Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

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Lua Cheia

Em noite de lua cheia,

quando as ondas do mar são mansas
e nelas me enrolo,
sonho com sereias estranhas,
muito belas e sensuais.
Em noite de lua cheia
as árvores, servilmente curvadas,
abraçam-me, e insolentes, sussuram-me palavras obscenas.
Em noite de lua cheia,
os homens correm aflitos,
em busca de agripinas insaciáveis.
Na minha noite de lua cheia,
adormeço tranquilo,
nos braços de ninguém.


Luís Ramalho, Set/2009
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Segunda-feira, Novembro 16, 2009

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BEIRA-MAR-MEIO-DIA
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na duração do dia o corpo desfaz-se à entrada do mar

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in "Quando escreve descalça-se", Miguel-Manso, Trama Livraria, Março 2009

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

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hunger


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alchemy.

Terça-feira, Novembro 10, 2009

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ESTÚDIO de Nuno Ramalho & Renato Ferrão

INAUGURAÇÃO 10 de Novembro '09 às 18h30

VISITA GUIADA 11 de Dezembro '09 às 18h30
com Nuno Ramalho, Renato Ferrão e Bruno Marchand (autor do texto do catálogo)

Exposição patente até 22 de Janeiro '10 de Quarta a Sábado das 15h00 às 20h00


Edifício Soeiro Pereira Gomes (antigo Edifício da Bolsa Nova de Lisboa)

Rua Soeiro Pereira Gomes, Lte 1- 6.º A / C / D
Bairro do Rego / Bairro Santos
1600-196 Lisboa - Portugal
T - 217803003 / 04 F – 217958189 E –
geral@fundacaocarmona.org.pt
Metro: Jardim Zoológico, Praça de Espanha, Cidade Universitária
www.fundacaocarmonaecosta.pt

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

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daniel auster
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Quarta-feira, Novembro 04, 2009

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Paris, 03 Nov (Lusa) - O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, considerado um dos intelectuais mais relevantes do século XX, destacado antropólogo e "pai" da corrente estruturalista das ciências sociais, morreu sábado aos 100 anos, informou hoje a editora Plon.

Lévi-Strauss influenciou de forma decisiva a filosofia, a sociologia, a história e a teoria da literatura.
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Domingo, Novembro 01, 2009

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chegou a hora do lobo...:(
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Quarta-feira, Outubro 28, 2009


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belo
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(and for the ladies...take a look on the other side)

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estará de volta? http://ohomemqueanda.blogspot.com/


eu gostava, e muitos gostavam, mas o gajo é esquisito...

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Terça-feira, Outubro 20, 2009

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she's back..


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Segunda-feira, Outubro 19, 2009

este post, foi copiado do blogue http://fontedeletras.blogspot.com/ e achei que devia colá-lo aqui no meu, cá fica:


"sábado, 17 de outubro de 2009

Os editores que matam as livrarias tal como Caim matou Abel.
Dia 19 de Outubro é o dia em que o novo livro de José Saramago, Caim (Editorial Caminho - Grupo Leya), é posto à venda nas livrarias - assim foi comunicado aos livreiros e assim é divulgado no blog da revista Ler http://ler.blogs.sapo.pt/517769.html. No entanto, parece que não há nenhuma livraria no Alentejo que já tenha recebido o livro para ser posto à venda na 2ª feira. Mas, a Fonte de Letras presta aqui um serviço extra aos seus clientes, dizendo que hoje, dia 17, o livro já está à venda no Pingo Doce de Montemor, e provavelmente em muitos outros supermercados. Às vezes os desígnios dos criadores são difíceis de entender! "
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revisito o EP acima, porque gosto de revisitar, reviver, lembrar, escutar over and over again..e quanto mais o re-escuto, mais gosto dele. uma espécie de vontade de contrariar as novidades que todos os dias aparecem por aí. canções lindas. continua a ser a banda que melhor me enche as medidas. as letras, a voz, a melancolia, a música, são eles a tocarem bem. About Today, do mais tristinho, mas tão bela que até dói. e o mais estranho é que...não.
em breve irei "abrir outro ficheiro na net", com outro nome, outra cara, e mais escritas. em breve enviarei um mail aos amigos. se bem que...os meus em breves são por vezes lentos. in the mean time....
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Domingo, Agosto 30, 2009

anseio ter essa certeza.tenho a certeza que é muito mais do que o coração alcança, a mente prescruta, as minhas mãos procuram no escuro.anseio ter essa certeza.

......

acabei de saber que alguém que conheci dos tempos da universidade, esses tempos da universidade...morreu. baque. bum. o quê..?!....a minha idade, mais coisa menos coisa...e por ser quem foi, a grande paixão da minha doce Sónia....imagens, imagens em flash, telefonei para longe contei a uma amiga, o que dizer senão em exclamação, parece que foi há tão pouco tempo que o encontrei, estava bem. Estar bem é condição para deixar de se estar bem e morrer de cancro quando menos se espera. Amanhã vou escrever-te.

......

fruta passajada em especiarias aquecidas com sumo de laranja e mel. para adoçar a alma em noite morna de dia quente
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Domingo, Julho 26, 2009

Domingo, Julho 12, 2009

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Sr. Zé
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“Menina Sílvia, menina Sílvia…” chama o homem de negro sentado na mesa do café arrastando o Síííl, devagarinho e docemente, para a mulher atrás do balcão, ela escuta-o e desvia o olhar na sua direcção. “Está boa menina Sílvia, como está?” e o tom dele quase de súplica, olhar que clama por dois segundos de atenção, menina Sílvia, como os miúdos meigos quando anseiam que reparem neles. “Olá Sr. Zé” respondeu ela num sorriso, secando as mãos com um pano húmido, igual ao seu cabelo, suado e sem forma, levantando a cabeça para conseguir vê-lo melhor por detrás do balcão, “ Como é que está Sr Zé, está bom?” pergunta-lhe com simpatia e atenção feminina.

O Sr. Zé terá os seus setenta ou mais anos, está sozinho no café comendo um bolo e deve ser cliente habitual, a julgar pela forma como ele e a empregada se cumprimentam, o trato familiar e amigo dela, o jeito contumaz de a chamar, dele. Lembrei-me de algumas situações, não muitas é certo, que me aconteceram nos lares que visito, quando um idoso se aproxima de mim com desejo que nele repare, que lhe dê atenção, falando atabalhoadamente com receio que eu desapareça depressa, sorrindo-me muito com um olhar que me transporta para a imagem de alguém que assimilou muito pouco o uso da contemplação, um olhar muito pequenino e venturoso, risonho, de quem não levou a vida demasiado a sério ou cogitado muito sobre ela sequer, um olhar de quem está cá para o que der e vier, e ali está comigo e mal sabe quem sou, mas sorri porque sou visita, porque sabe que fui vê-los e onde vivem e eu num instante célere a olhar de volta para ele, olho no olho, sorrindo também e divisando como bom seria acabar assim os meus dias, de olhar miudinho e feliz em vida solta, subtraída de reflexões excessivas e pressupostos redundantes, de sonhos que voaram alto e se perderam na eternidade.

O Sr. Zé faz-me lembrar os velhotes que se sentam o dia todo na sua cadeira — possivelmente cada um tem a sua cadeira e não há muita coisa que possa ser apenas sua lá dentro — contemplando os repetitivos gestos do quotidiano das auxiliares que lhes dão de comer, os lavam, os deitam ao lado uns dos outros nos entardeceres transformados em noites. Ali, encostados na parede branca junto da grande e sonora televisão que eles nunca miram, querem lá eles saber da televisão, o olhar perde-se longe no vazio, na sombra da memória, na linha do chão, na espera. Em alguns é imensa a vacuidade, transborda indisfarçada no seu olhar triste, deixa-me inquieta, comovo-me e tento não pensar, preciso afastar dali a mente e a minha comoção, tento representar o meu papel, sou simpática, não sei que lhes dizer mais para além das frases feitas do costume, fico embaraçada enquanto sorrio e tento disfarçar o que sinto, porque me sinto falsa e eles querem lá saber das minhas perguntas “Gosta da comida, Sr. Manuel?” ou “Foi bom o almoço D. Joana?”, que eu sei que eles vivem para comer, é uma hora importante do dia a hora das refeições, é o seu ponto alto de manhãs e tardes quase sempre iguais, quase sempre na mesma cadeira em frente ou ao lado da grande televisão ignorada, quem dera gente na vez da televisão, as vozes estrepitosas dos filhos ou dos netos…visitas são bem poucas as dos meus amigos conformados e tristes, alguns, que outros há alegres, e de namoro novo, adoro esta parte da coisa, quando me contam que a D. Joaquina e o Sr. Francisco começaram a namoriscar lá no Lar e dão-se muito bem, passaram a viuvez de outro modo, que a maioria deixa de viver quando o companheiro morre porque parece-lhes mal que se divirtam as viúvas, são de antiga muito antiga geração, uma omnipresente e pesada lei costumeira impede-os de deixarem o preto do luto para voltarem a ir nas excursões, a colaborar nos preparativos das festas, a dançar no bailarico dos santos.

O Sr. Zé, no café, já choramingou enquanto eu escrevo, quando uma senhora dele se aproximou e ali ficou um pouco a conversar acerca da recente morte da sua esposa e sobre as suas noites passadas sozinho, mas deixe lá Sr. Zé não pense nisso, e fique em sua casa fique em sua casa enquanto puder, não deixe a casa Sr. Zé, está lá melhor ainda que sozinho, não lhe parece? Não pense muito nisso. Que o melhor é não pensar muito nisso, Sr. Zé.


Sábado, Julho 11, 2009

A Barca

Quinta-feira, Abril 09, 2009

I'm your man



A sala estava muito pouco povoada, espectadores novos lado a lado com espectadores menos novos, como me confirmou ter sido assim no concerto de 2008, uma colega a quem enviei o mail: hoje passa um documentário de Leonard Cohen no cineclube vou ao fim da tarde/ vais?/ sim, vou/ encontramo-nos lá então/obrigada por me avisares.

Recebo um beijo forte e demorado na bochecha, depois da sessão, estava grata por lhe ter enviado o mail. Deixou o filho com o marido e pisgou-se para ver “I’m Your Man”, onde cantarolou entusiasmada algumas das canções que encheram o ecrã, sentada na sala renovada, e asséptica do auditório.

Comovi-me quando Antony interpretou uma das eternas canções de Cohen, e com deleite acompanhei o olhar e singularidades do cantor, poeta, monge, filmado sobriamente, depois também me inebriei no fim, com Hallellujah, que me trás sempre à memória Jeff Buckley, a sua morte prematura e estúpida, a saudade do que é belo. As canções de Cohen são de facto belas, de fundo negro, mas iluminadas para nós. E vim para casa com vontade de comprar a discografia toda do homem, de ouvir Antony, mas, acabei por deixar “ a passar” Tudo Bons Rapazes, na rádio.

Sorri do tom desprendido e esgar irónico, quando Cohen desvaloriza a fama de ser “a lady’s man” por não encontrar eco nas dez mil noites passadas sozinho.

Ficou uma imagem de humildade do cantor, e um olhar de sábio sem pressas de viver. Mas aquilo que verdadeiramente me continua a emocionar, é escutá-lo, aquela voz que não é humana de tão intensa e funda, não me desencanta que não “saiba” cantar, delicia-me ouvir aquele tom arrastado, triste, contínuo, as palavras e a poesia, a escrita feita canção, e a voz, por deuses, a voz…

É isto que fica, não é?/ sabes?, só me lembrava da sala da minha amiga onde ouvíamos os vinis (do Cohen) do pai dela, dos encontros e conversas filosóficas, dos problemas de adolescente [sorrisos]/ os nossos olhares cruzam-se, transluzem e felizes estamos na despedida . Sim, é.

Sábado, Março 07, 2009

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"welcome to mali"


Amadou & Mariam, último álbum, algumas músicas produzidas e co-escritas por Damon Albarn que também toca alguns instrumentos. Precious..

Segunda-feira, Março 02, 2009

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JAPÃO

QUERO CEREJAS DE NEVE EM MINHAS
MÃOS PARA SENTIR
AS TUAS FOLHAS DE AMARELO
A TRANSBORDAR
QUERO UMA ÁRVORE
DE OUTONO MEL PARA SORRIR
QUANDO TU PASSAS
NO ECRÃ MAIS DEVAGAR
QUERO O TEU CHEIRO A TUA COR ALI
EM NOBRE TELA DE SILÊNCIO NU
COM TEU FINDAR


19/01/2009

da Suécia com amor

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

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Good Fellas




Onde estão os nossos princípios? Onde reside a nossa virtude? O que é essencial para um homem ser mais que um homem, quando se torna absolutamente necessário?

Stauffenberg foi um oficial nazi descontente com o rumo que o seu país tomara nas mãos de Hitler, tornando-se adverso à ideologia dominante, comprometido por uma guerra que desejava não ver continuar e preocupado em limpar a imagem da sua pátria corrompida por valores que não eram mais os seus, amorais, imorais, embaraçosos. Teve a coragem de assumir uma posição contrária, juntamente com outros que com ele urdiram um plano para pôr termo à vida do Führer.

Escolher por boicotar e derrubar um regime como o nazi, foi concerteza uma opção difícil, complexa, corajosa. Um regime visceralmente hierarquizado e controlado, de homens submissos e desconfiados, silenciosos
, alguns genuinamente leais, outros habilmente persuadidos, outros ainda, inquietantemente fingidores. Encontrou determinação para, colocando a sua vida em risco, intentar contra a vida de Hitler e seus camaradas, e assim repor a dignidade de uma pátria enxovalhada aos olhos do mundo aliado.

Isto responde à questão inicial, se pensarmos que os princípios deste oficial, permaneceram quando deles necessitou para ser um homem, e não um rato.

Os valores de uma pátria conservadora mas guiada por elevados padrões de moral, de ética, sobretudo, terão condicionado a sua opção. Ser leal a estes princípios foi uma certeza num determinado momento da sua vida, da vida dos seus colegas de conluio, culminando na derradeira tentativa de matar Hitler, tomar o poder, aniquilar as SS, repor uma nova/velha ordem social e moral. Mostrar aos Aliados que nem toda a Alemanha pensava e agia do mesmo modo, foi acto de grande coragem, sem no entanto podermos afastar a hipótese de, na iminência de Normandia e estando cientes dela, também esse acto conter em si mesmo, o temor de represálias e sobretudo, da vergonha.

Aqueles aristocratas e oficiais, políticos e funcionários, foram concerteza mais homens que muitos homens que ainda hoje vamos vendo por aí…a fazer de homens, pois desconhecem a sua verdadeira identidade: sendo ratos.

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

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Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

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..amo-te banda sonora
#2


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Na berma

Apaixonou-se quando o sangue se esvaía do seu corpo, amparada nos braços dele.
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Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

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fins de semana de 3 dias era para sempre

the dodos no music box ****
madagascar sem dobragem II ***1/2
h&m ***
chiado a qualquer hora ****
magusto caseiro com tripeiros *****
sofazar ****

Domingo, Novembro 30, 2008

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..amo-te banda sonora
#1
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Sexta-feira, Novembro 28, 2008

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o ocidental mundo entediado
com mil imagens vai brincando inebriado

no ocidental mundo desinteressado
mais um brinquedo novo é inventado

do ocidental mundo equivocado
tiram-se imagens de mil ângulos "estudados"

onde encontras as legendas que se perderam
deste ocidental mundo fotografado?

há um ocidental mundo transformado
só em palavras livros mãos razão amor.

há um negativo eternamente revelado
do ocidental mundo
não-sonhado
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Quarta-feira, Novembro 19, 2008

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“Entre les murs” é um daqueles filmes com um ritmo cativante, fixei o olhar na tela, presa aos diálogos incessantes entre o professor de francês e os putos na sala de aula, as reacções deles, a agressividade doce, a esperteza, a luta do gato e do rato, a distracção final do professor.

A determinada altura, senti-me cansada, foi quando me coloquei do lado do professor, a sua constante tentativa de impor disciplina e chamar a atenção sobre as matérias, as respostas provocatórias recebidas, o barulho e movimentos ininterruptos naquelas cadeiras…

Houve momentos em que me senti do lado deles (as), sentada na cadeira a olhar o professor enquanto punha os pés na cadeira do colega da frente, a mão na cara, tombada para o lado, a reparar nos olhos bonitos dele e a rir-me da piadola vinda do colega corajoso lá de trás…

A graça do filme vi-a na forma como somos transportados lá para dentro, dentro deles todos. E como é tão mais fácil entender quando entramos pelos outros adentro. Isto, se quisermos entender.

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Terça-feira, Novembro 18, 2008

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entre les murs


no dia da estreia, aqui em Évora, estavamos 8 pessoas.
escrevi um texto, ficou guardado e esquecido, depois deixo-o aqui. hoje fica a imagem.
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beach house

surpresa..tinha apenas escutado, e sem muita atenção, por duas vezes um álbum de beach house. vi-os ao vivo no passado dia 16, gostei muito do concerto, das músicas, e fiquei curiosa, o Natal está a chegar, pode ser que...

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Domingo, Novembro 02, 2008

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the mae shi . run to your grave


Terça-feira, Outubro 28, 2008

vem o frio que trás a clausura
voltas ao passado
quando o corpo te empurra

o retorno ao ecrã
em branda cadência
de escritas leves e leitura vã

sabes que não volta
o tempo que te leva
não vai voltar

há estranhos sonhos
a tocar ao de leve
no real

e suavemente sob os pássaros, sob o sol vermelho
o corpo tomba em morte idílica
suavemente sobre o mar
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Quarta-feira, Agosto 20, 2008

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summer play list
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Segunda-feira, Junho 16, 2008

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reencontros
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“Na Primavera, regressámos a Fez e ficámos no Belvedere. Eu estava a terminar The Sheltering Sky e a Jane estava imersa na sua novela Camp Cataract. Ao raiar do dia, tomávamos o pequeno-almoço na cama no seu quarto. Depois, eu ia para o meu quarto, deixando a porta aberta para que pudéssemos comunicar, se assim o quiséssemos. Numa dada altura, ela estava em dificuldades com uma ponte que tentava construir sobre um desfiladeiro. “Bupple! O que é um cantilever, ao certo?” ou “Pode-se dizer que as pontes têm contrafortes?” Imerso na escrita dos meus capítulos finais, respondia-lhe o que me ocorresse, sem sair do meu estado voluntário de obsessão. Ela ficava calada durante um bocado, e depois voltava a chamar-me. A torrente do rio, mesmo por baixo das nossas janelas, deixava apenas ouvir os sons mais penetrantes; as comunicações tinham de ser bastante importantes, para que valesse a pena gritar. Após três ou quatro manhãs, apercebi-me de que algo estava errado; ela ainda estava na ponte. Levantei-me e entrei no seu quarto. Falámos sobre o problema durante um bocado, e confessei-me intrigado. “Porque é que tens de construir o diacho da coisa?”, perguntei-lhe. “Porque não dizes apenas que estava ali, e pronto?” Ela abanou a cabeça. “Se não souber como foi construída, não consigo vê-la.”Achei isto incrível. Nunca me ocorrera que tais considerações pudessem estar implicadas no acto de escrever. Talvez pela primeira vez vislumbrasse o que a Jane queria dizer quando afirmava, como muitas vezes o fazia, que escrever era “tão difícil”.”
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Memórias de Um Nómada
Paul Bowles
Colecção: Testemunhos
Assírio & Alvim - 2007
Tradução: José Gabriel Flores
Formato: Edição Brochada ISBN: 978-972-37-1202-5 Preço de Capa: 22€ Preço assirio.com: 19.8€

Segunda-feira, Maio 12, 2008

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the national na aula magna



Após longa pausa de escrita no meu blogue, ficar sossegada depois de assistir ontem, ao concerto dos National, seria tolice.
Acometida pela síndrome pré-concerto de banda favorita (uma mistura de adolescente irrequieta com trintona contida), lá fui eu de mansinho para os ver e ouvir, e que bem que aquilo me soube.
Os tipos são bons - e simpáticos e simples -, as letras poemas urbanos, o Matt é belo e tímido, as guitarras do melhor e aquela bateria é um mimo espásmico. Pena o som nas primeiras músicas, mas depois melhorou.





O 'momento alto' surge quando o vocalista se lança pelas doutorais acima - e adentro - e deixa os fãs-do-bilhetinho-dos-35-euros deliciados. Também eu fiquei, embora cá atrás: teve bastante piada observar até que ponto o senhor se aguentava sem se espalhar, depois da garrafita de branco emborcada. Eu no fundo estava era preocupada: "e se cais, pá?". A imagem deu-me o riso que me devolveu a bela fusão entre nós e eles.

O meu momento alto foram duas*, não sendo as mais 'badaladas' da banda, deixaram-me encantada. Ok, o Mr November, o Fake Empire e outras souberam mais que bem, mas estas duas levaram-me a fixar os olhos neles e entrei por ali adentro, pelo palco fora. Corri-os a todos, caramba, grande baterista (e não, não é nestas duas que se percebe bem o que quero dizer)! Os gémeos são bons, bem bons nas guitarradas e o Matt andou por ali meio deslocado, aposto que o lugar favorito do homem é o sofá. De caderno e garrafa munido.... used to be carried in the arms of cheer leaders.

A ironia assenta-lhe bem.
E a poesia também.
*green gloves; about today



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autógrafos antes do concerto...a Regi esteve pertinho:)

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Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

welcome walkman

http://andahomem.blogspot.com/

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

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http://www.myspace.com/holyfuck
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Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

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Há uma estrada que leva a nenhum lugar
Onde se encontra o que ninguém procura
Feita de névoa onde deambulam corações
Buscando brilho onde a noite é a mais escura.

Há uma roleta onde se trocam emoções
Outrora mesa de um jogo sem risco
Calha na sorte um medo sem norte
Uma palavra, uma frase. Tontura.

Se branco ou negro o devir que é lançado
Se mais Força que fraquezas, mistério vão
Quando se solta na mesa o mágico dado
Dão-te milagres que ofuscam a Razão.


. 28.12.2007

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

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..música para os meus olhos
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Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

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Passover
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This is the crises I knew had to come
Destroying the balance I'd kept
Doubting and settling and turning around
Wondering what will come next

Is this the role that you wanted to live
I was foolish to ask for so much
Without the protection and infancy's guard
It all falls apart at the first touch

Watching the reel as it comes to a close
Brutally taking its time
People who change for no reason at all
It's happening all of the time

Can I go on with this train of defense
Disturbing and purging my mind
I count up my duties, when all's said and done
I know that I'll lose every time

Moving along in our God given ways
Safety is sat by the fire
Sanctuary from these feverish smiles
Left with a mark on the door

Is this the gift that I wanted to give
Forgive and forget's what they teach
I'll pass through the deserts and wastelands once more
And watch as they drop by the beach

This is a crises I knew had to come
Destroying the balance I'd kept
Turning around to the next set of lies
Wondering what will come next

JD
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Terça-feira, Dezembro 04, 2007

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hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


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Quinta-feira, Novembro 29, 2007

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out - of - control



desespero
Ian Curtis retratado em película com preto e com branco e com brilhante representação - para mim, o melhor do produto final - do actor Sam Riley (hum, hum..).
angústia
Joy Division e arrepiozinho na pele, ou pele de galinha. Não sei porquê. A voz? O tom da voz? (de novo, as vozes..).
escuridão
sim. Porque não? Ela está lá. Não há luzes ao fundo do túnel.
tristeza
de triste ser a noite onde não adormecem os nossos fantasmas.
loucura
sem controlo.
vida
também.

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Sexta-feira, Novembro 16, 2007

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Estava pensativo, de olhar posto na cor da noite, lá fora, onde os carros e as luzes se cruzavam com o som dos pássaros que fugiam para longe dali, escurecia rapidamente.
"- Nem tu sabes...é um bocado barra pesada lá dentro, passas por eles e sentes-te intimidado, o ambiente é pesado, um desconforto crescente, como se a qualquer momento qualquer coisa de incontrolável fosse acontecer, não aconteceu...fiquei pouco à vontade, ali...".
Ele pensou uma imagem clara dos rostos e dos olhares, do ambiente nas ruas, depois a Sul, o deserto, infinito, polvilhado de roulotes, pré-fabricados aqui e ali com pic-ups caras estacionadas cá fora, os grandes cactos estendo-se até ao céu de pôr-do-sol de filme...ficou com dúvidas, no entanto.
"- Vês aquela droga toda a circular, sente-la nos olhos deles pousados em ti, é estranho, é tanta e deprime-te, encostam-se pelas ruas, onde calha, reina uma calma aparente, não trabalham, nota-se bem isso, a maioria, os subsídios vão chegando, alguns têm quintas, claro, muito poucos, mais a sul nas terras inóspitas, os grandes terrenos que lhes 'deram' para ali se instalarem, provavelmente não chove há meses, parece que nada ali irá crescer, é estranho".
A noite acomodou-se e ele de olhar absorto num ponto mais sujo do vidro da janela, um satélite, um planeta, um bocado de estrela, um buraco negro ali pousado, divagou até ao Norte, até ao Sul, imaginou um feroz silêncio de subsídios compensado, gente atenta mas distante, ancorados num tempo que não era já o seu, demasiado sufocados para sonhar um destino. Apodreciam na sombra, sujavam o chão, apenas, já não eram um estorvo.
E até onde uma realidade mais plausível que o real descrito, poderia ser o exagero dela?
Ele não sabia.
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Segunda-feira, Novembro 05, 2007

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o regresso mui aguardado.
.... inequívocamente BOM, será.



[e desta vez estarei lá bem me bastou o que já perdi este ano e bem me bastou ficar triste quando estive à beira de dizer "sim, bora lá, perdemos a cabeça que o dinheiro serve é para isto mesmo" ao apetitoso convite para ir a Barcelona mas disse não e já não vou ver a minha última e explosiva paixão os 'outros' os 'tais' os não menos bons bons? ha ha ha.. The National desta vez o Coliseu vai ser pequeno para o tamanho da minha alegria e nervosinho doce instigado por sonzinho do melhor oh yeah...:)]

Quinta-feira, Outubro 04, 2007

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Cantaremos

"Cantaremos Adriano" é um disco de homenagem a Adriano Correia de Oliveira, e catorze são as vozes que reinterpretam canções suas. “(…) “Manuel Alegre, um dos seus colaboradores mais próximos em poesia e cumplicidade – são da pena de Alegre “As trovas do vento que passa” e todos os poemas de “O canto e as armas”(1969) – destaca no dvd que integrará também “Adriano Aqui e Agora” que “foi ele o primeiro a cantar os versos proibidos. Foi o mais corajoso. O primeiro a pôr-se em causa perante o regime”. O homem que fez frente à ditadura e que se entregou de corpo e alma à revolução depois do 25 de Abril é o Adriano que melhor se conhece. (…) Como aponta Henrique Amaro (o radialista director artístico do projecto), ancorando no poema que Manuel Alegre dedicou ao amigo, onde se lê “ Era a tristeza dentro da alegria / era um fundo de festa na amargura”, em Adriano Correia de Oliveira “tudo é feito em dualidade, nada é fixo”. (…) “O Adriano foi o grande amigo do Zeca Afonso. Criaram um estilo novo, que foi o pontapé de saída de uma nova música portuguesa”, destaca Arnaldo Trindade [fundador do Orfeu, a editora onde Adriano gravou toda a sua obra]. “Foi cantor, compositor e letrista e, além disso, trouxe novos valores à editora” (Francisco Fanhais, José Niza, Sérgio Godinho, Fausto). (…) É este Adriano Correia de Oliveira que urge conhecer. O de que Arnaldo Trindade fala nestes termos: “Jacques Brel e Juliette Gréco são ícones que transformaram a música dos seus países, o Adriano e o José Afonso fizeram o mesmo em Portugal”.
(…) Vinte e cinco anos após a sua morte, em Avintes, nos braços da mãe, vítima de hemorragia esofágica (aos 40 anos), os que não o acompanharam no seu tempo vêem dele pouco mais que sombras esbatidas. “ Adriano Aqui e Agora - O Tributo” pretende que as sombras se desvaneçam para que o retrato real se revele. Para que Henrique Amaro não tenha que perguntar a si mesmo: “Num país tão precário de sonho e ambição, como é que se mantém esquecida a obra de Adriano?”.
(…) Não são necessárias comemorações ou homenagens públicas. Basta ouvi-lo. Basta ouvir-lhe a voz e a poesia que canta. Não somos nós que o dizemos, foi o que constataram ou confirmaram aqueles* que participaram em “Adriano Aqui e Agora - O Tributo”. Catorze vozes, às voltas com a música de Adriano Correia de Oliveira, a descobrir para hoje o que hoje esquecemos”.

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[isto são alguns excertos do artigo de Mário Lopes, Público, 28.09.2007]
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*Tim, Cindy Kat, Valete, Miguel Guedes, Vicente Palma, Ana Deus & Dead Combo, Raquel Tavares, Celina da Piedade, Micro Audio Waves, Mazgani, Margarida Pinto, Nuno Prata, Sebastião Antunes e Pedro Laginha.


Terça-feira, Setembro 18, 2007

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Dormi na beira do rio junto aos sons
De pássaros mil desatentos que brincavam
Sonhei os espantos escondidos das serras
Fervilhantes águas transparentes a cantar
(vi os teus olhos cobertos de cores eternas)

Trouxe de longe uma semente pura, luz
Para plantar um amor respigante e doce
Na sombra o anseio vil de que me afasto
Há trigais juras - eternas - em teu regaço

Vi terra húmida e verde e forte
Rios correndo num pranto doce
Até ao mar que emprenham quente
Deixando bermas de acaso e sorte

Foi desencanto já não é maior
Nem cresceria com tal esplendor
São rios, serras, amor e sorte
São vidas escritas em dor com cor

E o vento calmo que me acordou
Veio na aurora de fugaz durar
O tom perfeito da tua voz, soprou
Por entre os vales até me achar

Évora, 12 - 18 Setembro 2007

Sexta-feira, Agosto 17, 2007

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José Cid e o sentido da Vida

[Essa felicidade é contagiante, A. Só tu para me fazeres rir desta maneira e me deixares lamechas ao ponto de escrever isto num blog.
Canta, continua a cantar desafinadamente e a rir do outro lado da linha, é isso e apenas isso que importa e nada, mas nada absolutamente mais, amiga. Quais criancinhas a morrer de fome em África?!( não me 'livro' desta ironia irritante, pá..)
Hoje morreu alguém próximo. Lembrei-me da Sónia e a tristeza veio. Mas a tua canção, e esses pés em cima da secretária - que imagino descalços, certo? - afastam a sombra, a nebulosidade do trágico. Tenho a certeza que ela se riu bastante nesse ponto. Se essa tua beatice pegasse, não me importava de ser contaminada. Mulher, que leveza!, e não te vejo há muito. Olha, quando eu morrer, lembra-te deste dia e da tua voz a desafinar no fim, lembra-te do brilho dos meus olhos do lado de lá da linha e da distância que (nunca) nos separa, lembra-te da cor da felicidade nos segundos que durou a tua imitação fraquita de um qualquer cançonetista ligeiro da nossa praça! Pode ser? E descobrir entretanto que a felicidade se pega através das ondas invisíveis de telemóveis de segunda geração, já me fez ganhar o dia.
Ah...e também descobri entretanto, que os The National são patéticos e sublimes, porque li isso algures, e se calhar é verdade. E passo a citar, porque não resisto, e porque eles são (não são nada, mas enfim!) o meu José Cid:" Estamos cheios de merda o tempo todo. Mas isso também é honesto, ser absurdo e ser estúpido. Se uma canção for demasiado séria e auto-obssessiva, paramos logo com ela e dizemos: 'Isto não tem suficiente estupidez, isto não tem suficientes patetice e tontice honestas"'. Pôrra, pá! Sinto-me em sintonia perfeita com estes tipos!! Sublime e patético.
E para acabar, deixa-me que te diga: vai ligando, miúda! :)]

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Quinta-feira, Agosto 16, 2007

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Náufrago: em tua

Náufrago: em tua
vida oculta
se anuncia a luz.

Desenterrada
da sombra
uma nova alegria.

No silencioso ar
gritam os mortos
é aqui a terra.

Mas teu rosto
quebra o tédio imutável
o obscuro dialecto.

Despertas-me, escuto
o mar, o vento,
transparente como a noite.

Na semente dispersa
brota a memória
de uma dócil casa
conhecedora já
dos dramas do universo.

AMG, Canções com palavras, Gótica, 2002
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Terça-feira, Agosto 07, 2007

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Um torpedo chamado National

Têm no máximo um vigésimo dos adeptos dos Arcade Fire, mas é como nos anos 60, entre Dylan e Cohen: qualquer um gritava "Dylan é Deus", mas os seguidores de Cohen não precisavam de berrar o nome do mestre: reconheciam-se entre si pelo cheiro, pelo instinto. Gente da estirpe de Cohen, de frase afiada, amarga, irónica e sem lições sobre a vida (que nos Arcade Fire, por trás da fachada de proximidade com "os miúdos", está sempre presente) a pender de uma melodia frágil, aparece muito de vez em quando: no caso dos National, com esta fundura, antes apenas houve os Tindersticks, e antes destes Cave e antes dele Cohen. E é por isso que em vez de energia ou felicidade nos corpos das gentes que enchiam a tenda do palco secundário do sudoeste havia tensão: porque os pedaços de porcelana que são as canções do quinteto nova-iorquino, por mais belos que sejam, cortam quando demasiado apertados. Entraram como se estivessem na sala de estar dos amigos, Matt Berninger entre o estático e o cambaleante, com uma fortíssima Mistaken for strangers transformada em combustível para guitarras galopantes, atiraram a explosiva Secret Meeting (de Alligator, o álbum anterior ao mais recente Boxer) para o meio do mato - e antes que alguém apagasse o incêndio e recolhesse as canas, entremearam a granada de Lit Up com a falsa serenidade de Brainy. E à quarta ou quinta canção o altar de devoção aos National estava erguido, os rapazes canonizados e a data marcada nas calendas da santidade: a hora nocturna (entraram às duas da matina) ajudava à sensação de intimidade, o povo não estava sereno, Matt Berninger atirava as goelas contra o microfone. Os deuses sabem - e os putos também - que o rock precisa de espinhos e só esmagando espinhos à força de ruído de guitarras poderá o rock encenar a sua função redentora. Uma hora de concerto, sempre entre Alligator e Boxer, e mesmo as canções que em disco devem mais à orquestração foram, em palco, transmutadas em furiosos petardos de força: como se aquilo tivesse de sair ali e naquele instante. Canções que vivem do desconforto, do sentimento de desadequação em que cada personagem de cada canção é colocada, canções que vivem na vizinhança do decadentismo, trepavam a escada de Job a pulso para explodirem no pico, como em "Abel", com o verso (bastante representativo do que rumina no fundo destas canções) "My mind"s gone loose inside its shell" cantado por toda a santa alma presente naquela tenda. Chamar-lhes indie-rock é quase pecado: em disco podem ser orquestrados, épicos, melancólicos, patéticos, ruidosos ou sussurrantes. São demasiado literatos para virem a ser grandes, mas ontem, para os sobreviventes naquela pequena tenda, foram nitidamente a melhor coisa que lhes aconteceu na vida. Já houve outras coisas assim e outras haverá, mas por vezes dá vontade de mandar a racionalidade às urtigas e dizer: melhor banda indie ao cimo da terra. Mas sem gritar, claro.

João Bonifácio, Público, 07.08.2007
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B-Side
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"Fiquei triste com o concerto dos National no Sudoeste. As músicas sucediam-se e eu - isto é roto mas eu sou menina - sentia uma bola fria a crescer no estômago. A confirmação de que, pelo menos para mim, estava a ser uma desilusão. Já tinha imaginado que pudesse não ser tão magnífico ou memorável como o concerto que pude ver deles em Maio, em Berlim, durante o qual me emocionei verdadeiramente. Músicas como o Fake Empire, Soho Riots ou About Today tiveram uma leveza e, ao mesmo tempo, uma consistência que não sou capaz de explicar em palavras. Mas sei que foi muito diferente das versões atabalhoadas que vimos no Sudoeste. Adoro a banda como há muito tempo não adorava uma banda ou artista, mas sou incapaz de escrever ou pensar coisas como «não se ouvia a voz, ele esqueceu-se das letras mas foi muito bom». Não foi - pelo menos para mim. A banda (os outros rapazes) estiveram geralmente bem, mas o nosso amiguito (que entrevistei horas antes do concerto, numa conversa em que o homem não podia ter sido mais simpático, empático ou disponível) estava noutro sítio qualquer. Não se trata apenas de cambalear, isto ou aquilo. Não se ouvia a voz (culpa do som daquele palco, naquela noite, também), não intervinha entre as canções (o guitarrista tentou substituir-se-lhe mas o microfone nem parecia ligado), «fugiu» na última música, arruinou a «About Today», que é tudo menos música para risadinhas. Safaram-se as mais eufóricas e extrovertidas porque, enfim, vivem mais da adesão e do delírio populares do que da performance do vocalista. E esse foi o único aspecto perfeito da noite: o pessoal que estava lá para vê-los, cantá-los, senti-los. Eles, os fãs, deram tudo; os National, ou em particular o Matt Berninger, não. E não deve haver ninguém a quem custe mais escrever isto do que a mim. Até derramei duas ou três (pronto, quatro) lágrimas com a decepção que senti. Estou a falar o mais a sério que posso. Se calhar o concerto não foi desastroso, mas para aquilo que gosto da banda, e para aquilo que já tinha visto deles, ficou muito aquém das minhas expectativas (que nem eram assim tão altas, como tentava explicar ao moonshiner antes do espectáculo). Espero que cá voltem e que o menino beba menos. Sim, ele é conhecido por dar-lhe na pinga, mas tende paciência. O gajo em Berlim bebeu, em palco, uma garrafa de vinho e no final do concerto ainda se lembrava do nome. Preferia ter apenas falado com eles e ter-me conservado naquele estado de histeria de fã / deslumbramento / euforia por estar ali rodeada de gente que adora aquelas canções. Não guardo boas memórias do concerto em si, mas de tudo o que se lhe antecedeu. Adorava ter visto o concerto que o João Bonifácio relata hoje no Público. Aliás, vi mesmo – mas em Berlim, não no Sudoeste. No entanto, fico contente por pessoas por quem muitíssima estima tenho, como o senhor Cristiano, Dona Leonor ou Mestre Moonshiner, terem gostado. É que prefiro pensar que sou eu a esquisita, do que acreditar que o concerto foi assim, como foi. (...).
PS - Caso não tenha ficado claro, continuo a adorar a música deles. E os concertos, quando são bons. E a oportunidade de falar meia-hora com um gajo cujas letras me encantam."
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Lia (jornalista), Fórum Sons, 07.08.2007
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Terça-feira, Julho 31, 2007

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5.08.2007
zambujeira do mar
portugal
[don't know where i'll be..there or dead]
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r.i.p.






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Sexta-feira, Julho 13, 2007

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[ até breve..]
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Segunda-feira, Julho 09, 2007

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Motivo mais do que suficiente para ter ficado em casa num sábado à noite. E mais uma vez confirmar que devo seguir intuições e não recear o desconhecido quando vou ao cineclube e não sei o que vem na caixa que trago comigo. É como ir ver um concerto de uma banda da qual nunca ouvi falar e sair de lá com uma grande vontade de comprar o cd ( em vez de pedir aos amigos para mo sacarem da net..coisa que não faço, ai é verdade!!!!). Gosto de fazer isso, preciso de fazer isso de vez em quando. Surpresas fazem bem e recomendam-se!:)

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Quarta-feira, Julho 04, 2007

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Fora, cá dentro (fica aqui um bocadinho)

A mim faz-me sempre bem sair do sítio onde habitualmente vivo, onde passo os meus dias seguros.
E gosto de o fazer por vezes sem planear nada, ou pelo menos, não planear com antecedência. Meti-me no comboio e lá fui rumo ao Porto, a capital nortenha, banhada pelo Douro, que atravessei de cara colada ao vidro da carruagem para melhor ver a paisagem. O Porto tem o seu encanto, especialmente se as pessoas que lá conhecermos forem também elas encantadoras. E as que eu conheço, e que vim a conhecer, são-no. Passei uns dias simpáticos e divertidos, calmos e sem sobressaltos, e, sobretudo, longe disto aqui, do dia-a-dia que me atarefa sem mais que isso.

Dormi em outros lençóis, falei com estranhos e amigos, comi outras comidas, escutei outras conversas, assisti a 'outros concertos' (Balla Prop is cool!) vi outros interesses, outras preocupações. Ou serão as mesmas?

Li em alguns olhares uma espécie de espanto quando respondia que gostava de viver em Évora. E sei porquê, consigo entendê-lo. Terão esses outros olhos entendido os meus?
O Porto continua a ter aquela cor neutra, meio acinzentada, continua a ser pitoresca a cidade, com prédios engraçados. As lojas e as montras das pastelarias são uma perdição, eu podia escrever um tratado sobre a confeitaria e o fabrico próprio de cada uma destas casas, tenho a certeza que alguém me publicaria a obra. Eu no Porto como realmente aqueles bolos - que nunca, ou raramente provo - com os olhos!! O café Piolho, que aglomera na sua simplicidade e boa localização tudo quanto é gente nova e se mexe, indica-nos pelo seu nome próprio aquilo que a cidade tem de mais interessante: a mistura do moderno com o típico, do castiço com o fashion.(consigo não gostar nada desta palavra, mas não encontrei outra melhor, é da preguiça..).
Também pelas ruas vi gente tão desengraçada a passar por mim que cheguei a comentá-lo, não resisti a ficar caladinha perante algo que me pareceu quase um fenómeno de rua, ambulante: eram mesmo muitos, a dada altura. O contexto de festejo dos santos populares podia ter propiciado tal observação. Ou isso, ou os meus cânones estéticos andam muito elevados...e isto à medida que eu mesma vou envelhecendo e perdendo a graça de outrora. Irónico, no mínimo.
Mas também tive o prazer de conviver com gente bem bonita - de beleza feita de simpatia e humor e graça e vida - e toda ela de bigode, logo na primeira noite!
O leilão onde adquiri a minha primeira obra de arte foi a cereja no topo do bolo, e também o momento onde assisti à (con)sagração das amizades eternas, aquelas que embelezam este mundo, tantas vezes tão feio. Já me valeu a viagem toda. Do que não gostei mesmo nada e achei mesmo mauzinho, foi das indicações 'dentro' do Metro do Porto, ou das informações relacionadas com os transportes públicos, no geral...caramba!
Mas como me disse o meu mano, "não percas tempo - ou seria energias? - com essas coisas", estava já eu a rezingar como se o mundo fosse acabar amanhã:)
E ainda não foi desta que conheci a Casa da Música. Fica para a próxima, espero.
Bem, e vou acabar com um....bibó Porto!
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Quinta-feira, Junho 28, 2007

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uma palmada bem dada

É o nome do blogue de C., uma moça brasileira de 23 anos apenas, ela escreve coisas deliciosas. Eu gosto bastante. Aliás, já somos 3 por terras lusas, fãs de uma palmada bem dada. Fica o endereço aqui ao lado, para espreitarem se vos apetecer, eu cá acho que vale a pena!
E para aguçar o apetite, deixo o post seguinte:

"Juliana, anote aí: “A complexidade é culpa da solidão
isso de muita cultura é coisa de gente sozinha.isso de ver todos os filmes, de ler todos os clássicos, os bons lançamentos... isso de saber nome de diretor, de fotógrafo, de artista plástico, de compositor de trilha-sonora... isso tudo é coisa de quem, acima de tudo, tem solidão. precisa saber, ter, agregar valor, se ocupar, impressionar, seduzir. e as razões pelas quais você preza pela solidão, eu ignoro. na verdade nem sei se preza. talvez você quisesse mesmo era trocar toda a sua estante de livros por um marido. toda sua solidão por um fogão.porque ser 1 só, parece que é tenso. é muito espelho, muita pose, muita preocupação com o alheio, muito mundo em volta. dá vontade de chorar a quantidade de coisa que tem pra aprender. dá tristeza a variedade de coisa que tem pra ser. muito corte de cabelo, muito tipo de maquiagem, muita roupa, muito colar, brinco, pulseira. as vezes faz falta um anel no anelar. as vezes faz falta bem mais do que isso.falar é coisa que tem hora que cansa. e a estética das coisas também é finita. chega um dia que até o seu cigarro perde o charme e sobra só o gosto e o cheiro ruim.essa mania que você tem de ser sempre cool, de entender de circo, de rock, de moda, de luz, de cores, de cliques perfeitos... essa mania de escrever sobre si mesma, de reparar nos outros, de usar roupa estampada, de ser estilosa... esses seus óculos escuros, esses seus bares da vida... sua juventude, seu paradigma, sua liberdade. a insignificância da sua dedicação enquanto espera que alguém te roube de dentro de ti.mas você fica calma que acontece. acontece em qualquer hora dessas quando vc está ocupada se ocupando da sua solidão. é no metrô, enquanto você volta pra casa do seu trabalho pós-moderníssimo. você lendo saramago, sozinha, num banco que é pra dois.até que ele um dia senta do teu lado. e quando você olha no olho dele se lembra de toda a sua infância e não se constrange. ele então pergunta o seu nome. e você diz com toda a certeza: o meu é esposa e o seu é marido.
daquela estação em diante você entende duas coisas:o espelho agora mora no olho dele e o mundo é do tamanho de um banco de metrô pra dois."


in http://palmadabemdada.blogspot.com/
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Sexta-feira, Junho 22, 2007

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Segunda-feira, Junho 18, 2007

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Samba do meu Carnaval

Absolutamente fabulosa
Hey babe, você está indo longe
Nesse trailer sem Grande Plano
Espinhos, cardos, pouca prosa
Meu bem, 'cê está contabilizando!


E cai o pano no fim do dia
Seu palco é o sofá da nostalgia
O mau perder e o humor barato
Hey baby, o seu olhar está um prato!


Continua nesse ritmo balancê, oh yeah!
['cê vai vivendo p'ra você]
Meu amor, como é vazio (io, io)
O mundo em volta, falou fastio?


E quando olha no espelho, o que vê?
Sua pele gritando por você
"My darling, babe, you have to stop!"
STOP!
Vamor rever, fazer close-up
Olha bem fundo p'ra essa dor,
'Cê vai crescer e ser maior!


Um dia vem, que dia vai?
Ele te despe e você cai!
Não vai pedindo "por favor"
Agarra tudo e leva amor!

Ai menininha, sempre a temer
Que raio o parta! não tem perder

Chega de gestos e intenções
Sua jogada é de emoções
À flor da pele ôh meu bem!...
É só você e mais ninguém


Chega p'rá lá, chô baixo astral
Deixa sorrir, doce boquinha
Anima o mundo, não faz farinha!

Quando quiser pode beber
Fumar, curtir depois esquecer
Não lembra mais se errou - que mau!
Que interessa..?!
É Carnaval!

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Quinta-feira, Junho 14, 2007

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quando não há mais do que falar.....
o tempo.

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Quarta-feira, Junho 06, 2007

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The National - About Today (@ Spin)



estou apaixonada. pronto. e agora?
:)

Sexta-feira, Junho 01, 2007

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um viva aos nossos meninos e meninas.
ainda que nem todos possam ser
meninos e meninas,
que o mundo é assim, também injusto,
um viva a todos eles.



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Quarta-feira, Maio 30, 2007


"Senta-se cruzando as pernas, pendura-as no braço da cadeira, baloiça o pé numa cadência regular enquanto acende um cigarro, levanta o olhar, quer ver o céu, são poucos segundos, não fixa o olhar por muito tempo, volta a cabeça seguindo um pássaro que atravessa velozmente aquele pedaço de azul a descoberto, olha para os vasos, as flores, o sino da igreja que parece distante, ergue-se muito perto do sítio onde se encontra, olha de novo para o céu à procura de nuvens, das formas das nuvens, elas desenham-lhe sempre alguma coisa, percebe-o ao fim de alguns segundos de concentração, não fazem sentido, mas continua a olhar, a procurar, até o cigarro acabar, até a música que soa ao longe o chamar para dentro, anda, vem para aqui, que fazes aí?, vem para dentro. E ele vai.
Até que no dia seguinte se senta lá fora com o entardecer ameno, cigarro, copo, quase sempre leva alguma coisa consigo, olha o céu, ouve os pássaros naquela azáfama viva, eterna, sorri, a campânula perto que é longe, longe que é perto, as flores e os vasos, nuvens, vento, brisa que afasta augúrios telúricos dali, são apenas uns segundos, sorri, não encontra, não pensa, pensa demais, e ainda não sabe, volta para dentro, a música chama-o, agrada-lhe o recolhimento do sofá, da televisão ligada sem som, vai dormir e adormecer, sonha que é uma folha em branco, o branco de todas as cores."

Quinta-feira, Maio 24, 2007



a minha estreia. estou contente:)

Quarta-feira, Maio 23, 2007

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disponível para amar



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A primeira vez que li o nome deste filme, na minha língua, fiquei fascinada. Achei-o belíssimo. Achei que teria de dar crédito aos tradutores de títulos de filmes, pessoas por quem não nutro particular admiração tendo em conta o panorama geral em Portugal. Mas este, bem, este fez-me acreditar. I believe..
É certo que provavelmente a tradução não seria difícil, em inglês, por exemplo, o título é in the mood for love, mas, o que me interessa mesmo, e aquilo que me despertou a atenção, é o que o título transporta, a sonoridade, a sugestão, a poesia, a intenção...está lá tudo. Disponível para amar.
Costumo brincar em trocadilhos com este título, usando-o em conversas: "disponível para amar (sabes?, não estou...)" ou " (estaremos) disponiveis para amar?" ou "(estás) disponível para amar?" ou simplesmente "disponível para amar, (que será isso?)".
A outros até pode sugerir algo menos melancólico, menos lírico: "Disponível para amar, com Barbara Hot Galore, o soft porno como nunca o viu!"
Mas eu não...eu é mais bolos.
E depois, ontem, sim ontem à noite, fui ver o filme. Ando há anos para o fazer. Nem sei bem porque nunca o fiz, não me recordo bem. Terá sido por recear que o filme não correspondesse à sensação gerada pelo título? Terá sido por falta de disponibilidade? Terá sido desleixo? Terá sido porque pensei que ia adormecer a meio? Pode nem ter sido nenhuma destas, ou podem ter sido todas.
Mas fui, e ainda bem que fui ontem, amanhã nunca se sabe onde podemos estar. Graças a deus.
É um filme dos 'meus', está lá algo daquilo que eu poria lá também se me propusesse a realizar filmes, sim, está.
O par, dizem em todo o lado, vive um amor fantasma. Ok, e eu concordo. E acrescento apenas isto: há várias formas de amar, há várias disponibilidades para o amor, há inúmeras possibilidades da sua concretização, tal como inúmeras impossibilidades ainda que se ame, há a felicidade, também, sim, na impossibilidade, nas escolhas aparentemente paradoxais de cada ser humano (ou só de alguns seres humanos? etéreos fantasmas de si? etéreos fantasmas dos outros?), mas eu acredito nela, e acredito que este é um filme feliz, ainda que nunca o par se tenha beijado, ainda que nunca tenham feito o amor, ainda que se toquem ao de leve apenas, ainda que se afastem.... isto foi o que Hong Kar-Wai me deu de perfeito, está na forma como me ofereceu este belíssimo filme: a sugestão. E o que é a vida, o amor, senão a sugestão da vida e do amor?
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Terça-feira, Maio 22, 2007

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La Pietà
Michelangelo Buonarroti
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Quinta-feira, Maio 17, 2007

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Foi aquele olhar que pintei para sempre
Sei-o
Puro, mágico, irrepetível
De dia e hora esquecidos
Moldura em torno dos rostos, nossos, a afastar o mundo
E éramos sós, na silenciosa beleza daquele amor.

Quadro que viajará comigo
Agora pendurado na parede da minha alma
Embalado na serenidade que envolve as certezas calmas
E onde repousei o meu sorriso.

Não sei do eterno retorno das coisas
Não levo uma parede nua
Não espero novidades
Quero sonhos.

A paz em pontas de dedo...tocam-me a medo?
Sou viva na inquietação

Passo
E permaneço.

Évora, Maio de 2007
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Quarta-feira, Maio 16, 2007

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blank
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Terça-feira, Maio 15, 2007

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Insónia.
Quando os outros estão ausentes. Escondidos.

Silêncio.
Nele correm as horas que enlevam o meu pensamento.

Incerteza.
É a escuridão da noite que me embala o sono.

Desejo.
Ao ser habitante da minha alma.

Inquieto.
Foge o meu coração.

Sonho.
Aqui, nunca estou.
Não estou por perto...



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Segunda-feira, Maio 14, 2007

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Speaker's Corner

Deus pode bem ter um nome e uma morada.
E pode dar-se o caso de podermos estar a ouvir a sua voz.
Sufjan Stevens é de Detroit.
Em "Illinois" ele compõe canções belas, para nós, comuns mortais.






http://www.pitchforkmedia.com/article/record_review/22059-illinois?artist_title=22059-illinois

http://asthmatickitty.com/musicians.php?artistID=5
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Sexta-feira, Maio 11, 2007

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Os Cantos de Maldoror dos Mão Morta



Estreia hoje em Braga, no Theatro Circo

"Adolfo Luxúria Canibal rodeou-se de cúmplices para pôr em palco a obra "Os Cantos de Maldoror", de Isidore Ducasse (sob o pseudónimo de Conde de Lautréamont). O espectáculo tem música, teatro, vídeo e declamação. E tem uma aura de negrume, crueza e desconcerto que faz eco do universo Mão Morta."

http://www.mao-morta.org/

Outras apresentações:
PORTALEGRE, Centro de Artes do Espectáculo, a 19 de Maio.


Quinta-feira, Maio 10, 2007

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Quarta-feira, Maio 09, 2007

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mentira. não sou.


Verdade.

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Segunda-feira, Maio 07, 2007

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et....Vive la France?



Pois é.
Monsieur Sarkozy eleito... agora, vamos aguardar e assistir ao tratamento que ele vai dar à 'escumalha'.
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Sábado, Maio 05, 2007

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Inteira

Sou inteira quando escrevo.

Quando escrevo sou inteira.
Sou mais eu do que sou
Quando sou apenas eu.

Quando escrevo sou outra
Que não eu, se apenas sou.

Sou inteira quando escrevo.


Évora, Maio 2007
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Segunda-feira, Abril 30, 2007

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Today I am



a small blue thing
like a marble, or an eye



With my knees against my mouth
I am perfectly round
I am watching you

I am cold against your skin
You are perfectly reflected
I am lost inside your pocket
I am lost against
Your fingers

I am falling down the stairs
I am skipping on the sidewalk
I am thrown against the sky
I am raining down in pieces
I am scattering like light
Scattering like light
Scattering like light

Today I am
A small blue thing
Made of china
Made of glass

I am cool and smooth and curious
I never blink
I am turning in your hand
Turning in your hand
Small blue thing
S. Vega
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Quinta-feira, Abril 26, 2007

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A Salvação tem o tempo de um sorriso onde vive a Eternidade

Saiu deixando os amigos a divertirem-se, precisava apanhar ar, retirar-se por algum tempo.
Chovia, o ar lá fora era fresco, o Céu corria.
Soube-lhe bem pendurar-se no parapeito, amparou as gotas da chuva na face e fechou os olhos.
Quando os abriu de novo pensou que não pertencia àquele momento, estava deslocada, longe, inquieta.
Ficou por ali um pouco, encostada no nada.
Voltou-se para regressar para dentro, para junto dos seus, não tinha vontade de o fazer, estava atordoada, o coração mais acelerado que o normal. Era normal.
- Espera!
E uma mão agarrou a sua com convicção, o gesto fê-la voltar-se, conhecia-o.
- Pareces perdida. Espera..
E sorriu-lhe, na aproximação.
- Perdida? Não... acho que não. Vim apenas apanhar ar.
E sorriu-lhe.
As palavras dele deixaram-na triste, baixou o olhar.
Mas depois, e num repente, a sinceridade urgia, quis dizer-lhe a verdade. Mal se haviam cruzado antes. Eram estranhos.
- Só. Viste-me só. Foi isso...
Ele fixou-a como se surpreendido e desviou o olhar, na direcção do chão seguiram os seus olhos. Não estava. Nada disse.
E sorriu-lhe de novo.
Ela sorriu-lhe de novo.
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Segunda-feira, Abril 23, 2007

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Obra-prima


“Da magnífica residência dos Sackville-West, o castelo de Knole, Virginia faz a moldura da sua biografia fantástica; de Vita, herdeira de uma das maiores famílias de Inglaterra, o modelo do seu herói. Homem e depois mulher, mas sobretudo homem e mulher, Orlando poderia ter saído com todas as suas armas do cérebro do Aristófanes do Banquete (…) Virginia Woolf não se sente apenas tentada pela originalidade antropológica de Orlando. O que a interessa no personagem é a inumerável variedade de combinações possíveis que permite a ausência das obrigações humanas habituais. (…) Tesoureiro ou embaixador, perseguidor de raparigas ou musa de espíritos apaixonados pela beleza, melancólico ou exaltado, trocando as calças pelas saias ou refugiando-se na sua tebaida de campo para escrever o seu poema, a sua natureza dupla presenteia-o não com duas nem com dez, mas com cem vidas diferentes.” Monique Nathan, em Virginia Woolf
Relógio D'Água Editores
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Quarta-feira, Abril 18, 2007

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Uma carta para ti

No início, foi um fraquinho por ti. A primeira entrevista, todas as outras que se seguiram. O documentário. Depois, o palpitar do meu coração perante a frase lançada qual flecha de cupido que não vê, mas.. pim! atingida inesperada e inequívocamente.
Li-te e não consegui ler-te. Não sei porquê. Ou não sei explicar-te o porquê, se não sei como argumentar a minha desistência perante a dificuldade em ler-te. Os teus livros, apenas. Acompanhei levemente a tua vida, mais ou menos a par do que ias fazendo. Fui ver-te duas vezes, ouvir-te falar. Comovem-me as tuas palavras ditas. A tua voz. Há uma suavidade inviolável, sublime, no tom da tua voz, de vez em quando...foi isso. Foi apenas isso, foi tudo nisso.
Também me desesperam algumas palavras tuas, pesadas e despropositadas, algumas palavras tuas. Mas admiro-te. Aprendi a escutar-te, sei ler-te nas entrelinhas. Leio-te na pessoa, não no escritor de romances. Poderei fazê-lo, assim, quase levianamente?
São enternecedoras quase todas as tuas crónicas. Li algumas das cartas que escreveste em África, na guerra, para a tua mulher. Cartas de amor, são ridículas, dizia o poeta. E quem as não tem? Quem nunca as escreveu? Gostei de ler-te no auge da paixão. Achei graça. Apeteceu-me passar os meus dedos pelos teus cabelos, e fazer-te uma careta brincalhona, se fossemos amigos.
Numa tarde faltei no emprego, para te ir ver pela primeira vez. Não por seres famoso, não por escreveres livros que te deram notoriedade mundial - se eu não consigo ler-te neles?, mas queria ver-te de perto. Escutar a tua voz. Cheguei atrasada, não havia lugares próximos da mesa onde estavas sentado, ainda espectador de nós. Sentei-me nas escadas. Ali fiquei até ao fim do tempo que nos deste, no incómodo da minha posição, a mão amparando-me o queixo e os dedos a esconderem os meus lábios que desenhavam um sorriso tímido. Foi quando me apaixonei.
Mais tarde, voltaste. E eu voltei a repetir a falta no emprego, desculpa mal amanhada, quis ver-te e ouvir-te de novo. Desta vez era uma coisa mais solene e vistosa, um congresso internacional dedicado à tua pessoa. Foi aí que senti a primeira picada, o primeiro senão. Mas a minha paixão já era amor e o amor persiste. Não é?
Foste arrogante e presumido. Verdadeiro.
[ainda que todas as rosas tenham espinhos, continuam a ser belas]
Foste amor e generosidade. Vislumbrei o romantismo escondido, que eu ainda não apreendera, estava nas tuas palavras, ali. A doçura inteligente na capacidade de expores a tua humanidade, sem pudor, ainda que pareça lá estar. O meu amor cresceu.
Em tempos, embaraçava-me a possibilidade de me dizer apaixonada por ti, sem cair no rídiculo. Não faz sentido esconder um amor platónico. Estranha, esta tendência de tudo compartimentarmos de forma estanque, como se o amor não contivesse em si, mil possibilidades...
Eu não era tua fã, não o sou hoje, encantei-me pela tua pessoa, pública, é certo, mas que relevância tem um detalhe em que a única coisa que interessa, a única válida, está na possibilidade de ter-te conhecido. Vi-te, escutei-te, li-te, sem os livros, apaixonei-me. Brinco com isto, revelo-o a alguns amigos, e sei que não me levam a sério, ainda bem.
Mas hoje quero escrever-te estas palavras, são para ti, não sei o valor delas, sequer se são ridículas, talvez o sejam, como todas as cartas de amor, mas desejava oferecer-tas, o meu inócuo segredo. Precisava mimar-te, depois de te ter lido, esta última vez.

Évora, 17 de Abril de 2007
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Terça-feira, Abril 17, 2007

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Actual



Revi ontem La Haine, de Mathieu Kassovitz. Muito actual, este filme. Muito bom.
Um murro no estômago, daqueles que fazem falta de vez em quando e não sou muito masoquista. Mas o cinema tem este dom de fazer da realidade, grande ficção, quando, quem dirige as tropas, sabe mostrar desta forma as entrelinhas do real.
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Sexta-feira, Abril 13, 2007

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A porta

Saíste do prédio batendo com a porta, suavemente, como se assim evitasses que te escutassem, o teu bater, e surgisse de repente alguém a implicar contigo. Olhaste em redor, desconfiada, o caminho livre, não havia perigo à vista, podias ir à tua vida. Seguiste pela rua baixando a cabeça, discretamente, mas às vezes é pior a emenda e num instante a ergueste de novo, veio-te a imagem dos caloiros, a tua imagem de quando caloira, a baixar a cabeça perante nada, ou coisa que o valha. Continuaste de cabeça agora erguida, sem orgulhos, sem nariz empinado, um discreto sorriso a disfarçar o medo, medo de quê?, e afinal nem era bem medo, era só um medo assim-assim, e viraste na esquina, nova rua acima, um homem estranhamente vermelho, não corado, vermelho, fixava o olhar nos dois telemóveis que segurava nas mãos, parecia não estar ali, sentado nas escadas de acesso aos prédios que o amparavam por trás, parecia longe de tudo o que o rodeava, até do ruído, um ar quase cómico, quase. Foste andando com a imagem dele colada à tua curiosidade, a curiosidade de quê?, e as paredes dos prédios que ladeavam o teu caminho eram feias, escrevinhadas com frases indecifráveis, sobrepostas, arabescos de cor desbotada, estas não foram paredes inscritas para serem lidas com atenção, iam sendo desenhadas apenas para efeitos decorativos, brincaste.
A leveza dos teus passos ia crescendo e em breve avistaste a rotunda onde te disseram que deverias chegar, a referência no caminho, o marco que te levaria a mudar de direcção, estavas a ir bem, não havia que enganar, ainda hesitaste alguns segundos, pareceu-te que já avistaras a tal espécie de vale que terias de descer à direita, e quase seguias por ali abaixo, mas não, precipitação tua, mais uma daquelas inconsequentes e recorrentes, normalmente acabavas a rir, e agora sim, estavas já na rotunda e prestes a chegar ao teu destino: o supermercado. O teu destino, deuses!
Uns quantos miúdos brincavam entre dois prédios, outros tantos rapazes mais à frente, e mais velhos, conversavam alto e animadamente, pensaste que iriam dizer-te alguma coisa quando olharam na tua direcção, mas passaste por eles sem os evitar e eles nada disseram, mas também ó miúda, tu não és loiraça nem alta, nada de decotes pronunciados ou finos saltos altos a produzir caminhares bamboleantes, nada disso, estavas distante da maioria das variáveis utilizadas na fórmula do cliché da mulher-com-quem-homens-se-metem-na-rua. E no entanto, sabes inútil e despropositado qualquer cliché, quando todas as mulheres são abordadas nas ruas, das mais diversas formas, por incontáveis motivos. Chegaste ao teu destino sã e salva, nada de assaltos, nada de se meterem com a tua frágil pessoa, neste momento, já lá vão os tempos em que vivias tu no subúrbio e andavas sozinha madrugada dentro, ainda que depois de beberes uns quantos moscatéis a mais, quando indevidamente contabilizadas as consequências desse acto eufórico com que se celebravam as sextas e os sábados à noite no Barreiro Velho da tua adolescência, no meio dos amigos, e apesar de tudo, e de estares a armar em suburbana valente, o que é certo é que só te perdeste deles e partiste - pela noite sombria daquela cidade feia habitada por gente bonita – uma única vez, que te lembres. Bom, e ali estavas tu, com receio de seres incomodada porque atravessavas um bairro ‘complicado’, um subúrbio cinzento da Grande Cidade, onde as casas são muito mais baratas que em outros sítios à beira mar plantados e os rapazes que passam droga na esquina têm navalhas nos bolsos e um brilho estranho no olhar e te assustam. Bom, ali estavas tu, que agora vives no campo e também agora tens medo de coisas, que coisas? que não te assustaram durante anos e anos, a entenderes que os preconceitos se perdem durante uma vida inteira, mas também se colam à pele sem aviso prévio de atracagem, e se vão instalando sub-repticiamente sem que deles dês conta senão quando se lembram de aparecer na forma de receios infundados, na maioria das vezes que aparecem.
Voltaste para a casa sem sobressalto, sem obstáculos a ultrapassar senão a curta distância que separou a porta que tinhas batido suavemente, e o ponto de destino a que te propuseras.
Abstraída no caminho, ficou-te a cor da pele do homem sentado nas escadas perto da paragem do autocarro, um misto de tristeza com ironia espreitou à janela da tua alma, fora pela expressão dele que baixaras o olhar, súbita e precipitadamente, como se estivesses a roubar aquele momento de privacidade entre ele e os telemóveis, a interferir no namoro entre ele e as ondas invisíveis que dali partiam, para qualquer lado do mundo, e isso te embaraçasse. Quando regressaste à casa, passaste de novo por ele, sentado no mesmo sítio, cara muito vermelha, fixava os dois telemóveis sem pestanejar.
Depois, quase no fim, surpreendida, sim, não te pareceu logo que o fosses, mas assim aconteceu quando se cruza no teu caminho um senhor cuja idade indefinida é aquela em que não se consegue perceber se a pessoa é idosa, ou se ainda não o é, estava muito bem vestido, o senhor, era bonito, ‘beleza colonial’ pensaste (riste da tua própria parvoíce), lembrou-te a África que não conheces, a África que reconheces e sabe bem. Imaginaste-o em tertúlias de amigos na Ilha, fins de tarde amenos no alpendre do café com chão de madeira, uma luz breve de sabor a mar entrava pelas janelas baixas, sorria. “Muito boa tarde” – ligeiro aceno de cabeça - dissera ao passar por ti, um cumprimento educado de tão sentido, “muito boa tarde” dissera ele e tu só te apercebeste que era mesmo para ti quando já ele tinha passado o teu alcance de visão, quando já tinhas perdido aquela fracção de segundo em que responder-lhe com a mesma educação e porte já não seria possível, e ainda assim, e também por isso, tentaste reparar a tua falta com um “boa tarde” soprado para trás timidamente.
Ganhaste o teu dia. Sorrias.
Deixaste a porta deslizar livremente, no teu regresso.
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Évora, Abril de 2007
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Segunda-feira, Abril 09, 2007

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Ciclo Paul Bowles - NEXT TO NOTHING Exposição de Fotografia de Daniel Blaufuks
«Um Abrigo na Terra» é o título deste ciclo que se prolonga até ao fim do mês com diversos eventos evocadores da obra deste autor mais conhecido como escritor de romances e contos, mas com vasta obra de composição para piano, voz e orquestra. A obra multifacetada de um autor que ocupa lugar de destaque na literatura norte-americana do século passado, e a colecção de fotografias tiradas por Daniel Blaufuks na casa de Paul Bowles em Tânger, levaram o Centro Cultural de Belém a fazer a evocação com este ciclo.Em 1947, Paul Bowles esteve na Europa para estudar composição com Aaron Copland, com o qual, no mesmo ano, visitou Tânger. Copland regressou a Paris mas o escritor norte-americano acabou por ficar naquela cidade do Norte de África até à sua morte, em 1999. "The Sheltering Sky/O Céu que nos protege", adaptado ao cinema por Bernardo Bertolucci em "Um chá no deserto", e "Let it come down/Deixai a chuva cair", são alguns romances da sua autoria. Em Marrocos foi visitado por muitos dos escritores conotados com o movimento da "beat generation", foi responsável por ter inscrito o país no itinerário obrigatório dos intelectuais vanguardistas norte-americanos e revelou algumas das formas mais interessantes da música local. Entre esses grupos contam-se os The Master Musicians of Jajouka, que actuarão no CCB a encerrar o ciclo, a 31 de Março. A abertura do ciclo assinala a inauguração da Sala de Leitura Jorge de Sena com uma exposição de primeiras edições das suas obras, o lançamento da autobiografia, e a inauguração da exposição de fotografias «Next to Nothing» de Daniel Blaufuks, tiradas em Tânger em 1990 num encontro do fotógrafo português com o escritor.(...).
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Em 1990 fui a Tânger para me encontrar com Paul Bowles. Os seus livros tinham-me fascinado, mas mais do que isso a sua vida. Compositor e escritor, viajante no seu tempo, alguém que procura. Em sua casa encontrei, acima de tudo, serenidade. Tardes preguiçosas à volta da lareira, apenas interrompidas por algumas visitas diárias, e calmos passeios ao mercado. Mesmo assim, estes não eram tempos pacíficos. Agora, dezasseis anos mais tarde, regressei a essa casa e a essas fotografias. Daniel Blaufuks

Quarta-feira, Abril 04, 2007

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e mais logo, a animar o início de mini-férias... Cansei de Ser Sexy para me dar pica!!
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Honor de Cavalleria

De: Albert Serra
Com: Lluís Carbó, Lluís Serrat, Jaume Badia
Andergraun Films ESP, 2006, Cores, 95 min.

Lisboa - Cinema King - 218480808
SALA 3 14h30 / 17h00 / 19h30 / 21h30; 6ª-Sab, 2ª: 24h15


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Quinta-feira, Março 29, 2007

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Um mundo com tempo para nos dar tempo
Um mundo com humanidade para nos tornar humanos
Um mundo com justiça para nos dar esperança
Um mundo com honestidade para nos respeitar
Um mundo com muitos mundos para nos ensinar
Um mundo sem filhos da puta porque não consigo aceitar.

Um mundo virado do avesso porque começamos a precisar..

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Quinta-feira, Março 22, 2007

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Por onde começo?
Como te conheço?

Foi nossa a proximidade presente
Na naturalidade das coisas que são.

Aprendo e sorvo mais um pedaço.
O meu puzzle ainda não é, e quando será?, a soma de todos os pedaços que me revelam.

Apaixonei-me por quase tudo, hoje, de novo.
O livro pequeno demais, na forma insólita que o distingue no meio dos outros, adornado em tinta vermelha.

Chegaste e a dança começou. Falaste. Leste. Sorriste.
Como estavas diferente daquela vez. Rígido e tímido, como se não.
Hoje as palavras soltas, com a leveza dos sorrisos que denunciaram o teu humor, rimo-nos contigo.
Os teus olhos mal cruzavam os nossos, daquela vez.
Hoje eras simpático, feliz. Enleva-me o vosso amor, o teu, que perdura e nos deleita pelo olhar que é doce, também.
Está na passagem do tempo pelo corpo que escreve.

Reconheceste-me. É simples reconhecer rostos. Eu quase não te reconhecia. Até vislumbrar-te no olhar, na pose, um fantasma, uma sombra da primeira vez...dissipou-se na honestidade, na leveza tímida das palavras sinceras que nos deste.
Deliciei-me no sabor da leitura dos teus poemas [alguns, escritos para nós] espalhado no éter. Ainda bem que estás à procura. Ainda bem que continuas.

E depois tive de te perguntar. E tiveste de me responder.

[apreendo como se fosse lançada nas águas calmas de um lago pela primeira vez, onde não nos afogamos, onde nos mantemos à tona, sem drama. apreendo isso tudo porque esteve sempre em mim.]

"O peso de cada palavra, quando são tão poucas as palavras que se econtram num verso que é curto, no poema finito e breve - o peso que cada uma tem, como é importante a sua eleição..."

Assustei-me. Acobardei-me. Tive medo.
Depois o teu olhar semi-louco que encontrei no fim do riso, a melancolia das coisas sentidas e que não nos abandona mais, disse-me que não era preciso ter medo.
Depois do livro folheado, depois de mais um poeta descoberto, depois de nos sentarmos contigo, depois de te escutarmos, depois de nos dizeres tudo, depois da simplicidade que embelezou os teus segredos, depois de leres para nós, depois dos interregnos, do ruído, depois da atenção, depois de congelarmos os gestos e os sons, depois dos rebuçados de magia, depois da ingenuidade paradoxal, depois de olhar para o rapaz da camisola vermelha sentado em frente à rapariga-mistério-bela-silenciosa, depois dos embaraços, depois da Margarida nos embalar na gravidade serena da sua voz inteligente, depois da espera até chegar mais perto de ti e falarmos os dois.
Depois escreveste no papel, sorriste, o aviso. Depois o silêncio na cordialidade simpática, o dever a par da curiosidade simples na conversa leve. Depois era tempo que se fazia tarde.

Por onde começo?
Pela "casa de palavras que, um dia, acabarás de ler. Que as palavras te sejam brandas".
Por onde te deixei ficar, a meio do fim.

Como te conheço?
Nas "páginas de homens e mulheres da terra,
de anjos e demónios do céu".
Nas palavras que os meus olhos decidiram que serão poemas, as tuas.

Como posso acabar?
Na sorte do papel esquecido, um poema para ser lido?
Guardei-o para me guardar.
Como posso senão acabar
Na ternura das coisas mais simples,
Que os meus olhos encontram rendidos.
E amar.

Évora, 21.03.2007
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Segunda-feira, Março 19, 2007

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Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andresen

(para LR)
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Quinta-feira, Março 15, 2007

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...and
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.........now
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................for
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......................something
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.....................................completely
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.....................................................different
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Quarta-feira, Março 14, 2007

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Segunda-feira, Março 12, 2007

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duas partes

E descobri-te, estavas por detrás de ti mesmo.
E floresceu a luz que transpôs a tua aparência.
Repulsa que afastei de vez.

Um eclipse, ao contrário.

Encontro inócuo, o primeiro.
Sem força de tracção até ao teu lugar, nada.

O reencontro, a surpresa, o brilho.
(na aparência está o engano do preconceito)

Ficámos os dois, conversámos os dois, vi o eclipse invertido, soube-me bem respirar este novo ar.
Estava na tua atenção generosa, quiseste mostrar-me alguma coisa, ali, qualquer coisa importante, aprendi.
Estranho como se aprende assim, em tão pouco tempo partilhado.
A tua voz era baixa, suave. O olhar o dos sábios sem ostentação. Raro.
Um encontro em duas partes, só a última me interessa.
Só esta conta.

E ao de leve sopraste-me as tuas palavras, o som embateu no que estava adormecido, inexpugnável.
E revelaste-me.
(inúteis, tanto, as suposições)

Vou guardar a segunda parte, saboreá-la um pouco mais.
Porque invulgares são os eclipses ao contrário no meu firmamento.
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Sexta-feira, Março 09, 2007

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(deste gostei. gostei bastante até. o filme é muito violento, as personagens são quase todas feias, porcas e más, sente-se o cheiro a sangue em algumas das cenas, uma das minhas actrizes favoritas entra nele, há um enredo de faca e alguidar entre irmãos, não há heróis, ou quase.. deste gostei. e a banda sonora, e as imagens daquela Austrália árida e bela ao mesmo tempo..um mimo.)
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Quinta-feira, Março 08, 2007

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Terça-feira, Março 06, 2007

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(Lampard Pop Art)
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Segunda-feira, Março 05, 2007

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antecipação
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as almas que abandono tristes
os beijos que não deixei roubar
as palavras que esqueci de dizer
os abraços que não consegui dar

os sonhos que nunca sonhei
as coisas que não quis partilhar
os encontros que não procurei
os amores que não soube amar

os dias que não vivi
as plantas que não cuidei
as horas que apenas fiquei
os sorrisos que não sorri

os amigos a quem desencantei
as paixões que não deixei crescer
os momentos de que me fartei
as viagens que não pude fazer

as canções que não quis escutar
os livros que ficaram por ler
os desejos que não deixei escapar
as mentiras que me ouvi dizer

os gestos que não suportei
a intenção que nunca deixou de o ser
o silêncio que não te dei
os olhares que não quis entender

E o desejo,
o desejo último

E o saber,
esse saber
(do fim)

Salvam-me as folhas dos plátanos,
descem na brisa que me procura.
E eu estarei onde me encontro
com a espuma das ondas,
Na cor do entardecer.

Évora, Março 2007
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Sexta-feira, Março 02, 2007

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Se a música nos salva da infelicidade, cantar em dueto com outras raças, com outras gentes, a nossa canção, pode salvar-nos das trevas.
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"The introduction into my life of another race, essentially different from mine, in Africa became to me a mysterious expansion of my world. My own voice and song in life there had a second set to it, and grew fuller and richer in the duet."
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in The Shadows on the Grass, Isak Dinesen (Karen Blixen), pp. 4-5, Penguin Books, 1984.

Quinta-feira, Março 01, 2007

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(e ficava sob as tuas folhas até que o vento me sussurrasse o sonho desse lugar...)
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Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

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"Pertenço a uma linhagem de mulheres à janela, pertenço à terceira geração. A minha bisavó é um caso à parte: nunca estava sem fazer nada, cosia - junto de uma janela, é claro, para ter luz, mas sem quase erguer os olhos - (...) A minha avó sentava-se de tarde na sua poltrona preferida, onde podia estender as pernas, e olhava pela janela. Tinha sempre um tricô no colo, um livro no braço da poltrona, mas ficava ali durante muito tempo sem se mexer, sem pestanejar. Nos últimos anos, talvez esperasse com efeito pelo seu cavaleiro fiel, por aquele Princípe Pudico do Audiovisual que devia, daí a umas horas, entrar pela clarabóia como fazem sempre e por toda a parte os Romeus deste mundo. Mas também acredito que, à sua maneira, ela reflectia - na vida, no amor, em nós -, refazendo a história.

Depois vi a minha mãe esperar por André ou espiá-lo por detrás do reposteiro como princesa na sua torre, não ficava ali muito tempo, ele chegava (...) transpondo todos os obstáculos como o filho do rei abrindo caminho pelo meio dos silvados da floresta encantada, ela abandonava a janela para o acolher no alto das escadas, já não havia vidro, então, nem ecrã, mais nada. Ora, escreve Balzac para explicar o amor que o André inspirou à minha mãe, «na natureza como no mundo das fadas, a mulher deve sempre pertencer àquele que sabe chegar até ela e libertá-la da situação em que enlanguesce».

Quanto a mim...Eu, dava tudo por uma janelinha. Ah! dêem-me o canto de uma janela, ah!, deixem-me ficar de pé com o nariz de encontro ao vidro como uma criança à espera da mãe, dêem-me esse tempo! - Que estás tu a fazer? perguntava o meu pai quando dava comigo assim sem fazer nada (provavelmente a pensar no príncipe encantado, também ele, mas sem lhe ver encanto algum...). Que estás tu a fazer à janela? - nada, respondia eu afastando-me, nada.
O que estou a fazer? A fabricar sonhos, pai, a fabricar um sonho, sem parar. O que faço aqui? Amor, faço amor, não faço outra coisa!
«A natureza de uma mulher, escreve Edit Wharton, é semelhante a uma casa grande com muitas divisões [...], e no quarto mais recôndito, o santo dos santos, a alma está sozinha à espera de um ruído de passos que não chega nunca.»
O objecto da espera, podemos chamar-lhe o príncipe encantado, se quisermos, por piada, a fim de reduzir o sonho à lenda e remeter a mulher para a infância. Mas não é isso. Do que a alma está à espera nesse quarto, e o corpo colado à janela no canto mais recôndito, não é de um príncipe, mesmo encantado, não, é de passos, do ruído de passos - não de um homem que anda, mas do eco de um andar, não do homem a chegar, mas dos passos que não chegam, até ali, até ela, à escuta - não até mim, este não que tudo me opõe, não te amo, não posso, não sei, estes passos que não chegam nunca, nunca lá chegarei, estes passos que me abandonam, será isto razão para deixar de estar atenta? Procede-se da mesma forma com os poemas e os romances? Que se faz senão esperar o que nunca acontece - a forma pura, a inspiração divina, a palavra certa? uma coisa que se possa agarrar sem destruir o desejo que se tem dela? - Que estás a fazer? dizia o meu pai. Estás à espera de quê...ou de quem? - Não, pai, não estou à espera de ninguém, não pretendo nada, não estendo os braços a nada, debruço-me sobre o nada, espírito, corpo, nervos: nada de passivo na espera, é uma tensão, uma atenção - esperar, é procurar -, tendo para o terno e o atento, é uma coisa que não tem nome, diluo-me na paisagem, no vidro, na transparência, passo para trás do espelho, do reflexo, da vaga, está do outro lado o que eu quero, ainda mais longe, ainda...O que uma mulher quer, pela sua natureza, é isto: um além, um horizonte, um vazio ou um deus para além da linha onde se separam o céu e a água - em amor, as mulheres têm mais a ver com a religião judaica: o deus delas ainda não veio. Mas não são só as mulheres, vamos lá, também há homens (são da mesma natureza). (...)

Eis a razão porque não se devem afastar as meninas das janelas nos manuais escolares, mas pôr lá os meninos - porque o rosto à janela, é o sonho, é a arte e é o amor: nem a prisão, nem a ociosidade, não, pelo contrário, uma actividade rica de futuro - uma prática livre do impossível.
Contudo, é claro, o objecto real existe - objecto de amor, objecto de arte: há pessoas que amamos, tal como acabamos por escrever livros. Mas, dirão, que pode fazer o homem amado nesse quarto de mulher onde ela está sozinha, em busca de quê, de quem? Pois bem, pode estar com ela, sozinho com ela, a sós. Amar uma mulher, amar verdadeiramente uma mulher, talvez seja apenas acompanhá-la na sua espera - não acreditar que se é o objecto de todos os seus desejos, aquele cuja vinda pode satisfazê-la, 'não procures mais, sou eu', também não pensar, por oposição, que é estúpido esperar, que é vão, esse movimento em direcção a nada, um feminino irrisório, um sentimentalismo idiota, que não existe, esse deus escondido, esse príncipe. Não, ficar ali simplesmente, no respeito da espera e da vigilância, saber que se é para ela a árvore e não a floresta, a árvore em que ela pintou um ponto de referência tendo em vista um longo, longo caminho, o marco, a moita, um tronco - uma paragem, um arrimo, um repouso, um refúgio antes de prosseguir essa longuíssima espera, essa demanda sonhadora, esse descaminho; dançar com ela em volta desse ponto, a janela, a ponte para o horizonte, o outro, o além, abraçá-la sem a apertar, abraçá-la sem a asfixiar com ciúmes e censuras, junto dessa janela. O amor é então como o poema, um sopro em torno de nada, o beijo do vazio para o qual se estendem os lábios, essas letras que o dedo desenha no embaciado do vidro, esses sinais para escrever na janela o nome de quem não chega nunca."

in O Amor, romance, Camille Laurens, pp. 136-139, D. Quixote, 2004


http://www.evene.fr/celebre/biographie/camille-laurens-3664.php

http://fr.search.yahoo.com/search?ei=ISO-8859-1&fr=cb-eve&meta=vl%3D&p=Camille+Laurens

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

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and the Oscar goes to..



Martin Scorsese!
Merecido, todos o sabem, já de há muito...( O Touro Enraivecido, pá, esse é que tinha sido justo!)
A surpresa: melhor filme, The Departed. Mas se calhar 'bate' mesmo Babel, o filme que dividiu público e crítica..

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

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[passaram 20 anos. fazes-nos falta. ainda. sempre.]


Fui à beira do mar

Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia
Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia
Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo


Zeca Afonso

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

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Às vezes, o bater
do meu coração é tão veloz
Que penso que tenho
de viver mais
depressa
para não o perder.


21.02.2007
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Neon Bible

As 5 músicas que já pude ouvir do álbum novo dos Arcade Fire, são muito boas. Sai a 6 de Março. Há um site onde eles colocaram as letras http://www.neonbible.com/readme.html. A No Cars Go já me deixou rendida. São uma das minhas favoritas, são muito bons, são criativos, são muitos e dão grandes concertos. Até em igrejas. Têm de voltar, alguém tem de os trazer de novo. Há coisas que não podem passar-nos ao lado. Não podem.
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Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

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timbres

E eu escuto-as. Estou sozinha, sentada em frente a elas. E consigo ouvir as conversas, saltitam céleres, alegremente por entre o grupo. O meu silêncio só é possível quando o procuro em lugares especiais, ali, sou forçada a ouvir as suas conversas. E subitamente, as palavras fralda e filhos soam num timbre vivo, despertam-me a atenção. Pergunto-me da razão de não falar de fraldas e filhos pelos cafés, porque não estou ali sentada, com elas?
É uma estranha em frente a elas, sentada, distante delas, do seu universo feminino, não sabe se sente orgulho ou tristeza. Ou sequer se terá de sentir alguma destas duas...não sente orgulho ou tristeza. Não sente. Apenas uma leve ponta de satisfação, passageira. Como se a caneta, e o papel gasto, o chá e o livro encostado na chávena, bastassem. E o seu timbre silencioso soasse vivo, também.

15.02.2007

Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

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Hurt

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of shit
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end

You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

[ a versão (de novo, ouvi há pouco) do Sr Cash - god rest his soul - é qualquer coisa....mas ao vivo, cantada pelo autor, foi qualquer coisa mágica ]
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Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

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o meu amor é...





GRANDE.

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

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NINE Inch NAILS
10.02.07 concerto n.º 1 em Portugal



Belo concerto! Vá, tenho de ser justa...um grande concerto!!
O som um pouco mais alto - e melhor - e algumas projecções (pensava que o fariam) e tinha sido perfeito!! Não houve encore, mas, acabar com Head like a hole foi fantástico! O público vibrou, foi um final em grande. A Hurt enfeitiçou-me, linda...
Estes senhores são bem bons ao vivo, sem paragens, e se tocam, caraças!!..
Detalhe: os candeeiros/lâmpadas por cima deles! Cenário minimal, senti ali o espírito Trent Reznor=NIN. Dói-me o pescoço de o abanar, cuspi a minha força:)
E soube a pouco, ao fim de tantos anos à espera..

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

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the joke




["...o primeiro de uma série de desenhos de grandes dimensões desenvolvida a partir das fotografias oficiais de cimeiras do G8. a imagem corresponde a um pormenor ampliado."]
Nuno Ramalho


Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

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Sónia

Tenho saudades tuas. Há anos que tenho saudades tuas. Mas de vez em quando elas são mais fortes, mais sentidas. Hoje voltei a pensar em ti. Lembro-me sempre do teu sorriso, do teu último sorriso, naquele dia fatídico e triste e cinzento e chuvoso (ainda menos gosto da chuva que nos cai em cima desde então), aquele dia em que te perdi para sempre, depois de um último abraço, depois da nossa última conversa de que só eu guardo memória. Tenho saudades da tua ternura, da tua doçura, do teu olhar meigo. Tenho saudades de seres a minha grande amiga nestas paragens, de me abraçares, dos carinhos e das festas no cabelo, às vezes só de olhares para mim...tenho saudades de estares perto e de me apoiares com as tuas palavras sinceras. Hoje voltei a sonhar. E lembrei-me da tua família, da tua mana linda. De como me senti quando nos reencontrámos, como se tivesse abalado toda a gente só com a minha presença. Talvez isso me tenha feito recuar, parar...porque me tinha proposto a uma coisa e nunca o fiz. Hoje acordei e pensei nisso. Nas coisas que não fazemos e deviamos fazer. No amor que não partilhamos... E como tu sabias fazê-lo bem amiga, como sabias amar e mostrar-nos o teu amor, nesse jeito dengoso e especial, que tanta gente não tem mas tu tinhas. E quem te conheceu e foi teu amigo, sabe bem do que estou a falar, não há aqui exageros ou mitificações, eras assim. Como poderia não ter saudades? Como posso não sentir-me mal quando penso naquilo que devia fazer e não tenho feito?

O primeiro dia, o primeiro momento em que nos vimos, quando chegaste atrasada, com o cabelo molhado, e te sentaste paralelamente a mim, mas longe, que a sala era enorme. Entraste, cabisbaixa e embaraçada e tentaste não dar nas vistas....mas olhei para ti e sorri, achei um piadão ao cabelo molhado e ao ar meio aflito...de tal modo que foi a única vez que te vi um sorriso amarelo, quando olhaste na minha direcção. O primeiro, de dois únicos desentendimentos, mal nos conheciamos ainda, foste a correr em lágrimas para o quarto, quando te repreendi por não teres comprado os bilhetes que te pedi. Nunca mais te esqueceste disso, e quando alguém nos conhecia, contavas a história a sorrir para mim, fingindo um ar meio chateado, referindo o quanto eu fora bruta, e acabavas com a parte em que eu lá acabara por ir ter contigo ao quarto e te tinha pedido desculpas, admitindo a minha exagerada reacção. No fim rias, olhavas para mim com ar cúmplice e surgia logo ali um gesto meigo na minha direcção.
Sabias perdoar na medida da tua generosidade e amor, e isso era - a par da 'magia que encantava' a nossa amizade, reflectindo um entendimento quase perfeito - o que te tornava especial aos meus olhos.
Como poderia não sentir saudades?

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

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mas que filme tão saboroso!..
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Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

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Contrariedade

Sonho: a tua afirmação - não sei quem tu eras, não me lembro de ti - deixou-me asfixiada. Ouvi-te, calada, séria, demasiado séria...quando acabaste, e os outros ficaram calados enquanto observavam e os seus olhares confirmavam a tua opinião, eu aproximei-me de ti. Estava chateada, sentia que não era justo, que não era verdade. E eu sabia que não era justo, que não era verdade o que dizias. Era apenas a tua opinião. E quem eras tu - sim, quem julgavas tu que eras para afirmares com aquela convicção a tua verdade? - para rebateres um facto, quando esse facto escapava ao teu conhecimento? Era apenas a tua opinião.
Olhei-te. Foi o olhar mais frio e agressivo que posso ter, que podia ter tido, e disse-te que não concordava contigo. Aproximei-me demasiado da tua face. O meu olhar quase tocava o teu olhar, e cuspi-te a minha fúria. Apenas porque me contrariaste. Apenas porque eu sabia mais coisas do que tu mas não conseguia dizer-tas. Apenas porque me contrariavas, porque não sabias tudo, porque era a tua opinião. Ainda tentei. As palavras sairam-me duras e desastradas. Tinhas-me contrariado, o meu conhecimento de todos os factos. Era para eu te ter contado e explicado tudo, bem explicado, calmamente, observar-te mudar de expressão enquanto o fazia. Ver aparecer-te no rosto, a clarividência que te faltava. Não estavas a par de todos os factos. Mas isso não aconteceu. Não consegui.
"Ele era bom, ele sabia bem o que fazia, o que escrevia, como entendia tudo aquilo para além dos outros, para além do comum dos mortais. Ele interessava-se apaixonadamente". Era o que devia ter dito.
Ele sabia. E eu sabia o que ele sabia, o meu amigo. Mas tu não. [e eu não conseguia explicar-te isto. eu tentei, e fi-lo da forma mais irritante, mais despropositada, mais incoerente e irracional...vencida pela fúria de me teres contrariado]
E ele sabia explicar todas as suas escolhas, e tinha sido tudo bem feito, nada perfeito, nem precisava. Ele era bom naquilo, e tinha corrido bem. Bastava tentar explicar-te pausadamente e sem medo que não aceitasses ou compreendesses a minha explicação, os meus argumentos. Talvez fosse o suficiente.

E de repente, afastei-me de mim e olhei-me. Ali, encostada a ti, de frente para ti (mas quem eras tu? a tua cara não era importante, eras apenas alguém a contrariar-me), como se quisesse engolir-te inteiro com a minha fúria. E fiquei perplexa, chocada, quase. Percebi. Claramente, percebi.
E tu não tinhas culpa, e eu não tinha culpa. Era apenas assim, era claro agora. Entendi tudo.
Invadiu-me uma angústia maior do que eu, maior do que aquilo que eu era. E acordei.

Facto: seriam 6 ou 7? Não sei ao certo a idade. Também não importa. Era muito nova. Demasiado nova. Mas era concerteza cedo, demasiado para ser apenas fruto de qualquer condicionamento externo. Correria no sangue?
A discussão familiar foi grande, terrível, na medida dos anos que separavam a minha da tua idade. Não recordo o motivo, não me consigo lembrar. Só recordo a imagem, essa imagem gravada, lembrada sempre.
Fechei-me rapidamente na casa de banho. Furiosa. Orgulhosa e magoada. Fechei-me durante horas na casa de banho e não deixaste ninguém ir lá. Porque raio haveria alguém de ir lá, se eu não podia sobrepôr a minha à tua vontade? Só me restava encurralar-me no forte, trancar-me para que ninguém entrasse, para que não me seguisses. Só podia ficar ali horas e horas para fazer valer a minha posição. E a minha posição só podia ser a de mostrar que não gostava de ser contrariada. Quando me sentia com a razão. O estranho, e engraçado, é que a imagem que guardo na mente é a porta do lado de fora, eu fechada lá dentro. Como se afastada e a olhar para a porta comigo lá dentro, do outro lado. Como se sonhasse e me visse ali e aquilo, aquela imagem, esta imagem, fosse o facto. E o facto é que eu estava lá dentro, fechada, e a única coisa que devia ver era o espaço de dentro, os azulejos, o chão, as loiças, a janela..não sei porque a imagem que guardo é a da porta, do lado de fora.

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Quinta-feira, Janeiro 25, 2007

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saudade..



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Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

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Transgénicos fora do prato?

O tema de discussão de hoje na RDP Antena 1, é sobre a questão dos produtos transgénicos.
Das participações em linha (biólogos, engenheiros agrícolas, produtores agricultura biológica, políticos, professores..), são praticamente todas unânimes em relação ao facto de esta ser uma matéria sobre a qual há ainda muito poucos estudos sobre os efeitos não só na Natureza, como no ser humano.
Mas levantam-se questões como a da produção de sementes transgénicas ter por trás grandes empresas e interesses económicos vastos; a sua produção levar ao surgimento de sementes resistentes à aplicação de herbicidas - permitem que mais produto seja aplicado, logo, levam a um impacto maior e mais negativo sobre os solos e sobre o ambiente; a questão de estas sementes não poderem voltar a ser 'usadas' (sementes terminator) ou seja, perdem o seu poder germinativo, o que em extremo poderia levar à extinção do processo natural de 'reutilização' das sementes (método milenar e natural, depurado pelo Homem) e consequentemente levar ao aumento da dependência dos agricultores em relação às empresas que colocam as sementes de transgénicos no mercado, ou seja, ao aumento das suas vendas e lucros; a questão da falta de rotulagem nas rações que são dadas aos animais, sabendo-se hoje que 95 % desta produção de transgénicos é canalizada para estas rações e outros produtos sem rotulagem (apesar da resistência dos consumidores nomeadamente na Europa, a estes produtos, a sua produção tem aumentado, para onde vão?) e nem sequer há legislação que obrigue à rotulagem destas rações, o próprio produtor não sabe o que vem dentro do saco...isto leva a que a carne nos supermercados, talhos, etc, também não contenha no seu rótulo, a origem das rações do animal, pelo que não sabemos se estamos a comer carne e até derivados do animal (leite, etc) que acabam por ser alimentados com/conter transgénicos; falou-se da questão da falta de estudos e informação sobre o que acontece a estes animais que são alimentados com transgénicos; há um testemunho que defende a sua utilização e cultura, nomeadamente porque aumenta a produção em 2 a 3 vezes mais que na cultura de sementes normal, precisamente por serem sementes mais resistentes a pragas (contraria de algum modo o testemunho do colega engenheiro agricola que diz que estas sementes são resistentes aos herbicidas, tendo de ser este utilizado em maior quantidade) e que os agricultores têm direito a lucrar com o que produzem, porque a agricultura é neste momento uma indústria; um professor universitário contraria a engenheira zootécnica que afirmava não existir na rotulagem a origem das rações, ao afirmar que estas são rotuladas, sim; enfim...há contrariedade e dúvidas, há falta de informação credível, há pelos visos falta de evidências sobre esta matéria. Mas em caso de dúvida, há a precaução. Se ainda não há certezas - de repente lembro-me (pelo que de humano se revela nesta tendência de nos dividirmos quase sempre em duas facções) da questão do aquecimento global, com os 'cépticos' que afirmam ser um fenómeno normal da Natureza, e os que afirmam ser contribuição da actividade humana, estes em maior número, ainda que em relação a esta matéria as evidências estejam à vista - e se ainda não existem estudos suficientes sobre os efeitos dos transgénicos na nossa cadeia alimentar, ficamos na incerteza. Mas o melhor é precaver-mo-nos. Vou ficar a ponderar como fazê-lo, dentro das minhas possibilidades... Entretanto, pode ser que daqui a 20 anos, descubram que o milho das pipocas e a soja transgénica das rações das vacas, sejam a causa do meu cancro no estômago. Ou não.
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Terça-feira, Janeiro 23, 2007

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frase

"É muito diferente passar a adolescência a fazer coisas de que se gosta do que andar perdido sem saber do que se gosta"

Paulo Pinto, actor, Artistas Unidos
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Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

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[hoje, deixo espaço para a crónica do meu querido amigo Tomaz, longe de nós há três anos, e que versa sobre esse imenso Rio, do Brasil, na sua forma inspiradora de sentir a realidade. Obrigado Tomaz, por aceitares o meu convite]
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O murmúrio do Setentrião.....ou a estranha latitude do imenso verde dilacerado

Rio de Janeiro, 18 de Janeiro de 2007.

Este é o prenúncio de cada manhã, nesta terra estranha, tão longínqua e em simultâneo, tão próxima de mim.
Sou mais um desses "passarinhos urbanos" que como cantou Chico, "chacoalham no trem da Central". Este comboio, que me leva à viagem infinita das faces e da poesia nelas. Umas vezes poesia triste e outras poesia alegre da existência. A lei de um quotidiano.
Venho de um dos muitos subúrbios de um gigantesco subúrbio, de uma gigante metrópole onde cada vez mais, a alma é um bem tão mais precioso que o corpo e a vida em si. O único bem que nos resta para que o samba da violência não nos retalhe, como a mais um, que virá amanhã nas parangonas do jornal matinal "encontrado pela bala perdida".
Aqui no doce encaixe das verdes montanhas que encontram o mar, nesta terra a quem um dia chamaram "Cidade Maravilhosa", me encontro. Rio de Janeiro.
Todas as manhãs, cruzo-me com essas personagens que são os figurantes do filme que protagonizo. Aquele velho doido que vende os pães e o café numa garrafa "termo" e que com um relógio/termómetro na mão, diz no seu pregão: "Salvé guerreiros da luta, vocês são o coração deste povo...Têm ainda pão....Um real...têm ainda café... São oito da manhã, 27 graus tá marcando". E aquela figura é a imagem desta terra, da bondade e da irmandade entre pares, da loucura sã de procurar a alegria na sobrevivência. Porque aqui todos somos irmãos de miséria e virtude. E todos temos mais o sentido do que é realmente a igualdade.
No comboio, encontro os rostos da Baixada (Baixada Fluminense - área periférica a norte do Rio de Janeiro, um conjunto de cidades e bairros, marcados pela profunda pobreza e violência), encontro aqueles batalhadores de 300 reais/mês (aproximadamente 100 euros), que trabalham sem descanso semanal de Domingo a Domingo, para alimentar a prole numerosa. Aqueles rostos levam um sorriso triste de uma eterna esperança. De uma convicção que Deus é o único amparo.
A morte aqui não é pranteada como aí,...a morte é apenas o fim do inferno em que tantos vivem. E a morte, buscando o fundo antropológico africano, é um renovar de esperança para os que ficam, mais mesmo que a saudade que acaba permanecendo.
Na saída do comboio, na velha Central do Brasil (estação principal de comboios do Rio), fervilha em bulício o movimento da mole humana.
Cada um no seu caminho, cada um no meio dos restantes. Os "camelôs" (vendedores ambulantes) vendem tudo o que se deseje. Vendem carga roubada, contra-feita, sem factura, esperando que os Guardas Municipais ou os seguranças dos comboios, não "façam o rapa" (expressão que significa carga apreendida).
À distância da esquina próxima, aquele carro-patrulha com aqueles vultos cinzentos (a Polícia Militar do Rio usa fardas cinzentas escuras), perscrutando qualquer movimento anormal. Vigiam-nos na sombra, com aquelas armas de assalto temidas. A visão do 7,62 ou do M-16 é incomodativa, mas já habitual (7,62 e M-16 são as armas de assalto usadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, de grande alcance e muito poder destrutivo). Os rostos dos polícias, sempre tensos. Aqui, morre-se por se estar vivo. Morre-se das balas dos polícias e das balas dos bandidos. As balas matam igualmente, sem distinção. As balas não matam sozinhas, são disparadas e tantas vezes com tão pouco critério.
A cada espaço intercalado, surgem montanhas, que perdem cada vez mais o verde que as cobria desde o início dos tempos. Hoje, cada vez mais crescem aquelas "colmeias" de tijolos e cimento forçado, a que chamaram um dia de "favelas". Ali, talvez seja onde resta a primária nobreza, o "sangue bom", a raiz e ritmo de um povo. Ali também, é onde a sociedade relegou os seus filhos mais desfavorecidos, para a pobreza, a marginalidade e a violência. São Carlos, Providência, Dendê, Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Rocinha, Vidigal, Juramento, Andarái, Macacos, Kerosene, Rebú, Salgueiro, Mangueira, Tatuí, Congonhas, Acarí, Manguinhos, Jacarézinho, Fubá, Chacrinha, Cidade de Deus....estes são alguns dos nomes da ignominia.
São os nomes onde a vergonha de cada um de nós marca, no passar dos dias, o destino de tantos inocentes.
As favelas, onde esses trabalhadores sobrevivem e lutam sem assistência dos mais elementares serviços básicos - sem saneamento, sem educação, sem justiça, sem pão, sem paz -, onde riem e cantam o seu samba choro do dia-a-dia.
Brutalizados por uma máquina policial, que entende que acantonar estas "pessoas de bem", e vivendo na encruzilhada da sua pobreza, reféns dos soldados do tráfico de droga (que acabam mortos e presos, com nunca mais de 20 anos) e que paradoxalmente acabam sendo os benfeitores da comunidade, pois eles são os únicos que suprem a necessidade de consultas médicas, de obras em casa e transportes das comunidades.
As favelas e seus filhos, no limbo do frágil equilíbrio entre bandos criminosos — um bando ao serviço de uma lei que nunca defendeu os seus cidadãos e outro bando que usa estes "filhos de um deus menor" como escudo, e onde poderosos e ricos acabam sendo os beneficiários de um esquema vil, onde mais pobreza e ignorância garantirão o eterno ciclo de uma sociedade que vive sob o signo da desigualdade "genética".
Os filhos nobres da "favela", estão vetados a ser invisíveis, até ao dia em que em qualquer assalto desesperado,"dura da polícia" (expressão que significa repressão policial arbitrária), ou bala perdida na troca de tiros da invasão à favela, os atire para as páginas dos jornais como corpos banhados em sangue jazendo no asfalto, ou irremediavelmente algemados, a caminho de Bangú (presídio estadual do Rio de Janeiro).
Nas nobres praias da cidade, passeiam-se os que estão na outra amplitude desta insanidade, a obscenidade da riqueza, que os mantém reféns do medo em seus condomínios de altíssimo luxo e carros importados blindados.
A solução segundo alguns, seria aplicar a pena de morte. Eu acho que a única pena de morte que devemos aplicar, é a morte de um sistema que cliva uma sociedade, onde os ricos justificam a sua riqueza desde os tempos coloniais portugueses, com um trabalho escravo desses que vivem nas favelas e em subúrbios podres da Baixada.
Aqui há também o samba, fervilhante, e a sensação de que a "vida é só um dia, mas o Carnaval são três...".
O Rio é a terra fértil de onde esses escravos bantos, trouxeram os batuques e repiques, e onde a harmonia dos nossos cavaquinhos gerou o samba. O samba que se universalizou, mas que se fez e faz de lágrimas e sacrifício, para que aquela alegria "que acaba Quarta-Feira" seja a catarse de tanto sofrimento que se acumula.
O meu subúrbio, Campinho - Madureira, com as suas escolas de samba, a Portela, o Império Serrano e a Tradição, é o berço do samba e da "malandragem" carioca.
É arrepiante sentir como se constrói aquele espectáculo, desde o início...e aqui o samba é coisa muito séria.
"Negra é a tristeza da despedida na avenida" cantava o imortal Cartola, espelhando que é triste o fim do Carnaval, quando a Avenida Sapucaí, onde fica o Sambódromo, se fecha e diz um "até breve" com um ano de interregno. E o ciclo repete-se e repetir-se-á.
O Rio é também, a cidade onde aquele esplendor colonial se reflecte de maneira soberba. A obra portuguesa nesta cidade, é maravilhosa. E as igrejas e monumentos emprestam a solenidade que só as grandes cidades podem ter.
Ali, onde descobrimos as razões de uma cidade maravilhosa, quando o sol nasce na baía da Guanabara juntinho ao Pão de Açucar, ou quando o Cristo Redentor, abraça toda a gigante cidade lá desde o alto do Corcovado. Sou particularmente apaixonado, por essa parte da cidade, o Cosme Velho, as Laranjeiras e o muito romântico Largo do Machado, memória espacial viva do lugar de predilecção do grande Machado de Assis.
O Rio é o futebol e aquele imortal Maraca (estádio Maracanã), onde os deuses do futebol marcaram tantos momentos para a posteridade.
Onde o "anjo das pernas tortas", o grande Mané Garrincha, driblou a própria vida, acabando andrajoso e alcoólico, como alguém que desafiou os deuses com o seu talento. Onde milhões de brasileiros, choraram em 1950, a amarga derrota para o Uruguai. Onde Zico, no seu jeito "galinho", encantou. Onde Pelé, fez um golo que tem uma placa que assinala o momento único desse mesmo golo.
O Rio é a terra, onde em qualquer rua, crianças jogam descalças e soltam papagaios de papel, que aqui se chamam "pipas".
O Rio é seguramente, o melhor e o pior lugar de viver, porque a nostalgia e o presente, são dois tempos diferentes e inconciliáveis e quando se perderem os últimos motivos para que o "canto carioca" se solte, aqui o inferno estará à mesma distância do paraíso. Este lindo paraíso......

Um abraço e saudades enormes do meu país, da minha gente, de todos os meus lusitanos amores.

João Tomaz Rodrigues

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

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O que é a vida?

O poeta grego que comparou o homem às folhas que não duram,
quando o inverno lhes roubou a esperança de viver de acordo com
os seus desejos, não saiu esta tarde para o campo, nem viu o
corpo que se interpôs entre o sol e os arbustos, ofuscando
o céu com a sua brancura de nuvem primaveril. Perguntou,
no entanto, de que serve a vida, e para que serve a alegria,
se não existe, para além delas, o horizonte dourado do amor;
e afastou da sua frente o crepúsculo, dizendo que preferia
a madrugada, logo que o galo canta, para despertar com
o próprio dia. Esse poeta, que o pó dos séculos sepultou,
e não chegou a encontrar qualquer resposta para as suas
dúvidas, aconselhou os que o liam a que se divertissem,
antes que a morte os surpreendesse. E lembro-me, por
vezes, deste pedido, ao pensar que a memória de alguém
se pode limitar a uma pequena frase, nem que seja a mais
banal das sentenças, que nos vem à cabeça numa ou noutra
circunstância. Então, o poeta grego continua vivo; e esta
tarde, por trás dos arbustos, ouvi a sua voz no vento que
por instantes soprou, trazendo com a sua frescura o sentimento
que sobrevive a todas as estações de uma vida humana.
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in As Coisas Mais Simples, Núno Júdice, D. Quixote, p. 67
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Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

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WTF??! (II)

estão a gozar com quem?

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Terça-feira, Janeiro 16, 2007

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Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

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o meu ensaio sobre a intransigência ou como um blog pode substituir o divã
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Há intransigências no ar. Nem sei muito bem identificar alguns dos motivos...ainda. Mas sinto-as como farpas, de vez em quando. E lanço-as, de vez quando, também eu. O que me perturba é a possibilidade de as mesmas terem uma origem simples e até básica, de explicação fácil: somos com os outros aquilo que somos connosco, não gostamos nem permitimos nos outros aquilo que em nós não está bem? Fico com a dúvida, que isto até a mim me soa a 'receita' de livro de bolso de psicologia para iniciantes, mas não tenho pretensões a aprofundar científicamente certas questões. Fico-me pela intuição, pela observação, pelo sentido crítico baseado nas minhas experiências e constatações, goste-se ou não, quer eu as assuma plenamente ou não - raramente o faço sem receios.
Com isto, corro o risco de soar a certas pessoas que eu mesma por vezes julgo: as que falam de tudo e de nada sem muitas das vezes saberem bem do que falam, e julgadas por aqueles que agem como se para se abrir a boca neste mundo fosse absolutamente necessário decorar uma cartilha de regras-a-cumprir-quando-se-quer-abrir-a-boca-para-se-falar-sobre-determinado-assunto. Ora aqui entra o paradoxo - está-me no sangue, o paradoxo - sobre o qual discorro: quantas vezes não fui julgada por determinada abordagem minha sobre certa matéria, em que me afiguro como uma tonta desmiolada e precipitada, supérfluamente munida de argumentos, e ainda para mais com ar de quem sabe bem o que está a dizer? Imagino que foram algumas...ainda que não por qualquer um. Outras tantas sucederam comigo no papel da julgadora-mor, da que lança a farpa e a piadola escarnecedora, da intolerante. Podia ao menos não o fazer. Pois se me perturba que mo façam, que me julguem facilmente quando digo uma tolice, um despropósito, uma 'verdade' suspeita sobre determinada matéria, quando tiro uma ilação que só podia surgir desta cabeça, quando me aventuro a discorrer sobre as paixões irracionais que me assolam a alma...Mas também eu o faço. Também eu julgo muitos por isto, e também eu não os conheço na sua essência, e não estou munida de todos os apetrechos para entrar dentro de cada uma das minhas 'vítimas' e poder descobrir-lhes um brilho, os desejos, a sabedoria, sim, tudo isto... porque não? Alguns poderão ser mais do que mostram desastradamente, transportar um enorme coração, uma vontade louca de saberem mais e melhor, um raciocínio que afinal pode ter origem insuspeita, está apenas desalinhado e confuso, uma alegria escondida, um amor latente, uma lucidez e uma angústia de quem é permeável ao Tudo e ao Nada, uma intuição que lhes pode dizer que a felicidade se conquista, em cada dia que passa. Porque não?
Coisa de evitar, o julgamento, que também isso se exercita pela vida fora: a tolerância. Mas que é difícil, é. Que é 'escorregadio', é. Estou em crer que absolutamente necessário, no entanto, para se encontrar uma certa paz.
E uma intransigência, com risco de se transformar em julgamento precipitado sobre outrém ou seu comportamento, pode ser uma coisita simples como uma palavra que se ouve e não se gosta, ou porque [achamos] não se adequa ao discurso, ou porque [achamos] não está ali bem colocada, ou [achamos] porque não fazia lá falta...o certo é que não nos agrada, pode gerar repúdio, primeiro, e até chegar ao escárnio, variando consoante a personalidade de cada um. Com este último vejo, inevitavelmente, surgir a arrogância. Mais um risco. Mais uma desnecessidade. E para quê, afinal? E porquê, afinal?
Uma coisa tenho como certa: não há inocentes na matéria, todos, em alguma altura fomos e somos intransigentes e intolerantes, mas não me permito pensar que não vem nenhum 'mal ao Mundo' se afinal de contas, e ainda que no exercício da sua 'humanidade' como ser imperfeito que é, o Homem não reflectir de vez em quando sobre as suas falhas e as suas limitações.
Simplificando: se tu me conhecesses melhor, se calhar em vez de ironia, oferecias-me flores:) E eu a ti dava-te um beijo e um chocolate:)
Chuac!


Terça-feira, Janeiro 09, 2007

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The good old 80's



não resisti...vi isto e, no contexto em que o vi então...escangalhei-me!! ainda me estou a rir...
rir faz bem
:)

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007

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Energia Positiva e Revolução
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Pois é, de regresso ao trabalho, de regresso ao alentejo.
Uns dias de férias passadas entre Trás-Os-Montes e Lisboa, a comer - muito bem, muito bem, que em Trás-Os-Montes também se come muito bem, e não apenas em quantidade que isso para mim nem é comer 'bem' - e a dormir, a passear, a sornar (sou a pessoa mais preguiçosa que conheço), a ver as vistas, a visitar os nuestros hermanos, depois o regresso a casa da mamã, mais papinha boa, mais sorna, não li muito, só jornais e revistas, fiz comprinhas das boas (cd's e filmes) e menos dinheirinho na conta bancária...viva o consumo, dirão os banqueiros do mundo!Viva.
Entretanto, cá estou de novo a escrever no meu blog, e cheia de inspiração para começar o ano em grande, melhor do que comecei o ano anterior (que foi a trabalhar, muito sisuda e tola como todos os sisudos que stressam com o trabalho, ainda que feito por gosto...) é o que eu quero. Não é o que eu espero, é o que eu desejo. Há uma diferençazita..
Assim que cheguei: inscrição para fazer ginástica! Desta vez foi a sério, já chega de aulas 'experimentais'. E não é que até me cantaram os parabéns?!....Foi estimulante. Sem exercício, também a alma mirra.
Mais decisões? Médicos. Visitar alguns. Há uns aninhos que não o faço, ganhei saudades. À força.
Depois, ler mais. Foi a melhor prenda de Natal, inesperadamente vinda de quem não esperava e de uma forma simpática: A Criação do Mundo, do Miguel Torga, meu conterrâneo. Até fiquei emocionada, aquilo de me terem dado o livro já lido e usado, e daquela forma....foi a melhor prenda. Em troca vou-lhe enviar, ao meu presenteador (se não existe eu depois corrijo), uns cd's.......passámos um serão enfiados numa casa de pedra numa aldeia da qual já nem recordo o nome, no meio dos montes, o que é o mesmo que dizer no 'fim do mundo', esse mágico lugar, a ouvir músicas (Canções!!!) do Adriano Correia de Oliveira, do Zeca, do Sérgio Godinho, do José Mário Branco, uns cantares e músicas tradicionais de recolhas do Giacometti (presumi eu), e ainda me vieram as lágrimas aos olhos ao ler o folheto da caixinha da compilação de 6 cd's do Adriano, e de ler aquele texto magnífico do Manel Alegre, que tempos aqueles caramba!!!
O Verão Quente de 75 recordado pelo meu tio, quando o meu pai teve de me levar em 'férias forçadas', para longe da minha terra natal sob a ameaça de rapto!Hoje rio-me....Os comícios, o dom da palavra do 'Poeta' e pelos vistos cantava também (o que eu me ri, não imagino o meu pai a cantar!), as gentes iradas, os carros em fuga, as peripécias nas aldeias, a tristemente famosa morte do padre Max, as manifestações nas ruas e os defensores do antigo regime atiçados, bem, sempre fui uma atenta ouvinte de boas histórias, e ainda para mais destas, daqueles tempos, em que 'eles' acreditavam que podiam mudar o mundo, e ainda bem...porque mudaram.
Bem, e depois também quero mais paz e boas energias, procurá-las e emaná-las, para aqueles que amo, que gostam de mim, as pessoas mais importantes do meu microcosmos. Aos meus amigos (os de sempre e os novos), que estão sempre comigo ainda que longe, alguns, deixo um enorme abraço, um abraço cá de dentro e sentido, porque sem amigos também não somos grande coisa. Um inesquecívelmente doce e produtivo 2007 para todos!
Para o Mundo, e em particular para os que vivem sem dignidade porque não a podem ter, desejo a utopia de uma Revolução que comece a crescer dentro de cada um de nós, os vivos e pensantes seres deste planeta em perigo. Porque sem sonhar, também não me imagino viver.
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Sexta-feira, Dezembro 22, 2006

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Clássica, clássica, muita música clássica...há 3 dias que só oiço a Antena 2, e a paixão aumenta.
Não sei se do espírito natalício, se de outra coisa qualquer, mas que sabe bem, sabe. Não conheço autores - só de nome e pouco mais - e não sei distinguir as obras, sou uma inculta no que a esta matéria toca, mas....que gosto, gosto. Parece que até o trabalho me sai melhor! E ontem à noite, na Sé de Évora, valeu bem o frio e o desconforto dos bancos só para apreciar meia hora de Haendel e Corelli (porque li..), pela Sinfonietta de Lisboa, que a coisa não deu para mais - lembrarem-se de convidar a Glória de Matos para ler contos de Natal do César das Neves (argghhhh!....) a meio dos excertos musicais, fez-me vir embora mais cedo. E hoje, 'a 2' de novo sintonizada...às tantas vicio-me.
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Quinta-feira, Dezembro 21, 2006

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NIN
10. fev. 07 . lx . coliseu
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[que o senhor que me comprou o bilhete, mo guarde bem guardadinho!:) imperdível!!]
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Sábado, Dezembro 16, 2006

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Gregory Crewdson"Untitled (Beneath the Roses)"2005
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Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

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Arendt (I)

"A vitória do animal laborans jamais teria sido completa se o processo de secularização, a moderna perda da fé como decorrência inevitável da dúvida cartesiana, não houvesse despojado a vida individual da sua imortalidade ou pelo menos da certeza da imortalidade. A vida individual voltou a ser mortal, tão mortal como o fora na antiguidade, e o mundo passou a ser menos estável, menos permanente e, portanto, menos confiável do que o fora na era cristã. Ao perder a certeza de um mundo futuro, o homem moderno foi arremessado para dentro de si mesmo, e não de encontro ao mundo que o rodeava; longe de crer que este mundo fosse potencialmente imortal, ele não estava sequer seguro de que fosse real. E, na medida em que devia pressupor que era real, no optimismo acrítico e aparentemente indiferente de uma ciência em contínuo progresso, afastava-se da terra para um ponto mais distante do que qualquer alienação mundana cristã jamais o havia levado. Qualquer que seja o sentido atribuído à palavra "secular" no uso corrente, não pode, historicamente, ser equacionado com mundanidade; pelo menos, o homem moderno não ganhou este mundo ao perder o outro, e tampouco, a rigor, ganhou a vida; foi atirado de novo para ela, lançado à interioridade fechada da introspecção, na qual as suas mais elevadas experiências eram os processos vazios do cálculo da mente, o jogo da mente consigo mesma. Os únicos conteúdos que sobraram foram os apetites e desejos, os impulsos insensatos do seu corpo que ele confundia com a paixão e que considerava "irrazoáveis" por não poder "arrazoar" com eles, ou seja, prevê-los e medi-los. Agora, a única coisa que podia ser potencialmente imortal, tão imortal como fora o corpo político na antiguidade, ou a vida individual na Idade Média, era a própria vida, isto é, o processo vital, possivelmente eterno, da espécie humana.
Vimos acima que, no surgimento da sociedade, foi a vida da espécie que, em última análise, se afirmou. Teoricamente, o ponto crucial, no qual se deu a mudança a partir da insistência na vida "egoísta" do indivíduo, nos primeiros estágios da era moderna, para a ênfase posterior sobre a vida "social" e sobre o "homem socializado" (Marx), ocorreu quando Marx transformou a noção mais grosseira da economia clássica - de que todos os homens, quando agem, o fazem por interesse próprio - em forças de interesse que informam, movimentam e dirigem as classes da sociedade, e através de conflitos dirigem a sociedade como um todo. A humanidade socializada é o estado social no qual impera somente um interesse, e o sujeito desse interesse são as classes ou a espécie humana, mas não o homem nem os homens. O importante é que, agora, até mesmo o último vestígio de acção que havia no que os homens faziam, a motivação implícita no interesse próprio, havia desaparecido. O que restava era uma "força natural", a força do próprio processo vital, ao qual todos os homens e todas as actividades humanas estavam igualmente sujeitos (...) e cujo único objectivo, se é que tinha algum objectivo, era a sobrevivência da espécie animal humana. Nenhuma das capacidades superiores do homem era agora necessária para relacionar a vida individual com a vida da espécie; a vida individual tornara-se parte do processo vital, e a única coisa necessária era "laborar", isto é, garantir a continuidade da vida de cada um e da sua família. Tudo o que não fosse necessário, não exigido pelo metabolismo da vida com a natureza, era supérfluo ou só podia ser justificado em termos de alguma peculiaridade da vida humana em oposição à vida animal - de modo que se podia dizer que Milton escrevera o seu Paraíso Perdido pelos mesmos motivos e em decorrência de impulsos semelhantes aos que levam o bicho-da-seda a produzir seda."
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Hannah Arendt, A Condição Humana, pp. 389-91

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dúvidas & questões existenciais


ninguém tem de provar nada a outrém. ou será que tem?
talvez a si mesmo
e ainda assim...

com tanta susceptibilidade latente, eminente, emergente e recorrente, ai jesus que lá vou eu!:)
perfeitos, só os Deuses, que do alto do seu Olímpo, sorriem....disso tenho fé inabalável.
E não lhes desenho aqui o sorriso...a imaginação fará o seu trabalho.
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Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

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Sem cor

Cruzei-me com um, de manhã, quando vinha trabalhar. Ontem, cruzei-me com três. A cidade não é grande, raramente são vistos, ou porque são poucos, ou porque se escondem, ou porque não calha..
Vinha a cantarolar uma música qualquer que me entrou no ouvido desde ontem, ainda não a larguei. Nem sei porquê. Ele passou por mim, na berma, olhou para dentro do carro e parei de cantar. Nó.
Olhou-me e senti loucura no olhar. Se calhar nem vive na rua, se calhar tem um tecto, mas não deixa de ser um deles....vi-o claramente, no vaguear. Esqueci-me da música, era daquelas para esquecer, o semblante ficou-me carregado. A condizer com o cinza do dia.
A condizer com a aura dele, quase sem cor.
De manhã, o meu dia ficou sem cor. Rima com dor. Com desamor. A condizer com algumas vidas.


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Quarta-feira, Dezembro 06, 2006

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lisboetas

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Mais vale tarde que nunca...e tarde visionei este documentário de Sérgio Tréfaut (ontem à noite, mais precisamente no Cineclube de Évora, e presente esteve também o realizador), mas muito a tempo de perceber a superioridade da obra, a inteligência do autor, a capacidade de nos mostrar de uma forma profunda e ao mesmo tempo leve, bela, pedaços da vida de imigrantes de origens diversas, habitantes da 'nossa' Lisboa. Tocou-me o olhar, ou os olhares que Tréfaut 'apanha', é conciso e subtil ao fazê-lo e aquelas pessoas são ali expostas pelo seu lado mais humano, porque um olhar diz muito, ou tudo o que as palavras nem sempre dizem. O olhar do ex-piloto de aviões, embargado pela sombra do álcool, pela solidão, o olhar de quem sabe que a vida pode ser mais do que isto mas que é isto que ele tem e não pretende o regresso à terra-mãe, do rapaz que passa a ferro, são olhares que dizem tudo de gente que vem à procura de uma vida melhor e encontra um país que, afinal de contas, e como este último resume, também não é rico.
Há documentários que são filmes belíssimos, e as vidas verdadeiras e as histórias que não são ficcionadas, cabem no argumento deste filme, de Lisboetas que são do Mundo, uma Lisboa estrangeira filmada com inteligência, e um toque poético, perfeito acto de comunicação, pois.

Lisboetas, de Sérgio Tréfaut

POR, 2004, Cores, 105 min.

http://www.atalantafilmes.pt/2006/lisboetas/index.htm

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Quarta-feira, Novembro 29, 2006

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Cafetaria

Olhares cruzam-se na pressa do movimento mecânico, condutor do corpo que desliza em direcção à rua
Lá fora ar fresco, não frio, a face em reconhecimento desenha um sorriso leve, dupla motivação
Outro comum cruzar de olhares, não.
Sim, duas almas estranhas vislumbram-se, naquele momento veloz
Olharam-se

Um olhar
Tão célere quanto o movimento que os levou a cada um para o lado oposto do outro, no mesmo espaço, no mesmo tempo, e os afastou impiedosamente
Um vislumbre, apenas

Não importa a causa
Mas o movimento
prolongado para além do esperado, do convencional
O virar da cabeça dele, acto-reflexo, acompanha o rosto dela
Alma em evasão, escapando-se corajosa, ingénua ao
pensamento ditador - as regras
Audácia num virar de cabeça
desajeitado, infantil, saboroso
[talvez não desejasse parar ali, naquele momento irrepetível, mas perpetuar num ímpeto o olhar, a surpresa..]
Imagem doce
Repetida em flash backs de intenção
Imagem retida
Efémera, na alma.

Novembro, 2006
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Terça-feira, Novembro 28, 2006

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HAPINNESS

So early it's still almost dark out.
I'm near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.

When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.

They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren't saying anything, these boys.

I think if they could, they would take
each other's arm.
It's early in the morning,
and they are doing this thing together.

They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.

Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn't enter into this.

Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.


Raymond Carver
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Quarta-feira, Novembro 22, 2006

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:/
Robert Altman
(menos um dos bons..)
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Terça-feira, Novembro 21, 2006


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des(encontros)


Há encontros casuais e inesperados, repentinos que nos deixam semi-desamparados, a baloiçar entre o que devemos de ser naquele momento e o que nos apetecia mais ser se fossemos sempre aquilo que somos. Ou entre o que devemos de fazer e o que honestamente gostariamos de fazer.
Sob a aparência do "tudo corre bem, está tudo óptimo", este encontro não foi causa de maior transtorno, deixou sim, um sabor de nervoso miudinho a subir-me pelo esófago, ao início, um ligeiro estertor no corpo que foi esmorecendo - ainda fui verificar-me depois, num espelho, à procura das habituais manchas vermelhas mas nada, e pensei, não correu assim tão mal, porque haveria?, não percas tempo com o que não tem importância, para quê essa inquietaçãozinha, se afinal de contas, e contas feitas, a vida continua, o tempo passa (O Tempo Não Pára cantava o meu 'amigo ' Cazuza), zangam-se as comadres, juntam-se os amantes, as andorinhas voltarão aos cinco ninhos daquele beiral, do teu beiral e o sol irá queimar de novo as paredes da tua casa no Verão, a amizade continua a dizer-se como dantes, os dias nunca acontecem iguais mas é quase como se acontecessem, sabes que de quando em vez, alguma coisa surge que te trará alegria, os teus olhos vão continuar a pousar-se nas árvores frondosas e belas que encontras, eles vão continuar a subir, sempre, para o céu curandeiro de todas as enfermas banalidades. Esse céu que é tantas vezes só teu...
"Está tão bonita....sabe, eu gosto muito de si, continuo a gostar.." e aquele olhar é uma mescla de embaraço com emoção, de sinceridade com educação. Aquilo que somos e aquilo que temos de ser. Não correu mal. Porque haveria?
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Quarta-feira, Novembro 15, 2006

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gregory crewdson



> Untitled, da série Twilight, 1998-2002 <
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Alice
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Nunca, que me recorde, vi a expressão da Tristeza tão soberbamente expressa na face de um actor português..num filme português. E já tanto foi dito sobre o filme que me limito a parcas palavras...com uma fotografia intensa e bela (Lisboa azul de desespero e ruído), ficam-me as imagens sublimes da obsessão e da angústia, que é para mim o que este filme consegue de melhor: trazer-me, no silêncio, nos silêncios, aquela inimaginável solidão. O arrepio melancólico na música de Bernardo Sassetti, a osmose perfeita.
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Terça-feira, Novembro 14, 2006

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Children of Men






Depois de ver Children of Men, de Alfonso Cuarón, lembrei-me do filme E Tu Madre También do mesmo realizador, e da distância que marca as duas obras. Esta última eu acho-a belíssima.
Children of Men, ao narrar uma distopia com um sabor a 'é só isto?' que surge no final, depois de cenas de um nihilismo atrofiante em relação a um futuro provável (será?), com revolucionários sem grande moral e uma humanidade perdida na (in)continuidade da espécie, fá-lo com base em alguns clichés dispensáveis é certo, mas trás ali qualquer coisa de perturbadoramente atractivo ao olhar: como se alguém tocasse numa ferida putrefacta, de uma forma que podia ser mais inteligente, é certo, mostrando-nos que ainda se pode curá-la. Ou não? A cena do carro é brutal e muito bem filmada, e Clive Owen, para variar, não desilude nada. 3/5 é a minha nota.
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Segunda-feira, Novembro 13, 2006

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Dans Paris



Duris.
Irrésistible.

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Quinta-feira, Novembro 09, 2006

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O essencial, o necessário, o essencial..

Ontem coloquei a questão a mim mesma: "Vou fazer greve?". E coloquei-a porque não tinha uma decisão tomada, não estava claro na minha mente - como ainda não o está, parece-me.. - se era ou não uma ideia para levar avante. A hesitação está pendurada, é bom que o diga, essencialmente pelo fio do vil metal: um dia de greve é o equivalente a muitos euros em falta no orçamento já de si parco por estes dias. E é um fio forte, este, como se feito de aço.
Depois, bom, depois assolam-me outras ideias, menos práticas, são sobretudo princípios a que eu posso chamar ironicamente de Valores da Razão Não-Prática, e que fazem parte de mim. Não sei se nasceram comigo, se estão por cá à priori, mas sei que em determinada altura da minha vida eles foram crescendo e tornaram-se mais ou menos fortes, saudáveis, pareciam-me.
Um deles é o da Justiça - lutar por aquilo em que acredito, talvez mais até do que isto (acredito que 'as coisas devem ser justas', sempre) é importante para mim (e recorrente) a ideia de lutar por aquilo em que vale a pena acreditar.
O outro é o da Liberdade. A liberdade na escolha, a liberdade enquanto possibilidade de escolher, de optar por uma entre várias possibilidades, acima de tudo esta.
E a Dignidade. Mais um valor especial, talvez o mais importante para mim, pois que um homem pode perder tudo na vida, mas a sua dignidade....bom....a sua dignidade não.
Gostava de acreditar que ainda estão saudáveis, estes valores, dentro de mim. Que isto não anda tudo muito doente cá por dentro...
Como dizia, gostava de acreditar que são saudáveis, dentro de mim, onde cresceram ao longo dos anos espicaçados por um ambiente familiar e social propício, estes valores que admiro, de que preciso, que ainda quero na minha vida. E é nesta fase que surge a dúvida, quando tenho de escolher entre o 'valor' Dinheiro (esmagadoramente irredutível) e estes valores essenciais e tão mais necessários quanto o pão que se leva à boca todos os dias.Porque seria por eles que eu iria demonstrar que o primeiro é um valor de menor importância - ainda que esta demonstração, a forma de o fazer, possa estar moribunda e viciada, ainda é a melhor que conheço e que me oferece esta sociedade onde labuto - quando pressinto que estes estão ameaçados. Porque há muitas formas de um homem se sentir ameaçado e preso, e injustiçado e a perder indelevelmente a sua dignidade.
Amanhã é outro dia, até lá, vou exercer o meu direito de reflexão, vou hesitar entre o essencial e o necessário, e entre o necessário mas não essencial. E que me perdoe a minha consciência se não tiver a coragem para o fazer.
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Quarta-feira, Novembro 08, 2006

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A Estação

Deslocou-se sem pressas, vagarosamente pois. O rodopio em seu redor deixando um rasto de confusão. Mas não estava perdido. Por fim parou. Sentou-se.
Teve medo. Tanto. Deixou-se ficar por ali, só.
Teve tanto tempo. Minutos transformados em eternidade. Tempo de parar, de paragens. Ou, o tempo das ilações concretas.
Gente cirandando. Cheiros, ruído, doçura de um olhar. Desgaste.
Pensou por si, para si. Só, sentado no desconforto da rudeza dos materiais. A ilusão maior que a certeza.
Não teve companhia para compartilhar o espaço que ocupava. Recordou..Fechou-se para o mundo. De olhos semi-cerrados, recordou.
[jamais, naquele lugar se iria sentar..parar.]
O burburinho, o chiar de travões metálicos. Transformações imediatas pela sensação.
Tudo lhe veio. Suavemente. Invasão. Mente cansada e invadida.
Depois, sonolentamente, entreabriu os olhos: angustiante placidez.
E desconcerto.
Mas no seu rosto depressa se desenhou um sorriso suave, quase invisível.
Nunca fora um homem de certezas.
Morreu sozinho sentado na dureza que lhe oferecia o mundo, no meio do som da multidão atarefada, entranhando-se-lhe no corpo.

Morreu no som da multidão.
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Terça-feira, Novembro 07, 2006

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os Joy Divison

"À parte a exploração, a hipérbole e a insidiosa invenção duma 'lenda', os Joy Division merecem a atenção que a sua originalidade exige. Não eram a salvação do Rock, como se apregoava, nem tão-pouco a salvação de nada. E, no entanto, o segundo e último álbum, postumamente editado - Closer - é um trabalho vigorosamente diferente daquilo que costumamos chamar Rock. Para já, é um álbum desavergonhadamente triste.(....) Os Joy Division são impecavelmente trágicos - desde os textos resignados e suavemente desiludidos, até à'morrinha' da sua música. Quase que poderíamos dizer - doem...
Closer é limpidamente belo - tem a transparência silenciosa da solidão, sem nunca se transformar em auto-compaixão ou sentimentalismo. É o momento em que nos damos fé duma tristeza insolúvel, e da futilidade de a combater. Não há revolta - apenas um lento despertar, corajosamente assumido e aceitado. O encanto principal dos Joy Division não é o virtuosismo, ou sequer a criatividade da música - é, sobretudo, uma inesquecível sinceridade, despida de efeitos especiais, que se transmite, dir-se-ia por osmose sensível, a quem a ela se expõe."

in Escrítica Pop, Miguel Esteves Cardoso, Assírio & Alvim
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Segunda-feira, Novembro 06, 2006

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Câmara Clara
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Duas mulheres bonitas, inteligentes, cultas. 'Frente a frente ' que é lado a lado - como elas estão, ao lado uma da outra, ainda que de frente uma para a outra. E isso reflecte-se na cumplicidade dos olhares; muito vivos, atentos, ávidos, simpáticos os seus olhares.
Uma, é escritora e jornalista. A outra é jornalista. Falam enternecedoramente sobre literatura, romances, leitura, leitores, escrita, escritores, criatividade, vida, morte, loucura, literatura. São momentos de pura e emocionante comunicabilidade. Como se uma onda de energia feita disto, saltasse para dentro de quem assiste, vinda do ecrã. Um raio de energia inteligente, feminina. E depois sorrio, quando recordo a frase brincalhona de um amigo que diz não existirem muitas mulheres mais inteligentes do que homens:) Uma brincadeira, é certo, conduz-me mais uma vez ao interessante no universo feminino, nos universos femininos assim expostos....o masculino - esse fascinante universo - já descobri sê-lo, há muito!:)
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Câmara Clara, na 2:, sextas-feiras às 22:30h
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Sexta-feira, Novembro 03, 2006

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playing...under a sheltering sky
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foto: unickymous
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Terça-feira, Outubro 31, 2006


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baloiçar

Impossibilidade que dilacera.
Visceralgia que se instala.
Sem entrar, espreita, a Razão.

E a face esconde-se, no escuro da almofada.
Sonhos que não o são.

Momento em crescendo no cair da noite.
Som que baloiça o adormecer inquieto.
Desprendido.
Doce-amargo, sabor da Ilusão.


Outubro, 2006

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Samnhain
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o fim do Verão..
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Segunda-feira, Outubro 30, 2006

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blue monday
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banda sonora > arizona amp and alternator > 2.where the wind turns the skin to leather
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Quinta-feira, Outubro 26, 2006

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no baú da memória.. para o meu amigo Rui

Metade

E que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que eu amo seja para sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
a outra metade também.

Oswaldo Montenegro

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Quarta-feira, Outubro 25, 2006

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Mareta em Abril I

Ela, lê de costas para o mar.
Como se assim o ruído a não perturbasse.

Ele, sobe e desce pelas rochas. Tem uma picareta.
Está a brincar.

Ela, usa um chapéu e usa óculos.
Ele, move-se, devagar treme.

Ela está concentrada e apanha sol.
Ele distrai-se picando a pedra.

Ela, ali sentada, na areia. Protege-o.
Ele ama-a.

[ Que idade terão ao certo?
O tempo já lhes mostrou umas quantas coisas por aí]

Ele, volta para junto dela, deixando pedras.
Ela ama-o.


Mareta em Abril II

Fazem companhia um ao outro.
Quando o que mais desejam é estar distantes.

Na aproximação não há palavras.
Ali encontram-se no silêncio das suas distracções.

Ele, vai e vem. Ela, não desvia o olhar do livro.
Ele quase resvala pelas rochas. Ela não desvia o olhar do livro.

Quando regressa com as pedras, ele pensa como seria bom ela nem sequer lhes tocar!

Ali, fazem companhia um ao outro.
Não se encontram muitas vezes.


09.04.2005
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Quinta-feira, Outubro 19, 2006

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A Casa dos Livros
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Ontem pela tardinha passei na livraria de uma amiga. A intenção era a de procurar um livro que ela me tinha recomendado há uns tempos atrás, um livro que ela já lera e de que gostara muito. Fiquei curiosa até ontem me decidir a ir lá, e...acabei por ficar mais tempo do que contara. A conversa fluiu, sentei-me num pequeno banco estratégicamente colocado perto de uma máquina de café, de onde os clientes podem tirar cafés fortes por muito pouco dinheiro, e ir ficando por ali a bisbilhotar os livros.
Acabei por comprar outro livro que não o aconselhado por ela, este estava em promoção!O outro ainda vai ter de aguardar mais uns dias. Enquanto falava com ela, sobre coisas da nossa vida, entrou uma cara conhecida...mais dois dedos de conversa. Simpatia a rodos não falta neste espaço...o que faltam são clientes. O que faltam são pessoas que preferem esperar pelo fim de semana, ou pelo fim do mês, consoante o caso, e visitar o gigantesco polvo do consumo cultural, essa tentação que se chama Fnac.
Quando saí de lá, passados 20 minutos, saí com um sorriso nos lábios..e enquanto caminhava pensei: "uma livraria pequena, mas já com muitos livritos, uma dona simpática e acolhedora, um espaço agradável para se folhearem livros, para se conversar um pouco, mesmo que não se queira ou possa levar algum livro para casa". Como tantos outros pequenos negócios, (sobre)vive dos clientes - dos fiéis e dos esporádicos, dos acidentais e dos menos distraídos.
Eu também vou à Fnac, aquilo é um apelo forte sim senhora!, mas...as livrarias pequenas e acolhedoras como a da minha amiga mereciam outra atenção, mereciam que mais de nós lá comprassem livros para que espaços destes, onde se procuram livros mas também se encontram outras coisas boas - quem não gosta de um dedo de conversa agradável? -, pudessem perdurar, pudessem solidificar-se nas nossas cidades, sem que os seus donos estejam sempre na corda bamba ou com o coração nas mãos! Quem corre por gosto no fascinante e desesperante 'negócio dos livros', merecia clientes mais generosos e mais atentos, mais amigos. Já decidi: a partir de ontem, ali comprarei mais livros, que a Fnac não precisa tanto de mim como eu de um espaço destes..
A quem interessar: Casa dos Livros, Évora. Eu não sei o nome da rua, mas em Évora há cada vez menos livrarias, deve ser fácil de encontrar...
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Quarta-feira, Outubro 18, 2006

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WTF??!!
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Orçamento beneficia IRS de contribuintes casados e prejudica solteiros
16.10.2006 - 21h34 Lusa

Ora bem, ora bem....eis que se apresenta perante todos os portugueses uma verdadeira política de justiça financeira!!
Assim, os casados deixam de ficar prejudicados no projecto do OE para 2007, em matéria de IRS, mas os solteiros são PREJUDICADOS em relação ao articulado actual!!!
Justiça e equidade Sr Ministro?!...Tss, tsss....

PS - Alguém quer casar com a Carochinha??!


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Segunda-feira, Outubro 16, 2006

São como as cerejas

quando as conversas são como aquelas cerejas docinhas, e rijas e mais alaranjadas num ponto que no restante fruto...são as cerejas que recordo. quando as conversas são agradáveis e se estendem como se não houvesse mais um dia apenas o momento do agora e como gostava que eternamente pudessem durar as conversas-cereja. quando as conversas são interessantes e honestas e os interlocutores sinceros sabe bem...
<>
...e o sabor agridoce na espera. que todo o fruto só é bom na sua época.

Sexta-feira, Outubro 13, 2006

La Petite Jerusalem

os tabus e os dogmas religiosos; a filosofia e a vida ou a filosofia de vida; o pudor, o amor, o toque, a paixão....gostei. cena retida: os banhos, o ritual prévio. bonito.

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

pézinhos de lã

..com pézinhos de lã.....ah, como custa tentar andar com pézinhos de lã. É como sinto que ando na maioria dos dias da minha existência, a TENTAR andar com pézinhos de lã. Quiçá um dia destes os pézinhos se transformem em asas? That would be nice..e quero lá saber se pézinhos de lã é expressão que APARENTEMENTE não me assenta mesmo nada...
Há jogos que não fazem sentido. Ou vão deixando de o fazer. É como escrever em letras pequeninas quando se pode escrever com maiores.

ui....
:)

Terça-feira, Outubro 10, 2006

"Amar, ser verdadeiro, deve custar - deve ser árduo - deve esvaziar-nos do ego."
MTC

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

quando a terra treme

Fez ontem um ano. O terramoto no Paquistão,
que matou 73.338 pessoas.
Cerca de 18 mil eram crianças.
Deixou sem abrigo 3,3 milhões de pessoas.

Sexta-feira, Outubro 06, 2006

de Luc Tuymans



Leopoldville, 2000



Bend Over, 2001


Diagnostische Blick IV, 1992

Himmler, 1997/98

Penumbra > Luc Tuymans

Vi uma exposição de Luc Tuymans, há algum tempo, se não me engano em 2004. Fiquei de tal modo impressionada e entusiamada, que me pus a magicar uma forma de fazer um trabalho sobre o artista e a sua obra, numa relação com a Sociologia. A ideia - vaga - era a de criar uma ponte entre uma das temáticas de Tuymans, o totalitarismo e o holocausto, enquanto expressão artística, e os escritos de Hannah Arendt, filósofa e pensadora política, nomeadamente na abordagem que ela faz sobre aquilo a que chamou a 'Raíz do Mal'.
Pareceu-me, na altura, que o rato queria parir uma montanha:)
Hoje, arrependo-me de ter deixado adormecer o entusiasmo..
E esta exposição em Serralves, a 2.ª em Portugal desde 1998, deixou-me água na boca.
LUC TUYMANS DUSK / PENUMBRA 15 JUL - 15 OUT 2006

Terça-feira, Outubro 03, 2006

Inesquecível


Uma boa surpresa esta memória de rádio http://www.radarlisboa.fm/, na poderosa voz de Jeff Buckley (saltaram os adjectivos 'suave' e 'doce'.. é voz que contém mais que isso, e o seu oposto também)
Saudades do Live at Sin-é, escutado a primeira vez há muitos anos. Tenho de o recuperar..

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

JP Simões '1970'

"Honestamente: custa ser exacto – mais fácil é o cinismo e revolutear na ironia do “charco” de ar grave, superior e inquisidor ou então aviar uma inocência supostamente politicamente incorrecta, duas atitudes típicas dos seres pensantes nacionais. Essa é a primeira grande surpresa de “1970”: em vez de ironia, em vez de humor desbragado, em vez de derrotismo – há exactidão, a crueldade de cada palavra medida e comedida e por isso tão mais eficaz, exactidão que por vezes nos leva à comoção, outras é de uma pungência avassaladora. Em “1970”, a extraordinária canção, essa sensatez ácida chega a ser sádica na sua honestidade: “A minha geração já se calou, já se perdeu, já amuou, já se cansou, desapareceu ou então casou ou então mudou ou então morreu, já se acabou”. Entra aí a cuíca e o shaker e Simões continua: “A minha geração de hedonistas e de ateus, (...) de anarquistas deprimidos, de artistas e autistas, estatelou-se docemente contra o céu”. A seguir chega a ser violento: “A minha geração ironizou o coração (…) brincou às mil revoluções, amando gestos e protestos e canções pelo seu estilo controverso”. E é aqui que surgem os metais de casino, os violinos delicados e a pele, a ater-se ainda às palavras, arrepia. Não é o único momento de arrepio, neste disco que de Chico herda o silabar doce e aquela forma em mel de introduzir coros – como o que surge em “Só mais uma samba”: atentem na generosidade do refrão, aquela maneira dengosa de subir, os “ooos” do coro embebidos numa melancolia solar de quem ama o que odeia mas sabe que tem uma trompete empoleirada no ombro e enquanto assim for está bem. E se quiserdes mais comoção ide então beber à doçura das flautas do quase chorinho de “Capitão Simão” acompanhadas do que parece ser um Fender Rhodes. Daí saltem para a melancolicalegria de “Lili e o americano”, coisa de jazz de esquina suja, piano demasiado bebido (e com caruncho na cauda) – faz um belo par com o tema seguinte, movido ao mesmo sentimento turvo de dia que acaba logo quando estava a começar a ser bom.Em “Inquietação” Simões não volta a canção do avesso. O tom, no entanto, é outro. Não diríamos solene, antes cuidado. Talvez não haja a sombra de desespero irado que prenunciávamos em ZMB, antes resignação. A voz parece falhar-lhe e imagina-se que seja com os restos de força das veias a arrastarem o sangue que aquelas palavras vêm à tona. Não é um disco tão despojado quanto Simões defende, mas façamos-lhe a sentida homenagem (e estamos a conter-nos nas palavras): tem tanto (e tento) de Chico como de Edu Lobo ou até Marcos Valle, em particular das obras da década de setenta. E cada arranjo (por aqui há coros, cordas, metais, melódicas, órgãos, pianos, cuícas), de um cuidado imenso, encaixa na umbilicalmente tanto nas canções como nos motivos temáticos que era suposto colorir. No fundo é um disco de instantâneo classicismo que usa a estrutura (re)criada por Chico para, por entre charmes vários e sofisticados arranjos executar a mais antiga das actividades humanas: narrar o humano. Aos 36 anos, Simões é o único homem a solo, depois da geração trovadora de setenta, a botar música que merece ser ouvida em palavras que merecem ser lidas. No mundo das Floribellas, terá valido a pena? Obviamente não: vai tudo ficar na mesma, sempre esteve tudo na mesma. Ainda assim, João Paulo, olha, obrigado por tentares.
JP Simões 1970 NorteSul 8/10"
Excerto de post, Forum Sons, 1.10.2006 (entrevista de João Bonifácio a JP Simões, Y, 29.09.2006)

Terça-feira, Setembro 26, 2006

My heart is with you...


com os amigos. sempre.

Sexta-feira, Setembro 22, 2006

Santiago

Do que me lembro mais?
Do sabor do bolo pôdre, de castanho esponjoso. Da torta de laranja, sempre imperfeita e deliciosa. Do bolo das flores, imponente e majestoso, de uma massa invulgar a derreter-se-me na boca. Dos filmes da Esther Wiiliams, sentada ao teu lado no sofá, à tarde, sem mais ninguém na casa, ou se calhar, com os outros a dormir lá em cima. Dos teus espirros assustadores. Do chá de cidreira, sempre às cinco. Das histórias muito curtas de África. De me abrires a porta sempre que fugia assustada para dentro de casa, quando a Duquesa se soltava. De ver-te de costas, a moer a carne na banca de mármore, a preparar os teus inesquecíveis rissóis.Do cheiro na cozinha, nas escadas, da cera, do antigo, do tique-taque eterno do relógio. Dos comprimidos para o coração e do queixume conformado. Do sorriso nos teus olhos cinzentos, bonitos. Dos rôlos na cabeça, ao sábado de manhã. Das regueifas que trazias sempre. De abrires a porta da frente quando tocávamos à campainha lá ao fundo e ficares à nossa espera, até ao abraço. De perguntares sempre se tinhamos fome quando chegavamos. De mandares fazer o meu vestido azul. De me dares dinheiro quando me vinha embora. De me ralhares por causa das costas do Pedro, sem seres bruta. De seres vaidosa, como todas nós. De seres coquette à moda antiga e de te brilharem os olhos quando falavas de coisas femininas demais ainda para mim. De dizeres que o pai gostava muito de nós. De chorares quase sempre, só um bocadinho de nada. De seres amiga, apesar de tudo, e tanto, apesar do que não é importante. Um beijo para ti vó.

Segunda-feira, Setembro 18, 2006

Australian Summer


Estou a ler o teu 'livro', o teu guião para me aproximar à definição daquilo que escreveste.
Imagino, deitada no sofá, e enquanto folheio a tua primeira obra, como seria transformá-la em filme...porque a tua história é um filme. Pleno de poesia.
E a minha melancolia, leva-me no pensamento da imensa criação, bela!, escondida entre as passagens do tempo que habitamos..

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

ilações espontâneas de combustão fácil..


Uns, de intuição célere, muito inteligentes, apreendem outros com ligeireza - ainda que não os escutem, com verdade.
Aliciados, os primeiros, pelo fascínio dos seus pensamentos, é a sua voz que ouvem, no diálogo.
Incómodo, no semi-autismo.

Segunda-feira, Setembro 11, 2006

Flannery O'Connor

«Li as histórias todas, uma por uma, noite dentro, sempre a sentir-me quase na margem do rio por onde se navega para outra dimensão qualquer. Viajei por dentro de todos os nervos de todas as perplexidades humanas, e a rede de dendrites ia sempre parar ao axónio fundamental, em que, de uma vez por todas, alguém tem que fazer o gesto definitivo que muda tudo, derruba tudo, atira tudo por terra ou volta a pôr tudo no lugar mas já todos sabemos qe nunca mais nada voltará a ser como era dantes. Era incrível. Era hipnótico. Era impossível de interromper antes de chegar ao fim e depois eu apagava a luz e ficava a dar voltas na cama (...). A minha Flannery morreu em 1964. Descubram-na agora, e cada um que julgue por si mesmo.» Clara Pinto Correia
Um bom homem é difícil de encontrar / Flannery O'connor . - Lisboa : Cavalo de Ferro, 2006. - 240 p.

Sexta-feira, Setembro 08, 2006



Liars

25/09 – Porto Rio, Porto

26/09 – Club Lua, Lisboa

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Lettres à un jeune poète (extrait)

Une seule chose est nécessaire: la solitude. La grande solitude intérieure. Aller en soi-même, et ne rencontrer, des heures durant, personne - c'est à cela qu'il faut parvenir. Etre seul comme l'enfant est seul quand les grandes personnes vont et viennent, mêlées à des choses qui semblent grandes à l'enfant et importantes du seul fait que les grandes personnes s'en affairent et que l'enfant ne comprend rien à ce qu'elle font. S'il n'est pas de communion entre les hommes et vous, essayez d'être prêt des choses: elles ne vous abandonneront pas. Il y a encore des nuits, il y a encore des vents qui agitent les arbres et courent sur les pays. Dans le monde des choses et celui des bêtes, tout est plein d'évènements auxquels vous pouvez prendre part. Les enfants sont toujours comme l'enfant que vous fûtes: tristes et heureux; et si vous pensez à votre enfance, vous revivez parmi eux, parmi les enfants secrets. Les grandes personnes ne sont rien, leur dignité ne répond à rien.

Rainer Maria Rilke

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

Paradise Now

Curiosa em relação a este