praguejar
foda-se, que já me irrita esta merda de andar a sonhar com quem deixou de me atender telefonemas ou responder a sms, sem mais nem porquê, sem uma palavrita, uma expressão mais pesada de desagrado, uma frase deixada a um amigo comum que fosse, qualquer coisa. irrita porque não controlo o que sonho e depois acordo a pensar naquilo e ainda mais fodida fico. sem rodeios: fodida.
depois passa. como tudo.
sexta-feira, maio 19, 2017
quarta-feira, fevereiro 08, 2017
Emocionou-me, a visualização do documentário Vida Activa: o Espírito de Hannah Arendt, de Ada Ushpiz.
Em primeiro lugar, porque foi com base num artigo escrito por esta pensadora que apresentei a minha tese final de licenciatura: um “paper” com 30 páginas, sobre a Desobediência Civil, que foi um tiro no escuro. Um tiro no escuro mas com a supervisão do meu Mestre, Silvério Rocha e Cunha, por quem costumo dizer que valeu a pena estudar sociologia na Universidade de Évora.
Em segundo lugar, porque a biografia da pensadora política brilhante que foi Arendt, transposta em imagens, em formato de documentário, é um objeto absolutamente irresistível. A vida dela enquanto “objeto” de assombro, reflexão, admiração e surpresa; o documentário, porque me permitiu observar e conhecer mais um pouco a autora.
Hannah Arendt é daquelas pessoas que surgem na face do planeta como um bicho raro. Porque a inteligência servida em doses elevadas é algo que não encontramos a cada esquina. Porque os percalços e percursos de Arendt são extraordinários: os tempos que viveu foram extraordinários, a fuga ao Holocausto (com H maiúsculo, pese embora também não considere impossível vivermos de novo Holocaustos e não será pernicioso pensarmos que o que se passou entre 39 e 45 do século passado foi o culminar do Mal?) marcou inevitavelmente o seu percurso como pessoa, como mulher e como pensadora (Arendt não gostava de ser designada como filósofa). O percurso académico, a relação com Jaspers, as relações com os maridos e Heidegger, a passagem por Paris, o exílio final nos EUA, a terra onde encontrou tamanha diversidade, que a acolheu. O julgamento de Eichmann e a ostracização de Arendt pela comunidade judaica, também dos EUA, com a célebre polémica gerada em volta da noção de “banalidade do mal” enunciada a partir do julgamento do nazi Adolf Eichmann, em Jerusalém, a que Arendt fez questão de assistir.
Arendt era judia, filha de não praticantes, numa certa fase da sua vida trabalhou em prol da comunidade judaica, mas encontrará incongruências no processo que conduziu ao estabelecimento do Estado de Israel – afinal de contas, os palestinianos estavam lá, na Palestina… "levanta-se a questão moral e política da coexistência do Estado de Israel com os seus vizinhos árabes" (in Soun and Vision, João Lopes).
Em primeiro lugar, porque foi com base num artigo escrito por esta pensadora que apresentei a minha tese final de licenciatura: um “paper” com 30 páginas, sobre a Desobediência Civil, que foi um tiro no escuro. Um tiro no escuro mas com a supervisão do meu Mestre, Silvério Rocha e Cunha, por quem costumo dizer que valeu a pena estudar sociologia na Universidade de Évora.
Em segundo lugar, porque a biografia da pensadora política brilhante que foi Arendt, transposta em imagens, em formato de documentário, é um objeto absolutamente irresistível. A vida dela enquanto “objeto” de assombro, reflexão, admiração e surpresa; o documentário, porque me permitiu observar e conhecer mais um pouco a autora.
Hannah Arendt é daquelas pessoas que surgem na face do planeta como um bicho raro. Porque a inteligência servida em doses elevadas é algo que não encontramos a cada esquina. Porque os percalços e percursos de Arendt são extraordinários: os tempos que viveu foram extraordinários, a fuga ao Holocausto (com H maiúsculo, pese embora também não considere impossível vivermos de novo Holocaustos e não será pernicioso pensarmos que o que se passou entre 39 e 45 do século passado foi o culminar do Mal?) marcou inevitavelmente o seu percurso como pessoa, como mulher e como pensadora (Arendt não gostava de ser designada como filósofa). O percurso académico, a relação com Jaspers, as relações com os maridos e Heidegger, a passagem por Paris, o exílio final nos EUA, a terra onde encontrou tamanha diversidade, que a acolheu. O julgamento de Eichmann e a ostracização de Arendt pela comunidade judaica, também dos EUA, com a célebre polémica gerada em volta da noção de “banalidade do mal” enunciada a partir do julgamento do nazi Adolf Eichmann, em Jerusalém, a que Arendt fez questão de assistir.
Arendt era judia, filha de não praticantes, numa certa fase da sua vida trabalhou em prol da comunidade judaica, mas encontrará incongruências no processo que conduziu ao estabelecimento do Estado de Israel – afinal de contas, os palestinianos estavam lá, na Palestina… "levanta-se a questão moral e política da coexistência do Estado de Israel com os seus vizinhos árabes" (in Soun and Vision, João Lopes).
Foram mais de 2 horas de filme, numa síntese que a Midas Filmes apresenta desta forma: "A filósofa alemã Hannah Arendt causou polémica na década de 1960 ao desenvolver o conceito subversivo da "banalidade do mal" referindo-se ao julgamento de Adolf Eichmann, sobre o qual escreveu para a revista The New Yorker. A sua vida privada não foi menos controversa graças ao seu caso amoroso com o célebre filósofo alemão e apoiante nazi Martin Heidegger. Este documentário provocador e arrojado, com base numa vasta quantidade de materiais de arquivo, oferece um retrato intimista da vida de Arendt, viajando pelos lugares onde viveu, trabalhou, amou, e foi traída, enquanto escrevia sobre as feridas abertas dos tempos modernos".
Sobre o conceito mais polémico entre centenas que desenvolveu, a Banalidade do Mal, muito se escreveu, disse e pensou, muito se há-de continuar a escrever, dizer e pensar, creio.
Arendt, com aquele ar de mulher que não tem tempo a perder com o supérfluo, segura de si, irónica, com um humor que eu lhe desconhecia, sinal do caráter de quem sabe o seu lugar no mundo, uma perfeita consciência de si, dos outros e do ridículo que por vezes a vida é (riu desbragadamente com frases de Eichmann, o burocrata incapaz de imaginação, contudo, um exemplo de funcionário público obediente e eficazmente inteligente, diz ela: inteligente mas estúpido. O "clown"!)
Arendt, com aquele ar de mulher que não tem tempo a perder com o supérfluo, segura de si, irónica, com um humor que eu lhe desconhecia, sinal do caráter de quem sabe o seu lugar no mundo, uma perfeita consciência de si, dos outros e do ridículo que por vezes a vida é (riu desbragadamente com frases de Eichmann, o burocrata incapaz de imaginação, contudo, um exemplo de funcionário público obediente e eficazmente inteligente, diz ela: inteligente mas estúpido. O "clown"!)
Arendt, dizia eu, foi sem dúvida um ser extraordinário, brilhante, controverso, errante, humano. O que me leva a refletir na falta de heróis na minha vida, de pessoas que sejam capazes de me deixar assoberbada, orgulhosa, perturbada, encantada, esperançosa. Haja os livros e o pensamento, que tenho anos para me entreter.
NOTA – O documentário em apreço, estará até hoje no cinema Ideal em Lx, mas pode ser consultado na internet, num site qualquer perto de si.
NOTA – O documentário em apreço, estará até hoje no cinema Ideal em Lx, mas pode ser consultado na internet, num site qualquer perto de si.
segunda-feira, outubro 17, 2016
quarta-feira, março 02, 2016
Eduardo Lourenço, entravado de início pelo ónus da idade, converte em viço a sua voz, para concluir a leitura emocionado:
“A lua subiu ao céu quente, a sua água escorre-me agora pelo corpo. Lavo nela as minhas mãos e é como se me purificasse num tempo anterior à vida, num luminoso halo de coisas por nascerem. Súbito, neste silêncio mineral, a porta da sala range e o vulto de minha mulher, o seu corpo franzino, esfuma-se na sombra. Senta-se ao meu lado, estende os pés ao luar ...sem dizer nada: ao fim de muitos anos aprendemos a verdade, na aparição da graça, num limiar de presença, antes que sobre a Terra fosse pronunciada a primeira palavra. Tomo as suas mãos nas minhas e no deslumbramento da noite abre-se, angustiada, a flor da comunhão…”.
No fim, comovido, eu comovida, a sala toda devia ter ficado emocionada, se não ficou, e para Lídia Jorge: “Ele sabia escrever sobre as mulheres, Lídia” e ela encosta o seu rosto no ombro dele, enquanto ele a conforta com uma carícia paternal.
Este momento retive-o da leitura do prefácio de Aparição, por Eduardo Lourenço, em jeitos de encerramento do Congresso Internacional Comemorativo do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, organizado pela Universidade de Évora.
Se a intervenção de Lídia Jorge focou, entre outros, o sentimento de Vergílio Ferreira perante a condição feminina, predicado da sua geração, como ela frisou, e do seu tempo, e que sobre as mulheres nem sempre teceu laudatórios comentários, sobretudo perante a apropriação feminina do Romance e quiçá preocupado com a capitulação do mesmo, não deixou também de finalizar que devia ao escritor o seu rigor e aprendizagem, e que ele fora a primeira pessoa a quem ela dera a ler o seu primeiro Romance e sobre o qual ele escreveu e publicou comentário num jornal.
“A lua subiu ao céu quente, a sua água escorre-me agora pelo corpo. Lavo nela as minhas mãos e é como se me purificasse num tempo anterior à vida, num luminoso halo de coisas por nascerem. Súbito, neste silêncio mineral, a porta da sala range e o vulto de minha mulher, o seu corpo franzino, esfuma-se na sombra. Senta-se ao meu lado, estende os pés ao luar ...sem dizer nada: ao fim de muitos anos aprendemos a verdade, na aparição da graça, num limiar de presença, antes que sobre a Terra fosse pronunciada a primeira palavra. Tomo as suas mãos nas minhas e no deslumbramento da noite abre-se, angustiada, a flor da comunhão…”.
No fim, comovido, eu comovida, a sala toda devia ter ficado emocionada, se não ficou, e para Lídia Jorge: “Ele sabia escrever sobre as mulheres, Lídia” e ela encosta o seu rosto no ombro dele, enquanto ele a conforta com uma carícia paternal.
Este momento retive-o da leitura do prefácio de Aparição, por Eduardo Lourenço, em jeitos de encerramento do Congresso Internacional Comemorativo do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, organizado pela Universidade de Évora.
Se a intervenção de Lídia Jorge focou, entre outros, o sentimento de Vergílio Ferreira perante a condição feminina, predicado da sua geração, como ela frisou, e do seu tempo, e que sobre as mulheres nem sempre teceu laudatórios comentários, sobretudo perante a apropriação feminina do Romance e quiçá preocupado com a capitulação do mesmo, não deixou também de finalizar que devia ao escritor o seu rigor e aprendizagem, e que ele fora a primeira pessoa a quem ela dera a ler o seu primeiro Romance e sobre o qual ele escreveu e publicou comentário num jornal.
(a ler Aparição, finalmente, e inquieta para partir para o próximo. depois, Lídia Jorge.)
terça-feira, novembro 17, 2015
quarta-feira, novembro 04, 2015
Depois de mais um combate
Mal refeito do ringue, carrego a toalha
como uma montanha onde a neve é de
chumbo venoso. Carrego-a como um
manto e levanto voo leve rumo à teia
da sempre aranha, mesmíssima princesa.
Tenho nódoas negras áridas da baba
breve e carrancuda da comensal. Acaba
a manhã com uma finta à fome e fio
a seda como um orvalho olheirudo
e aproveito os tempos mortos para
os assear e amontoar e subir ao cimo
daquele abraço. Depois, iludo a água
que me visita o pó sanguíneo e firmo
os pés inolentes na pauta do declínio.
como uma montanha onde a neve é de
chumbo venoso. Carrego-a como um
manto e levanto voo leve rumo à teia
da sempre aranha, mesmíssima princesa.
Tenho nódoas negras áridas da baba
breve e carrancuda da comensal. Acaba
a manhã com uma finta à fome e fio
a seda como um orvalho olheirudo
e aproveito os tempos mortos para
os assear e amontoar e subir ao cimo
daquele abraço. Depois, iludo a água
que me visita o pó sanguíneo e firmo
os pés inolentes na pauta do declínio.
segunda-feira, outubro 26, 2015
segunda-feira, agosto 17, 2015
terça-feira, julho 14, 2015
quarta-feira, julho 01, 2015
terça-feira, junho 02, 2015
Da inteligência que o faz ser estúpido
A mulher sabe que a beleza acaba. Pensa nisso todas as manhãs, quando se vê ao espelho da casa de banho e repara que está com os cabelos desgrenhados e com uma ou outra ruga. Às vezes até uma branca. Penteia-se durante alguns minutos e o pensamento dela centra-se no tempo que passa.
O homem também acorda, coça os tomates e, quando a vê pentear-se, o pensamento centra-se sempre na presente beleza dela. É boa. O futuro não interessa.
Neste aspecto, o homem sempre teve a inteligência de ser mais estúpido do que a mulher. O Amor é quase só isso, aquele momento em que a mulher se penteia semi-nua em frente ao espelho, com um ar tão sério que só pode estar a pensar no almoço.
Esta estupidez inteligente é, aliás, a sorte do homem, que não tem que ser bonito para que a mulher se apaixone por ele. A mulher sabe que o Amor tem que ser muito maior do que esse pequeno pormenor da beleza ou da feiura. Já com ela, a exigência é maior por a exigência ser menor. O homem só a quer bonita, então ela penteia os seus cabelos desgrenhados todas as manhãs, lutando contra o tempo. Ele não.
É por isso que o homem é melhor amante e a mulher é melhor a Amar. Não é grave, as coisas equilibram-se no exacto momento em que a mulher se afasta por uns momentos e ele fica com vontade de abraçar o vento. É com a ausência dela que ele a percebe e que ela lhe ensina que o Amor se prolonga para além do que se vê.
Um homem também pode perder a inteligência que o faz ser estúpido.
retirado do blogue http://naocompreendoasmulheres.blogspot.pt/
segunda-feira, maio 04, 2015
"Soneto da perdida esperança"
Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto...
passaria sobre meu corpo.
Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto...
passaria sobre meu corpo.
Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.
Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? Na noite escassa
com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.
--- Carlos Drummond de Andrade
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.
Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? Na noite escassa
com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.
--- Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, março 24, 2015
nunca mais quero escrever numa língua voraz,
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,...
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo —
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-las numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio
in "Servidões"
Herberto Hélder
1930-2015
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,...
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo —
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-las numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio
in "Servidões"
Herberto Hélder
1930-2015
quarta-feira, março 11, 2015
segunda-feira, junho 23, 2014
amo o mar
sou a rosa ramalho da minha poesia
desencontrada nos escaparates
para venda pública
não estudei
e pouco sei
desta persona borderline
acorda-me cedo o dia
sempre quase
sempre quase
invadida fugazmente pelo mesmo
não rimo, não estimo
e embaraço-me sozinha
de pé
amo o mar, que sei lava-me
os cabelos da poluição anual
no momento estivo da comunhão
(...)
segunda-feira, junho 02, 2014
bloqueio ao sonho
ainda acho que não é de minha culpa
a culpa de ter um bloqueio ao sonho
enfiei-me à socapa entre a secretária e a cadeira
herdadas do Estado Novo
para trabalhar, dia sim dia sim
até me cansar de vez
para o novo Estado.
ainda acho que não é mea culpa a frase com que devo
inscrever-me porque aqui fui ficando
entalada entre duas coisas inertes
a escrevinhar ofícios inconsequentes
na saturação dos dias infinitos.
não me vem a imaginação e o sonho bloqueado.
a repetição faz parte do meu vocabulário repetitivo e só
coitado. coitado. coitado.
ainda acho que não é minha culpa
a culpa de não procurar fora do sonho
a vida que afinal, teima em ser imaginada...
olha!, afinal vive
e até tens a fotogafia do momento:
tu e ele, em casa, os livros espalhados, fariam dinheiro
não sabes bem como, que interessa
se calhar sim, interessava veres com mais luz
e se vislumbrasses um sonho? que fazes tu?
ainda acho que não é minha esta culpa
não quero passar mal quero só passar,
afinal
sem esforço, sem pesados trabalhos
por aqui.
ainda acho que não é minha a culpa.
ainda
acho que é.
ainda acho que não é de minha culpa
a culpa de ter um bloqueio ao sonho
enfiei-me à socapa entre a secretária e a cadeira
herdadas do Estado Novo
para trabalhar, dia sim dia sim
até me cansar de vez
para o novo Estado.
ainda acho que não é mea culpa a frase com que devo
inscrever-me porque aqui fui ficando
entalada entre duas coisas inertes
a escrevinhar ofícios inconsequentes
na saturação dos dias infinitos.
não me vem a imaginação e o sonho bloqueado.
a repetição faz parte do meu vocabulário repetitivo e só
coitado. coitado. coitado.
ainda acho que não é minha culpa
a culpa de não procurar fora do sonho
a vida que afinal, teima em ser imaginada...
olha!, afinal vive
e até tens a fotogafia do momento:
tu e ele, em casa, os livros espalhados, fariam dinheiro
não sabes bem como, que interessa
se calhar sim, interessava veres com mais luz
e se vislumbrasses um sonho? que fazes tu?
ainda acho que não é minha esta culpa
não quero passar mal quero só passar,
afinal
sem esforço, sem pesados trabalhos
por aqui.
ainda acho que não é minha a culpa.
ainda
acho que é.
quarta-feira, maio 21, 2014
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