-se do mundo ( nem de uma constipação, quanto mais do mundo! ) atrás de uns livros de versos?"
Manuel António Pina

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

DUELO - questão

Pecável: Podemos adiar o prazo de início? Ontem não estava inspirada:)


quinta-feira, janeiro 26, 2012

XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…

in O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

quinta-feira, dezembro 29, 2011

 
“It's possible, in a poem or a short story, to write about commonplace things and objects using commonplace but precise language, and to endow those things-- a chair, a window curtain, a fork, a stone, a woman's earring-- with immense, even startling power. It is possible to write a line of seemingly innocuous dialogue and have it send a chill along the reader's spine-- the source of artistic delight, as Nabokov would have it. That's the kind of writing that most interests me.”
― Raymond Carver
 

segunda-feira, dezembro 26, 2011


era Natal, era Natal, lá, lá, lá, lá, lá....


segunda-feira, dezembro 12, 2011

terça-feira, novembro 15, 2011

ficou o sabor de outra boca desconhecida
na almofada velha o cheiro do teu cabelo escuro 
solto
no ar o silêncio incolor da tua face adormecida
nua
a minha voz 
na tua nuca e saíste
como entraste só
à curta noite longos dias de desapego
no colchão a marca apagada à pressa como te apago da memória
se me empurra a razão a ser assim sem voz
e fingir que tudo é normal em mim assim como se assim voltasse tudo atrás
de mim, 
no turbilhão da noite quieta e branca cal
da parede branca e lenta entre eles e eu
sempre

(se o amor me espreita do lado para onde o meu olhar não se fixa, diz-me, agarra-me e leva-me à força para junto de ti, arrasta-me deste não-lugar de mim, pega-me na mão é contigo que eu devo ir)


segunda-feira, outubro 31, 2011






here I go again...




terça-feira, outubro 25, 2011

aventura no Dades...


domingo, outubro 02, 2011

work, work, work.
as férias grandes quase, quase, quase. 
e mucho calor.

quarta-feira, setembro 07, 2011